Joice Hasselmann foi de favorita de Doria a candidata nanica

THIAGO AMÂNCIO E CAROLINA LINHARES
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*ARQUIVO* SÃO PAULO , SP, 01.10.2020 - A candidata do PSL à Prefeitura de São Paulo, Joice Hasselmann.  (Foto: Bruno Santos/Folhapress)
*ARQUIVO* SÃO PAULO , SP, 01.10.2020 - A candidata do PSL à Prefeitura de São Paulo, Joice Hasselmann. (Foto: Bruno Santos/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em menos de dois anos, Joice Hasselmann (PSL) partiu de segunda deputada federal mais votada em SP (só perdeu para Eduardo Bolsonaro) e favorita do governador João Doria (PSDB) na disputa pela prefeitura para se tornar uma candidata nanica na eleição municipal.

Entre sua eleição para deputada federal, em 2018, e para a Prefeitura de São Paulo, em 2020, Joice foi de um extremo a outro. Foi líder do governo Jair Bolsonaro no Congresso Nacional e rompeu com o presidente; foi alvo de ataques orquestrados e também acusada de propagar fake news; foi cotada para vice de Covas e se candidatou contra o prefeito.

A deputada diz que o eleitor, preocupado com saúde e crise econômica, não se deu conta do pleito neste domingo (15).

"Depois de enfrentar o Palácio do Planalto, uma ala de dentro do meu partido que tentou puxar meu tapete e a guerra para ter uma legenda, eu saio com meu couro de aço. Foi uma campanha que mostrou o que é o PSL de verdade e que vai dar os rumos do PSL", diz Joice à Folha.

Ele nega um encolhimento político e faz planos. "Meu futuro é de reposicionar a direita no Brasil, a direita que Bolsonaro primeiro juntou em torno do projeto de tirar o PT do poder e depois ele explodiu. Eu não sou de se matar com a unha, então o céu é o limite."

Eleita deputada em 2018 prometendo ser uma "Bolsonaro de saias", ela teve 1.078.666 votos (289 mil na capital paulista). Mal havia assumido o mandato quando começaram as especulações de que sairia candidata em 2020 e seria das mais fortes. Doria, próximo da deputada que articulou o "Bolsodoria", afirmava nos bastidores que via em Joice um nome mais competitivo do que seu afilhado Covas.

Uma das responsáveis por articular a reforma da Previdência, Joice logo foi alvo da máquina de moer do governo. Seu partido rachou entre apoiadores do presidente e outra ala que discordava, por exemplo, de suas ações para proteger o filho Flávio Bolsonaro, hoje denunciado.

Rompida com o bolsonarismo, foi alvo de uma campanha de difamação e gordofobia (comparada à personagem de desenho animado Peppa Pig) e passou a acusar o governo na CPMI das fake news, detalhando o funcionamento do chamada gabinete do ódio --neste ano, foi ela a acusada de propagar notícias falsas contra ex-aliados.

Enquanto isso, Covas descobriu um câncer que o tornou mais conhecido, e Doria moderou as críticas ao apadrinhado. Em público, o governador negou que apoiaria Joice na prefeitura. Nos bastidores, defendia uma chapa com os dois nomes.

A aproximação chegou a acontecer. A deputada visitou Covas na prefeitura em novembro do ano passado e lhe deu de presente uma pulseira de ouro com a palavra "força" para motivá-lo a enfrentar a doença.

Sua postura no debate da TV Cultura, na última quinta-feira (12), foi bem diferente. Como vem fazendo na campanha, ela atacou o que chamou de abandono da cidade e cantou uma música que havia sido obrigada pela Justiça a retirar de seu programa na TV: "Para de aumentar o IPTU. Ei, prefeito, vai tomar vergonha".

Pego de surpresa, Covas ficou em choque --o episódio virou meme na internet.

A campanha de Joice começou à meia-noite de 27 de setembro --o primeiro dia permitido pela lei eleitoral-- com uma aglomeração de 1.600 pessoas numa casa de eventos na Mooca, contrariando a prevenção ao coronavírus.

Desde então, Joice visitou a periferia da capital paulista e exibiu montagens com Peppa Pig, Kill Bill e Penélope Charmosa no horário eleitoral.

Foi das poucas candidatas a se ancorar na Lava Jato. Amiga de Sergio Moro, não explorou a imagem do ex-juiz de forma explícita, o que impede que sua candidatura sirva como um termômetro mais preciso para as pretensões do ex-ministro em 2022.

Com uma equipe de plano de governo coordenada pelo ex-secretário da Receita Federal Marcos Cintra e com o empresário milionário Ivan Leão Sayeg (PSL) como vice, Joice, que é do Paraná, trabalhou para estreitar sua identificação com São Paulo.

Sua boa atuação em debates foi o ponto alto de uma candidatura que também serviu para resgatar sua autoestima e revidar o machismo sofrido. Vinte e quatro quilos mais magra, inaugurou um canal de bem-estar nas redes sociais durante a campanha.

Joice tinha a seu favor o partido com a 2ª maior fatia do fundo eleitoral --R$ 199 milhões. Ela ficou com R$ 5,9 milhões. Mas abandonada pela base bolsonarista e, sem conquistar o eleitor de direita não radical, ficou sem votos.

Para o entorno de Joice, o eleitorado de direita, apesar de desaprovar Bolsonaro, ainda representa boa parcela da população, mas se desencontrou da candidata neste pleito.

A avaliação é de que os votos da direita lavajatista e não bolsonarista se pulverizaram entre Joice, Arthur do Val (Patriota, que tem 6%) e Covas, favorecido por estar no cargo, pela condução não negacionista da pandemia e pelo maior tempo de TV.

"O voto da direita está aberto, há um vácuo. Fazia sentido ela se lançar, mas não teve fôlego", diz o cientista político Glauco Peres da Silva, que vê um futuro mais certo para a deputada federal em cargos legislativos. Para o professor da USP, o eleitor desse campo, descoberto em 2018, está em disputa por grandes partidos e figuras em São Paulo ""como o PSDB de João Doria.