Johnson recebe duras críticas de ex-assessor por gestão da pandemia

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Johnson (l.) und Cummings (r.)

O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, foi acusado nesta quarta-feira (26) por seu ex-conselheiro Dominic Cummings de ter demorado a perceber a dimensão da pandemia da covid-19, uma crise administrada de forma "desastrosa" pelo governo.

Diante de uma comissão parlamentar, o polêmico estrategista político também assumiu sua parcela de responsabilidade pelos "erros" cometidos no início de 2020, após o surgimento do novo coronavírus.

"A verdade é que ministros, funcionários do alto escalão e assessores como eu não estivemos à altura, de forma desastrosa, do que o público espera de seu governo em uma crise como esta", disse Cummings.

O ex-conselheiro expôs um quadro lamentável do poder neste período, com um governo desprevenido e cego diante da deterioração da situação, um governo ocupado pela irritação da parceiro de Boris Johnson com um artigo sobre seu cachorro e um ministro da Saúde acusado de ser mentiroso.

Boris Johnson viu a pandemia da covid-19 como uma "história para assustar", continuou Cummings, sugerindo que o primeiro-ministro considerou a possibilidade de se fazer contaminar ao vivo pela televisão para mostrar que "não havia nada a temer".

Até março de 2020, Johnson considerava que o verdadeiro risco do vírus era, sobretudo, econômico, mais do que sanitário, acrescentou Cummings.

O ex-assessor insistiu em que, "evidentemente", o Reino Unido deveria ter-se confinado desde a primeira semana de março de 2020.

- Johnson assume

Ao ser questionado no Parlamento sobre estas acusações, o premiê disse assumir "total responsabilidade" pela gestão da pandemia, chamando esta crise de "uma das mais difíceis" atravessadas pelo país em muito tempo. Afirmou ainda que sempre seguiu o conselho dos cientistas.

Seis meses depois de sua saída em um contexto de disputas internas, Cummings, mentor da bem-sucedida campanha do Brexit, em 2016, e arquiteto da brilhante vitória de Boris Johnson nas eleições legislativas de dezembro de 2019, tornou-se implacável com o primeiro-ministro.

Por duas vezes, porém, Cummings evitou responder a pergunta sobre se era verdade, como afirmam diferentes veículos de comunicação, que Johnson disse que "preferia ver milhares de corpos empilhados" antes de ordenar um terceiro confinamento.

Segundo a imprensa, Johnson pronunciou esta frase depois de ter decidido, tardiamente, decretar um segundo confinamento no outono passado (primavera no Brasil). Em janeiro deste ano, acabou ordenando um terceiro, levantado de forma gradual na primavera.

- Mentiras 'reunião após reunião' -

Os ataques mais violentos do ex-assessor foram dirigidos ao ministro da Saúde, Matt Hancock, que, segundo ele, deveria ter sido "demitido" por "pelo menos 15, 20" motivos, "principalmente por ter mentido em inúmeras ocasiões, reunião após reunião", e "publicamente".

Diante dos deputados, Cummings também afirmou que, apesar de sua rejeição, o governo britânico buscava "imunidade de rebanho", objetivo considerado então "inevitável" e que consiste deixar a maioria da população desenvolver resistência, após contrair a doença.

Essa abordagem foi abandonada no início de março de 2020, depois que o próprio governo alertou que isso levaria a uma "catástrofe".

Amplamente criticado por seus atrasos desde o início da pandemia, Johnson agora exalta o sucesso da campanha de vacinação. Em apenas seis meses, mais de 72% dos adultos receberam a primeira dose no país mais afetado pelo vírus da Europa, com cerca de 128 mil mortes.

Neste cenário, o alcance dos ataques de agora ex-assessor na opinião pública pode ser limitado para Johnson, diante de sua reputação como um homem da ordem com métodos agressivos e das violações ao confinamento cometidas pelo próprio Cummings no ano passado.

Segundo uma pesquisa do YouGov publicada no Times no sábado, apenas 14% dos eleitores acreditam em Cummings diz a verdade, contra 38% que acreditam no primeiro-ministro.

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