John Graz, que trouxe estilo art déco, é lembrado em exposições

·5 minuto de leitura
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 24.03.2018 - A curadora Fernanda Pitta durante evento na Pinacoteca, em São Paulo. (Foto: Greg Salibian/Folhapress)
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 24.03.2018 - A curadora Fernanda Pitta durante evento na Pinacoteca, em São Paulo. (Foto: Greg Salibian/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Ele pintou a fauna e a flora brasileiras, fez telas sobre os indígenas, viajou ao sul para retratar os gaúchos e a estados do Nordeste para representar a tradição do bumba-meu-boi. Também se dedicou a desenhar móveis para as casas da elite paulistana, incluindo pormenores como as fechaduras de portas.

Transitando entre as artes visuais e a arquitetura de interiores, o suíço John Graz --considerado um dos introdutores do estilo art déco no país-- foi uma importante figura do meio intelectual paulistano no século 20, tendo publicado na revista Klaxon e participado da Semana de Arte Moderna de 1922, com sete telas que pintou em Genebra, antes de se mudar para o Brasil.

Mesmo assim, seu nome é menos lembrado em comparação a outros artistas daquele período. Isso agora está mudando, graças a uma revisão dos participantes da Semana de 1922 --por causa do centenário do evento, em fevereiro--, atrelada a diversas exposições na capital paulista.

Uma grande mostra aberta há pouco, na Pina Estação, e outras mostras neste e no próximo ano procuram dar conta da totalidade do trabalho de Graz, trazendo a público uma grande investigação de sua obra e diversas peças nunca antes mostradas.

Graz "vem de uma formação nas artes decorativas, não existe separação entre artes visuais e arquitetura, mobiliário, mas uma tentativa de integração dessas várias manifestações artísticas", diz Fernanda Pitta, curadora de "John Graz: Idílio Tropical e Moderno", na Pina Estação.

Em 155 obras, sendo 42 recebidas de uma doação do Instituto John Graz, a mostra cobre cinco décadas da produção do artista, evidenciando seu fascínio com os tipos humanos e as tradições do Brasil. Há um conjunto expressivo de guaches e aquarelas sobre índios, por exemplo, tema que perpassou a maior parte da vida produtiva do artista.

As representações de pessoas com arco e flecha em meio à natureza ou descansando em redes sob a sombra de palmeiras apontam para uma aproximação idílica e um tanto genérica dos povos originários, afirma a curadora, no que ela diz considerar um limite.

Ao que se sabe, Graz nunca estudou a fundo as tribos pelas quais tanto se interessava, afirma Pitta, diferentemente de sua mulher, Regina, que pesquisou as tecelagens de comunidades do Alto Amazonas em busca de padrões para reproduzir em suas tapeçarias --alguns desses tapetes podem ser vistos no site do Museu de Arte Moderna de São Paulo, o MAM, na versão virtual da exposição "Desafios da Modernidade "" Família Gomide-Graz nas Décadas de 1920 e 1930".

Embora o forte da mostra na Pina Estação sejam as pinturas, há gessos, estudos de murais desenhados para interiores de residências e fotografias de ambientes projetados pelo artista, a exemplo do quarto do casal Antonieta e Caio Prado, uma família da elite cafeicultora paulista.

Pitta lembra que Graz trabalhava sob encomenda. Como designer, realizou mobiliário de traços art nouveau, com as formas arredondadas de inspiração europeia preferidas pelas elites antes de o modernismo e suas linhas geométricas entrarem em voga e serem igualmente abraçados por ele, que então passou a decorar casas do arquiteto ucraniano Gregori Warchavchik, nome central do movimento moderno brasileiro.

Na Pina Estação, há fotos em preto e branco de ambientes desenhados por Graz, além de uma cadeira de três pés em madeira nobre e uma poltrona. O forte do seu mobiliário, contudo, está na mostra do MAM, com seus famosos sofás e poltronas tubulares.

Uma das instituições por trás da grande revisão do artista é o Instituto John Graz, criado em 2005, em São Paulo, pela última mulher do artista, Annie. Ela preservou e catalogou o acervo e os documentos de Graz depois de sua morte, em 1980, até que mais tarde a neta, Claudia Taddei, assumiu a frente do instituto e iniciou o contato com instituições e colecionadores.

"Nosso desejo é que as pessoas possam voltar a ter uma compreensão da obra do John como um todo", afirma Taddei. Seu avô desenhava ambientes completos, amarrados num conceito único que incluía o mobiliário e as pinturas ou murais nas paredes.

O panorama do artista se completa com mais duas mostras. A primeira, no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, o MAC, vai exibir dois estudos de murais que misturam paisagem tropical e elementos urbanos.

Essas peças são parte de uma exposição que celebra a doação para o museu da coleção de mobiliário art déco dos colecionadores Fulvia e Adolpho Leirner, que reúne um conjunto de peças da época modernista, a exemplo de cadeiras de Flávio de Carvalho e do mobiliário da Casa Modernista de Warchawchik.

Ana Magalhães, diretora e curadora do MAC, afirma que as artes aplicadas --design, mobiliário e objetos pensados para a vida cotidiana-- "nunca foram consideradas como uma produção da mesma relevância que as artes com a maiúsculo". Mas acrescenta que, nas últimas duas décadas, este movimento vem passando por uma revisão, sobretudo das peças produzidas na primeira metade do século 20, na qual John Graz e sua primeira mulher, Regina, se incluem.

Por fim, está programada para 2022 uma exposição no Museu da Casa Brasileira sobre o trabalho de Graz como designer e arquiteto de interiores, com peças nunca antes mostradas em público. Para Taddei, do instituto, "mais do que conhecido, Graz era respeitado pela sua inovação e pelo vanguardismo."

John Graz: Idílio Tropical e Moderno

Pina Estação, Largo General Osório, 66, São Paulo.

Qua. à seg., das 10h às 18h.

Grátis. Até 31/1/2022

Projetos para um Cotidiano Moderno no Brasil

MAC-USP, av. Pedro Álvares Cabral, 1301, São Paulo.

Ter. à qui., das 11h às 19h; sex. a dom., das 11h às 21h.

Grátis. A partir de 21/8

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos