Aos 75 anos, Liv Ullmann se sente como se tivesse apenas 20

Toronto (Canadá), 14 dez (EFE).- Aos 75 anos de idade, a diretora e atriz norueguesa Liv Ullmann confessa que se sentir como se tivesse 20 anos e que continua obsessiva com o isolamento e a falta de comunicação entre os indivíduos, o que explorou em seu último filme, "Miss Julie".

Elaapresentou em setembro "Miss Julie" durante o Festival Internacional de Cinema (TIFF) da cidade canadense. Toronto tem um significado especial para a artista, que durante anos foi a musa do diretor sueco Ingmar Bergman.

"Toronto me está tratando de modo fenomenal", disse Ullmann à Agência Efe durante um encontro pela estreia de "Miss Julie", sobre a obra homônima de August Strindberg e protagonizada por Jessica Chastain, Colin Farrell e Samantha Morton.

Ela Ullmann explicou por que Toronto é um lugar especial para ela.

"Estávamos no Japão quando começou a guerra (Segunda Guerra Mundial). Escapamos e viemos a Toronto porque meu pai era engenheiro (aeronáutico) e ajudava pilotos ingleses e noruegueses. Infelizmente ele morreu".

"Minhas lembranças originais de Toronto são com meu pai. E devo ter sido feliz porque, haja o que houver, sempre lembrarei meu pai como este homem com um jaqueta de couro tomando minha mão", acrescentou.

A lembrança é ainda mais pessoal porque seu pai, Erik Viggo Ullmann, morreu em Toronto e, quando a guerra terminou, a família retornou à Noruega, o que fez com que cada retorno ao Canadá gerasse "fortes sentimentos".

Ullmann não esquece a lembrança de seu pai: "Inclusive em um filme como 'Miss Julie' há uma pintura de uma mulher com um homem ao seu lado. É a mesma imagem que tenho, essa lembrança do que significa ser uma mulher e um homem, de uma menina com seu pai".

Em "Miss Julie", a diretora conta a claustrofóbica relação no final do século XIX em uma zona rural da Suécia entre Julie, uma jovem rica interpretada por Chastain, e seus dois serventes, Jean (Farrell) e Christine (Morton).

Ullmann confessou sua admiração pelo talento de Strindberg, cujas obras influenciaram criadores como Tennessee Williams e Ingmar Bergman, apesar de reconhecer que o dramaturgo sueco "odiava as mulheres".

"Quando Eugene O'Neill ganhou o prêmio Nobel agradeceu Strindberg. E Tennessee Williams disse que foi seu melhor professor. (Henrik) Ibsen não teria dito isso porque pensava que ninguém era melhor que ele. Mas acho que Strindberg é o melhor", declarou.

Por isso, quando os produtores de "Miss Julie" deram a ela carta branca para adaptar qualquer obra que quisesse, a diretora se decidiu pelo drama do escritor sueco.

"'Miss Julie', mais que nenhuma outra obra que conheço, põe o dedo em tudo isso. Quando trabalhei com a obra, encontrei tudo o que queria dizer em um filme. Quem somos, o que somos, por que não nos escutamos uns aos outros, por que não nos conectamos", raciocinou a diretora.

Ullmann contou ter escrito seis ou sete rascunhos do roteiro, porque apesar de considerar a mensagem de Strindberg atual, nunca pensou em situar a trama em uma data contemporânea.

"não seria o mesmo. A audiência relaxa mais, se sente mais segura quando é algo do passado. Porque não é sobre eles. Isso acontece quando se lê Shakespeare. Escreve sobre outras pessoas. Mas de repente não é, está descrevendo você. Por isso, as obras clássicas são maravilhosas".

A cineasta, que admitiu preferir dirigir teatro. "Um filme gasta dois ou três anos e me enfada tanto porque tem produtores e toda esta gente mudando tudo"), e contou algo sobre como tratar aos atores.

"Os respeito e acho que o melhor para um diretor é permitir que os atores sejam criativos".

"Quando era jovem, fiz um filme com Charles Bronson e James Mason ("Visitantes na Noite", 1970). O diretor nos disse que o principal era que cada vez que Mason entrasse no quarto, estivéssemos assustados. Isso não é atuar. Isso não se faz com os atores. É preciso permitir que eles sejam eles mesmos", explicou Ullmann. EFE