John Wetton, apogeu e queda do progressivo (e da humanidade)

Alex Antunes

O baixista e vocalista John Wetton morreu na última terça feira feira. Foi uma das figuras centrais do rock mais absurdamente criativo, na formação mais clássica e experimental do King Crimson, na década de 1970. Mas a maior parte dos ouvintes, se conhece sua voz, é de hits FM baba da década de 1980 como “Heat Of The Moment” e “Only Time Will Tell” do Asia, ou “Did It All For Love” do Phenomena. Os de espírito mais punk reduziriam a questão a um diagnóstico de sell out (vendido), mas explicar melhor esse paradoxo nos interessa.

Wetton chegou ao King Crimson em 1972, na vaga que inicialmente tinha sido de outro expressivo cantor e baixista, Greg Lake (com alguns tapa-buracos no meio). Vou tentar explicar o que aconteceu entre os dois, e o significado que o KC iria adquirir na segunda fase da contracultura, a “negativa”. A espetacular entronização do King Crimson na cena se deu em 5 de julho de 1969, abrindo o show dos Rolling Stones no Hyde Park. Acontece que esse viria a ser o primeiro show dos Stones após a morte de Brian Jones, e acabou se revestindo de um enorme significado de “fim do sonho” hippie, que já estava, ou estaria latente em outras ocasiões.

Conta Jards Macalé que Gilberto Gil escreveu os versos “o sonho acabou/ quem não dormiu no sleeping bag nem sequer sonhou” (“O Sonho Acabou”, Expresso 2222, 1972) ao acordar no alto de uma elevação onde os brasileiros tinham armado suas barracas no festival da Ilha de Wight, na Inglaterra, em maio de 1970, e ver a movimentação de forças militares nas bordas do festival. Elas não estavam lá para reprimir, antes para “proteger” a bolha hippie (mais histórias psicodélicas do sensacional Macao nesta entrevista aqui). Mas era a visão de um limite. Nesse festival deu-se a agressiva estréia do ELP, sobre o qual eu já falarei, num outro momento nada hippie, que combinou com o clima algo tenso do evento.

Um dos marcos “oficiais” do fim do sonho foi o show dos próprios Stones em Altamont, em 6 de dezembro de 1969, com a morte de duas pessoas (inclusive de um dealer negro, já totalmente encarnado no personagem malaca da blaxploitation, por um motoqueiro branco dos Hells Angels). Hoje sabemos que Jagger, mais que vítima das circunstâncias, foi um catalizador dessa “morte do sonho”, por razões financeiras. Mas o fato é que o King Crimson, no Hyde Park, apresentando o repertório de seu vindouro álbum de estréia, já parecia totalmente integrado nessa segunda fase da contracultura, a da rebordosa, com suas visões distópicas, que se afirmariam desde a capa do disco até os primeiros acordes de “21st. Century Schizoid Man”.

Ao tentar recuperar sua parceria criativa com os irmão Giles, o baterista Michael e o baixista Peter, o guitarrista e principal compositor Robert Fripp desequilibrou a banda. No segundo disco trouxe Peter para o baixo, deixando Greg Lake apenas com os vocais. Certamente essa decisão pesou para que Lake aceitasse o convite de Keith Emerson (ex-The Nice) para formar o supertrio Emerson Lake & Palmer (falo mais sobre a banda aqui). Ao fim e ao cabo, Fripp acabou perdendo, ao longo da feitura dos três discos que sucederam o de estréia (em 1970-1971), não só Lake como todo o núcleo fundador, incluindo Michael (e Peter), o saxofonista e tecladista Ian McDonald e finalmente o letrista-comparsa Peter Sinfield.

Assim como In The Court Of The Crimson King, In The Wake Of Poseidon, Lizard e Islands são grandes álbuns da fase de amadurecimento de Fripp, uma usina de ideias (estamos falando de quatro discos lançados em dois anos e um mês). Ao lado de outras bandas, como o ELP e também o Pink Floyd, o Yes e o Genesis (e uma miríade de outras, em vários países) eles definiram o território do rock progressivo, juntando à psicodelia elementos de música clássica, étnica, experimental e jazz.

