Joia do turismo na Irlanda vai fechar para obras

O Long Room, com seu imponente teto de carvalho e dois níveis de estantes repletas de alguns dos volumes mais antigos e valiosos da Irlanda, é a parte mais antiga da biblioteca do Trinity College Dublin, em uso constante desde 1732. Mas esse recorde notável está prestes a ser interrompido, porque engenheiros, arquitetos e especialistas em conservação estão embarcando em um programa de 90 milhões de euros (US$ 97 milhões) para restaurar e atualizar o prédio da Antiga Biblioteca da faculdade, do qual o Long Room é a parte principal.

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A biblioteca, visitada por cerca de um milhão de pessoas anualmente, necessita de reparos há anos, mas o incêndio de 2019 na Catedral de Notre-Dame de Paris foi um lembrete urgente de que precisava ser protegida, segundo os envolvidos no trabalho de conservação.

– Já sabíamos que a Antiga Biblioteca precisava de obras por causa de problemas no prédio. Quando vimos Notre-Dame em chamas, percebemos: "Meu Deus, precisamos fazer alguma coisa agora!'" – disse a professora Veronica Campbell, que iniciou o projeto.

Grande parte do trabalho vai se concentrar na conservação da histórica madeira trabalhada que compõe grande parte do interior da biblioteca e das molduras de suas janelas, bem como na melhoria da resistência a um incêndio e dos controles ambientais necessários para proteger a valiosa coleção de livros.

Diante do exemplo de Notre-Dame e da percepção de que algo semelhante poderia acontecer a um tesouro nacional irlandês, o governo prometeu 25 milhões de euros (US$ 27 milhões), com a universidade e doadores privados adicionando mais 65 milhões de euros (US$ 70 milhões).

O trabalho começou em abril e, em outubro de 2023, as portas da Antiga Biblioteca serão fechadas aos visitantes durante pelo menos três anos para as obras. Enquanto isso, os visitantes continuam chegando em massa à biblioteca, a segunda atração mais popular de Dublin para turistas estrangeiros (a cervejaria Guinness é a primeira). Entre os tesouros em exibição está o Livro de Kells – um evangelho do século IX primorosamente elaborado que é a maior relíquia sobrevivente da era de ouro cristã primitiva da Irlanda.

Em maio, Catalina Gomez, de 50 anos, espanhola autodeclarada bibliófila em férias, ficou olhando para o teto abobadado do Long Room, com 14,5 metros de altura, e a série de graciosas janelas, arcadas e galerias lotadas de livros encadernados com couro:

– Assim que entrei, fiquei surpresa ao ver um espaço como este. Já estive em muitas bibliotecas antigas ao redor do mundo, mas nunca vi nada tão espetacular. Isso me toca muito.

Helen Shenton, diretora da biblioteca do Trinity, gosta de destacar as características do Long Room que causam esse efeito sobre os visitantes. Ela parou à porta da sala recentemente e apontou para as galerias e prateleiras inclinadas em um ponto de fuga, a 65 metros de distância na extremidade:

– É uma perspectiva muito bonita. E é a sala principal da Irlanda, porque todo chefe de Estado visitante vem aqui.

Muitos fãs irlandeses de "Guerra nas Estrelas" também notam a forte semelhança entre o Long Room e os Arquivos Jedi, retratados em computação gráfica no filme "Ataque dos Clones", em que um jovem Obi-Wan Kenobi procurava um sistema planetário. A Lucasfilm, que não solicitou direito de imagem, negou que houvesse alguma conexão.

De acordo com Ian Lumley, oficial de patrimônio da An Taisce, organização não governamental que promove a conservação da cultura física da Irlanda, a preservação da Antiga Biblioteca é fundamental, dada sua proeminência internacional – e sua história:

– No século XVIII, a Trinity era a universidade do Iluminismo irlandês, a alma mater de escritores e pensadores como Edmund Burke, Oliver Goldsmith e Jonathan Swift. Essas pessoas usaram a biblioteca como os alunos modernos usam as novas bibliotecas. A atmosfera e os livros no Long Room são tão especiais que é essencial que nada se perca.

O esforço de conservação – informalmente chamado de "The Great Decant" (O grande remanejamento) – começou em primeiro de abril, quando o primeiro livro, o Volume 1 de "History of English Law", de Reeves, impresso em Londres em 1869, foi retirado de seu lugar na prateleira 1.1., na galeria superior do Long Room, que é fechada para turistas. O livro foi limpo com um aspirador de pó especialmente modificado e dimensionado. Sua condição física foi avaliada e seus detalhes foram verificados no catálogo do Long Room, escrito em 1872.

O livro foi então rotulado com uma etiqueta de identificação por radiofrequência e colocado em uma caixa com código de barras – o primeiro de mais de 700 mil livros, manuscritos, bustos e outros artefatos que serão transferidos da Antiga Biblioteca para um local de armazenamento climatizado fora do campus.

Quando todos os livros se forem, os especialistas vão trabalhar no Long Room, melhorando as instalações dos visitantes, reparando danos e reforçando as defesas contra quatro inimigos: tempo, umidade, poluição e, o mais perigoso, fogo. (As atuais defesas contra incêndio dependem de extintores portáteis.)

Shenton, a diretora da biblioteca, disse que as novas tecnologias – possivelmente envolvendo sistemas de nebulização de água, em vez de sprinklers – teriam como objetivo suprimir possíveis incêndios sem danificar muito os livros. Eles estão procurando uma empresa terceirizada para construir uma "sala de incêndio" – um modelo exato do Long Room e seu conteúdo –, que será incendiada para que especialistas possam estudar a melhor maneira de conter as chamas.

Para retardar a inevitável deterioração dos livros e protegê-los da poeira e de partículas ácidas vindas do trânsito da cidade, novas capas transparentes extremamente finas, ou "caixas de proteção", estão sendo projetadas para cada volume.

– Vamos precisar remover um livro de cada prateleira para compensar a espessura extra. Bom, foi isso que negociamos com os bibliotecários, um livro por estante. Pode ser que sejam dois – explicou John Gillis, conservador-chefe de livros da Trinity.

Ele baixou a voz para um tom de conspiração:

– Sou um conservador. Os bibliotecários são nossos inimigos. Dizemos: 'Não toque nesse livro antigo!', e eles querem deixar que as pessoas os abram e leiam!

Duas salas de leitura, localizadas em cada extremidade do Long Room, serão transferidas para o porão da moderna Biblioteca Ussher nas proximidades, e os estudiosos ainda poderão solicitar os livros do depósito fora do campus.

Para preservar a experiência turística pelo maior tempo possível – fonte importante de renda da faculdade –, as prateleiras mais visíveis para os visitantes serão as últimas a ser esvaziadas. O Livro de Kells e outros artefatos preciosos serão exibidos temporariamente na Printing House do século XVIII da faculdade até que um espaço de exposição aprimorado esteja pronto sob o Long Room reformado.

Nos próximos meses, o único vislumbre que os visitantes terão do trabalho de conservação serão algumas figuras no alto da galeria retirando os livros das prateleiras, processando-os e os encaixotando. Entre os assistentes do projeto está Kayleigh Ferguson, de 28 anos, de Syracuse, no estado de Nova York, bibliotecária qualificada que aceitou o trabalho enquanto faz seu doutorado na Universidade Maynooth, perto de Dublin. Quando lhe perguntei se gostava de sua nova estação de trabalho, no alto da pitoresca galeria, cercada por livros antigos, ela riu:

– Não posso reclamar.

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