Johnny Hansen deixou pra trás o rock eletrônico que ajudou a criar no Brasil

Quando o termo “música eletrônica” é citado em qualquer lugar, a grande maioria das pessoas pensa imediatamente naquele “tum-tsi- tum-tsi- tum-tsi” que beira o insuportável e que está presente em grande parte da ala pop desse universo. O que pouca gente imagina é que há vertentes eletrônicas que são mais agressivas e distorcidas do que muita bandinha de heavy metal mequetrefe que existe por aí.

Escrevo esta pequena introdução para situá-lo dentro do assunto que você lerá nas próximas linhas: a perda de um bom amigo e de um dos nomes mais importantes da história do rock eletrônico brasileiro e, por que não dizer, mundial. Johnny Hansen se foi…

Toda pessoa que nas últimas três décadas acompanhou tal vertente com um mínimo de interesse sabe quem foi o velho Hansen, um dos líderes de uma banda que sempre foi muito mais cultuada lá fora do que no Brasil. Sim, o Harry tinha fãs ardorosos onde quer que a música eletrônica em sua vertente mais pesada pousasse com suas garras metálicas e afiadas.

Com o grupo santista, Hansen foi um dos pioneiros da chamada “cena industrial”, um capítulo que ainda será estudado com mais atenção quando reavaliarmos a história do rock nacional, principalmente em uma época em que reinavam as cores e os sons “felizes” da Blitz, Paralamas do Sucesso, Kid Abelha, RPM e tantos outros. Você tem que ouvir – mesmo! – os álbuns da banda: Fairy Tales (1988), Vessels Town (1990) e Electric Fairy Tales (2015). Se, além disso, puder colocar as mãos e ouvidos na raríssima caixa Taxidermy (2005), melhor ainda!

Algumas canções do Harry são antológicas. Como estas:

Pessoalmente, Hansen era uma figura assustadora para os mais incautos. Pouquíssimo ligado em sua própria estética pessoal, meio maluco e cheio de opiniões que deixariam os “politicamente corretos” tendo AVCs múltiplos, ele era dotado de uma mente brilhante, com conhecimentos profundos a respeito de qualquer assunto que você imaginar. De regras do beisebol ao comportamento sexual do diabo da Tasmânia, Hansen dava verdadeiras aulas gratuitas a quem se dispusesse a conversar com ele, pessoalmente ou por meio das redes sociais. Seus comentários incrivelmente ofensivos eram os mais engraçados.

Musicalmente, ele foi um cara com o qual eu mesmo me identifiquei bastante por conta de seu ecletismo. Defendia com unhas e dentes a genialidade do guitarrista Bill Nelson (ex-Be-Bop Deluxe) ao mesmo tempo em que se irritava com a minha total aversão ao Yngwie Malmsteen como compositor, por exemplo. Chegou a me mostrar uma série infindável de bandas sensacionais das quais eu nunca tinha ouvido falar até então. Como esta:

Abaixo você assiste a um trecho de uma das últimas apresentações de Hansen e seu adorado Harry:

Ele morreu na sexta-feira passada, vitimado por um enfarte fulminante. Neste exato momento em que você lê este texto, Hansen deve estar ao lado de Deus tentando convencê-Lo a trocar a música ambiente do Céu pelo som de alguma banda eletrônica obscura da Romênia enquanto diz “Vou te mostrar onde Você errou ao criar essa raça humana de merda”…

Vá em paz, meu chapa…