Ainda que os punks viessem a caracterizar o período todo como uma época de autoindulgência, diluição e efeitos grandiloquentes fáceis, é inegável que bandas como o King Crimson, o Gentle Giant e o Van Der Graaf Generator avançavam ousadamente em territórios musicais inexplorados. E é isso que nos leva a John Wetton.

Tendo trabalhado com quase duas dezenas de músicos, fixos ou convidados, como veículos para seus exercícios e experimentações, Fripp parecia estar pronto para um mergulho ao mesmo tempo coletivo e profundamente autoral. Para isso, precisava estabilizar uma formação, que ao mesmo tempo corresponde-se “telepaticamente” aos seus inputs e partisse daí para o imponderável. Na foto abaixo, percebe-se claramente essa noção de “hierarquia invertida”, ou subvertida, em que Fripp, sentado e das sombras, à direita, dispara o processo do resto do grupo, à esquerda.

Fripp, um estudante de magia e espiritualidade, estava interessado em música não como veículo para o sucesso massivo, mas para criar uma dimensão estética (e mesmo ética) própria. E reuniu em 1972 uma espécie de supergrupo às avessas, com Wetton (baixo e voz), Bill Bruford (bateria), David Cross (violino, mellotron) e Jamie Muir (percussão). Não no sentido de serem músicos desconhecidos – dois deles, Wetton, do Family, e principalmente Bruford, do Yes, nem o eram.

Mas de serem não uma soma mercadológica de talentos reconhecidos (Cream, ELP), e sim uma espécie de fusão hiperdélica de personalidades. O outro elemento eram as letras de Richard Palmer-James, que apenas entregava os textos (ele só ouvia as músicas depois de prontas), de um existencialismo um pouco mais borrado ou abstrato que o do cronista contracultural Sinfield. Não havia uma razão específica para tudo isso soar bem junto, a não ser a suposição “mágica” de Fripp. Seria uma espécie de retomada da metafísica hippie uma oitava acima (ou abaixo), somada à noção de perigo, de bad trip como hipótese complementar, não como efeito colateral.

Parece que parte da frustração de Fripp vinha do disco ao vivo que ele teve que entregar para a gravadora naquele ano, Earthbound, em que a banda, à revelia, se refugiava em alguns clichês suingantes nas partes improvisadas. Com a nova formação, o resultado, o disco Larks’ Tongues In Aspic, de 1973, é realmente um salto no desconhecido, particularmente as duas partes da música-título. (Assim como a “brain salad surgery” do ELP, essas “larks’ tongues”, ou línguas de cotovia na galantina, são uma tentativa chacoteira de amigos de descrever o que estava acontecendo sonoramente com as bandas.)

O espírito livre dessa formação é encarnado inicialmente no percussionista Jamie Muir, que salpica o que às vezes poderia ser descrito como free-rock com ruídos os mais diversos, de engraçados a sinistros (sendo que mesmo os timbres mais engraçados tem algo de sinistro, ou denso). Como em passagens dos trabalhos anteriores, por exemplo o solo de Fripp em “Sailor’s Tale” (de Islands), a música parece ilustrar um embate entre a contenção e a liberação de energia (nesse sentido, poderia ser descrita como algo tântrica – e sem dúvida há algo de bastante sexual nessa treta, ainda que não exposto diretamente nas letras).

E o trabalho de John Wetton, tanto no vocal quanto no baixo, é o de ancorar e humanizar o flerte com o caos. O disco também tem momentos de melodismo delicado e lancinante (conduzido frequentemente pelo violino de Cross, como em “Exiles”, ou na pequena pérola que é a balada “Book Of Saturday”), mas a impressão geral é de um disco iniciático, reforçada pela capa com o sol e a lua acoplados. Wetton era um cara easygoing, achava facilmente seu lugar em formações tão disparatadas quanto o hard rock do Uriah Heep quanto o pós-glam fragmentário do Roxy Music.

No King Crimson dessa fase, seu vocal de uma virilidade não-afetada, com toques de fragilidade e casualidade, o diferencia um tanto do afinadíssimo Lake. É interessante que eu tenha ficado motivado a escrever sobre Wetton e não sobre Lake, que também morreu recentemente, mas me parece uma personalidade mais linear.

