Jogos de Tóquio: atletas olímpicos querem ser vacinados, mas não 'furar fila'

Carol Knoploch
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Alison viveu uma espécie de transe quando conquistou a medalha de ouro nos Jogos do Rio, ao lado de Bruno Schmidt, na arena lotada de Copacabana. O juiz encerrou a partida e ele correu para a arquibancada: abraçou, foi abraçado, beijou sua então namorada e "perdeu a noção do tempo". Disse que parecia mais ficção, cena de cinema, do que realidade. Classificado para os Jogos de Tóquio, em julho, ao lado de Álvaro Filho, o jogador sabe que tudo isso não vai se repetir.

Para evitar a propagação da Covid-19, cenas como essa não serão permitidas no Japão. Não se sabe ainda, por exemplo, se as arenas receberão torcida e em que circunstâncias.

Oficialmente, tanto Comitê Olímpico Internacional (COI) como o Comitê Organizador de Tóquio afirmam que a Olimpíada será realizada com público e sem exigência de vacinação para os atletas. Trabalham com quatro cenários de preparação, segundo o grau de preocupação com a pandemia. Mas, ambos os órgãos já se movimentam para que os esportistas sejam vacinados antes de chegarem ao Japão, inclusive arcando com os custos.

No Brasil, a notícia de que a Associação Brasileira das Clínicas de Vacinas (ABCVAC) tem se empenhado para a compra de milhões de doses de imunizantes para a rede privada, sem, em tese, comprometer a demanda do governo federal, empolga atletas que vivem um misto de sensações.

Ao mesmo tempo que desejam viajar imunizados para evitar a doença e a propagação em escala mundial, eles não querem "furar a fila" e comprometer o plano de vacinação do governo federal, que priorizará os grupos de risco. O Brasil aguarda a aprovação do uso emergencial de imunizantes apenas para a rede pública, via SUS, num primeiro momento.

— Assim que o Brasil começar a aplicar a vacina em seus cidadãos e, se for possível, o COB deveria fazer algo no sentido de imunizar seus atletas que representarão o país. Acho que vai ser um processo natural e a entidade terá essa preocupação, sem prejudicar quem precisa, via rede privada. Há várias vacinas ofertadas — opina Alison, que já teve Covid-19 e mesmo assim mantém os cuidados de higiene e distanciamento social.

Isso porque ele teme nova contaminação. Alto (2,03m), forte (102kg) e conhecido como Mamute, ele teve quadro importante da doença mas não precisou de internação. Com febre alta, diarréia, dor no corpo, ele também perdeu o paladar e o olfato por sete dias. Quando curado, demorou cerca de três semanas para voltar a ter condicionamento físico.

Ele reforça, no entanto, que o importante é a população mais vulnerável se ver livre deste perigo e que este é o principal objetivo no mundo.

Segundo a imprensa japonesa, em dezembro, o primeiro-ministro, Yoshihide Suga, enviou carta à Aliança Global de Vacinas (Gavi), apoiando o desejo do COI de administrar o imunizante a atletas e oficiais, principalmente de países em desenvolvimento.

Recentemente, o COI, em entrevista ao jornal The Guardian, informou que junto aos Comitês Olímpicos Nacionais, faria todos os esforços para que estes auxiliem seus atletas a serem vacinados antes de viajarem ao Japão.

Nesta semana o Japão registrou recorde de mortes pela doença e a área metropolitana de Tóquio se prepara para entrar em lockdown. Com base nisso, o canadense Dick Pound, membro mais antigo do COI, disse que não enxerga a realização dos Jogos sem vacinação para os atletas.

Sheilla, que jogará vôlei nos EUA, definiu a doença como “roleta russa" e disse que gostaria de ser vacinada:

— Achei que o COI fosse exigir a vacina, não sei se ainda farão. Se for possível gostaria de me vacinar mas sei que não sou prioridade — disse ela, que não teve Covid-19.