E seu baixo acaba fazendo um papel similar, de aterramento. Wetton era extremamente preciso, seu fraseado muito seguro, mas muito natural na execução; usava timbres meio “estragados”, agressivos, mas que serviam muito à fluência da música. Uma vaga piscada de suíngue, quase cínica, surgia às vezes. Também tinha uma capacidade sobrenatural de cantar e tocar baixo fluentemente com divisões totalmente diferentes, como se tivesse um cérebro adicional.

E assim foi nos dois discos seguintes, Starless And Bible Black e Red (ambos de 1974). Ainda que sem Muir, que teve uma crise existencial na primeira turnê e saiu para virar monge contemplativo, e (por isso mesmo) um pouco menos esotéricos (ainda que sempre herdassem em algumas faixas e/ou passagens instrumentais longas o obscuro sentido caótico de Larks’ Tongues). Todos eles fazem uma interpretação ao mesmo tempo muscular e intelectualizada de uma época por si já dúbia. Não tenho dúvidas em incluí-los não apenas entre a melhor música que a humanidade já produziu, mas também como um registro inspirado de uma época fascinante, e que continua com uma certa qualidade atemporal.

Em Red, só está o trio Fripp, Wetton e Bruford na capa, mas mais afiado do que nunca, como na urgentíssima faixa título, ou em “One More Red Nightmare”. Cross e os dois ex-safonistas do Crimson, Ian McDonald e Mel Collins, comparecem em alguns arranjos. Tanto Wetton quanto Bruford, por ocasião desse disco, podem ser sem exagero ser considerados os melhores de sua geração no rock em seus respectivos instrumentos. Aliás o personalíssimo Fripp também, ainda que esteja em uma categoria à parte nos guitarristas do gênero (por ser zero devedor do blues, por exemplo).

Mas o que seria o ápice é também o fim da banda. A antena de Fripp já estava precocemente captando o esgotamento do progressivo, e ele se antecipou em pular fora, dois ou três anos antes do punk decretar essa falência. Ficou de lembrança um ótimo disco ao vivo, USA, que tem na contracapa uma fotografia Kirlian “da aura”. O que não deixa de ter a ver com a sonoridade da banda, que queria descrever o imponderável, acontecendo numa espécie de fio tênue entre o figurativo (tonal; bem-arranjado; descritivo) e o abstrato (atonal; improvisado; harmônica e timbristicamente inusitado/ inquietante) . E Wetton, claro, tanto por seus dotes musicais quanto por sua personalidade, era uma peça-chave na manutenção desse equilíbrio sutil.

É quando uma combinação de zeitgeist e escolhas financeiras aparentemente mais seguras começa a conspirar contra ele. Por uns poucos anos, ele se virou bem tocando com Bryan Ferry, Uriah Heep (e David Byron solo), Phil Manzanera (também do Roxy Music), Roger Chapman (ex-Family). E uma tentativa meio falhada de banda anglo-alemã de prog-blues, Jack-Knife, com o batera Curt Cress e Palmer-James (letrista do Crimson) na guitarra. Mas Wetton faria uma reentrada ambiciosa com UK, banda que o reunia de novo a Bruford, com Eddie Jobson nos teclados e violino, e Allan Holdsworth na guitarra.

Em tese, era um projeto bacana, com ótimos músicos. Mas vinha atrasado. Sua mistura de prog a la ELP com jazz fusion, cortesia de Holdsworth, era muito eficiente – Jobson era fantástico nesse departamento, nível Keith Emerson mesmo, com o charme adicional do violino. Só que, para 1978, já era uma sonoridade totalmente datada, num cenário dominado pelo punk, e o início do pós-punk. Fripp, que tinha colaborado com Brian Eno e David Bowie em discos de transição, estava se preparando para sua trajetória nesse cenário pós-punk.

Coisa que ex-progs como Peter Gabriel, com produção de Fripp, e Peter Hammill, do Van Der Graaf, também fariam. Gabriel com convicção, e Hammill em dois ou três álbuns. Tanto Gabriel como Hammil estão no solo de Fripp de 1979, Exposure. Wetton participou desde 1977 da preparação desse repertório, mas acabou substituído por outro grande, Tony Levin (que seria depois o baixista da nova formação do Crimson).

A formação inicial do UK logo se desfez, com a saída de Bruford (que também voltaria ao Crimson em 1981), substituído por outro monstro das baquetas, Terry Bozzio, e de Holdsworth. O grupo lançou um segundo álbum de estúdio, e um ótimo ao vivo no Japão, mas havia uma divergência em desenvolvimento entre Jobson – que queria permanecer na trincheira prog – e Wetton, cada vez mais à vontade como letrista (nos tempos de KC ele escreveu uma única letra, “The Great Deceiver”, que é basicamente uma sacaneada em Bryan Ferry), e que queria partir para um som mais radiofônico.

Foi o que finalmente ele conseguiu realizar em 1982, com o Asia, depois de um álbum solo meio inexpressivo em 1980, com o sintomático título de Caught In The Crossfire. No Asia, consagrava-se a fórmula de colocar medalhões como Steve Howe (ex-Yes), Carl Palmer (ex-ELP) e ele mesmo, ao lado de Geoff Downes, um tecladista mais novo que passou pelo Yes e pelos Buggles, para tocar música… ruim. Se o prog já trazia o embrião da autoindulgência, é aí que ela se expressa em toda sua nulidade.

Inábeis para se reencontrar criativamente na nova cena (ao contrário de Gabriel e principalmente de Fripp, que flertou em Nova York com Blondie e com David Byrne e os Talking Heads, e montou seu próprio grupo inglês de pós-punk já em 1981, a League Of Gentlemen), esses “dinossauros” jogaram a toalha, e foram cuidar das contas. O mentor da estratégia era Downes, e Wetton, em princípio, parecia estar se saindo bastante bem como cantor de hits (o Asia emplacou dois logo de cara). Esse caminho do AOR – o assim chamado adult oriented rock – era já indicado desde 1977 por outro ex-Crimson, Ian McDonald, no Foreigner. Mas essas escolhas teriam seu custo.

Pelas próximas décadas, Wetton permaneceu um tempo no Asia, saiu para investir numa carreira solo e numa dupla com Downes que nunca decolaram realmente, e voltou ao Asia – há discos recentes. Mas, curiosamente, o ativo que mais se valorizou neste século, depois de duas ou três décadas de desprezo, foi seu passado progressivo, com convites constantes para tocar o velho repertório do Crimson e do UK (mesmo nos shows do Asia, um set acústico com Wetton costumava incluir coisas como “Book Of Saturday”).

Ao meu amigo Kan Shirai, em Tóquio, no dia seguinte ao anúncio da morte de Wetton, o guitarrista Adrian Belew contou que tinha procurado o baixista há seis meses, para propor uma excursão conjunta com repertório do King Crimson. Como se sabe, ambos ficaram de fora da atual formação da banda (que traz só Levin e Collins das formações anteriores). Esse encontro Belew-Wetton juntaria pela primeira vez membros das duas formações mais longevas, a dos anos 1970 e a dos 1980, que só tiveram Bruford em comum. Belew também se declarou bastante amigo de Greg Lake. E frustrado por estar fora desta volta. A deterioração do estado de saúde de Wetton, no entanto, impediu esse interessantíssimo encontro/ vingadinha.

Ao fim, Wetton parecia encapsulado nas glórias de um passado explosivamente criativo, em meio a uma atualidade medíocre. Foi pranteado por colegas de Crimson e UK, como Fripp, Bruford e Jobson, como o músico excepcional e o boa praça que foi. Em uma postagem em seu diário, Fripp saúda a coragem de Wetton em tratar abertamente do período em que sucumbiu ao alcoolismo, e foi substituído por… Greg Lake, numa turnê japonesa do Asia em 1983. O que o deixou um pouco magoado, mas resignado com seus próprios vacilos.

E mostra também uma comovente troca de mensagens com ele, por volta de seus últimos rounds na luta contra o câncer, que o levaria aos 67 anos. “Queridíssimo Roberto”, diz Wetton, numa delas, “você estava totalmente claro em meu sonho ontem à noite, e em meus pensamentos nesta manhã. É estranho como as conexões psíquicas funcionam”. Indeed.

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