Mais testes

Ao menos, Bélgica e a Índia pretendem vacinar os atletas. Na Bélgica, os atletas podem entrar em uma lista de prioridade para a vacinação, uma vez que o país teve um índice baixo de contaminação em sua população jovem mas cerca de 20% dos atletas tiveram casos positivos para a Covid-19 Mas, EUA, Noruega e Holanda, não. A Grã-Bretanha deve vacinar toda sua população com a primeira dose, antes de aplicar a segunda.

No Brasil, o COB diz que não “quer furar fila” e que atualmente foca na testagem e não na vacinação.

O diretor geral da entidade, Rogério Sampaio, comentou a postura do COI. Segundo ele, uma posição de liderança e que o COB procura seguir suas determinações:

— Nosso objetivo é sempre dar a maior segurança para os nossos atletas. Entendemos que até pelo fato de viajarem muito ao exterior, é muito importante que tenham uma proteção diferente. A chance de contaminação é muito maior. Se as clínicas particulares puderem participar da vacinação, diminuiria a pressão sobre o sistema público de saúde. E o COB está atendo a isso e aguarda as definições sobre este tema, sempre respeitando as decisões prioritárias do governo — afirmou Rogério, que diz se vacinar todos os anos para gripe, em clínica particular, mesmo com oferta na rede pública.

Assim, o COB explica que trabalha com a realidade atual. Nas próximas semanas, ao lado da Fiocruz, vai divulgar um novo plano de testagem para os atletas.

A entidade explicou que, com esta parceria, pretende ampliar o leque de atletas testados mas não informou ainda como isso deve ser feito. O GLOBO apurou que o COB receberia um novo teste rápido, mais confiante do que os aplicados atualmente, e que também será usado na aclimatação dos atletas, no Japão.

O COB está reavaliando toda a operação para Tóquio em conjunto com infectologistas. Iniciativas como mudança na dinâmica dos refeitórios e entrega de uniformes, maior distanciamento interno nos alojamentos e dos passageiros nos veículos para deslocamentos, mais reserva para quartos individuais e redução e controle da interação com o público local e prestadores de serviços já estão sendo providenciadas.

10% pegou Covid-19

Hoje, o COB testa com maior frequência os atletas que usam o CT, no Parque Maria Lenk, no Rio, (principalmente ginastas, que faziam testes semanais), e os que já estão nominalmente classificados para Tóquio (são 40; o Brasil tem 180 vagas garantidas).

Mas não há uma regularidade. O COB quer testá-los a cada 15 dias já a partir deste mês e, com a parceria com a Fiocruz, será possível aumentar a gama de atletas.

Segundo a entidade, que gastou cerca de R$ 220 mil em cerca de 800 testes, atletas do pólo aquático, nado sincronizado, saltos ornamentais, maratonistas aquáticos, nadadores e atletas do taekwondo estão treinando no CT do COB e foram testados. Estão hospedados em um hotel em frente ao Maria Lenk e respeitam esquema "bolha".

O COB afirma que subiu de 7% para 10% o número de esportistas da lista larga (de cerca de 950) que já pegaram o novo coronavírus. Isso sem contar casos assintomáticos de atletas que nem sabem se ficaram ou não doentes.

Esse pode ser o caso de Henrique Avancini, número um do mundo de mountain bike. Ele conta que não sabe se já teve Covid-19 mas que se sentiu muito mal após uma viagem para uma prova na África do Sul, em março.

Ao chegar de volta ao Brasil, foi direto para o hospital, mas, sem exames de sorologia à época, voltou para casa e fez quarentena.

— Até hoje não sei se tive Covid. Antes não havia testes de PCR e meses depois, quando fiz, deu negativo — contou Avancini, que endossa a lista dos sonhadores: — É possível que a vacina se torne uma exigência para os Jogos. Eu prefero viajar vacinado, se for possível, nas clínicas privadas, sem furar fila. Não tenho medo mas respeito o vírus e a doença.

Os custos dos Jogos aumentaram US $ 2,8 bilhões (R$15 bilhões) por causa das medidas necessárias para prevenir a disseminação do coronavírus.