Jorge Furtado: ‘Se o livro for bom ou ruim, sou o único culpado’

Na tarde em que Jorge Furtado recebeu o repórter sob o pretexto de falar de seu livro novo, o romance histórico “As aventuras de Lucas Camacho Fernandez”, e futuros projetos, o clima era de nostalgia.

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Há dias o cineasta gaúcho de 63 anos vinha postando nas redes retratos com as equipes dos filmes e séries que dirigiu e escreveu — obras celebradas, premiadas e estudadas, como “Ilha das Flores”, “O homem que copiava”, “Saneamento básico, o filme”, “Doce de mãe”, "O mercado de notícias" e “Mr. Brau”.

As fotos tinham motivo: comemorar os 35 anos da Casa de Cinema de Porto Alegre, produtora da qual Furtado é fundador e sócio com Nora Goulart, Ana Luiza Azevedo e Giba Assis Brasil e que lança este ano na Globoplay uma série ambientada no universo de eSports, "Dragon", criada por Tiago Rezende. Numa sala de reunião da Casa repleta de cartazes de produções e troféus para as mesmas, Furtado se diverte com alguns comentários sobre seus posts.

— As pessoas dizem: “Nossa! Quanta gente pra fazer um filme!” É, muita gente — ele diz, desviando o olhar para uma cópia de seu novo livro, trazida pelo entrevistador. — E literatura é o contrário, totalmente solitária. Se o livro for bom ou ruim, sou o único culpado (risos).

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Autor de "Meu tio matou um cara e outras histórias", do romance "Trabalhos de amor perdidos" e das dramaturgias "Pedro Malazarte e a arara gigante" e "O debate" (com Guel Arraes), até agora Furtado colheu reações amplamente favoráveis para “As aventuras”. Críticos elogiam a habilidade com que Furtado costura fatos incríveis e ficção verossímil para narrar a história do jovem negro Lucas Fernandez, personagem real que foi o primeiro a traduzir “Hamlet” para o português, em 1607, em circunstâncias muito especiais. Sua jornada une teatro, sonetos de Shakespeare (discretamente traduzidos por Furtado em notas de rodapé), viagens pelo Atlântico, piratas, naufrágios e os horrores da escravidão.

Mas sem spoiler do livro. Somente da entrevista a seguir, na qual o Furtado fala deste romance de peripécias reais, de levar ao cinema “Grande sertão: veredas” com Guel Arraes, dos desafios da cultura no governo Lula, da antiga obsessão com Shakespeare e outra, mais recente, com inteligência artificial, por onde começa o papo.

Nas suas redes, você tem feito posts de textos gerados com inteligência artificial. É algum tipo de pesquisa?

É uma curiosidade de ver como funciona. Um exemplo: eu sugiro ao programa “cara narigudo se apaixona por mulher mas teme se revelar etc.”, a premissa do “Cyrano de Bergerac”. E ele já vem com todo o enredo, conhece o original. Então esses programas são úteis, sim, como alerta para clichês. Vão sempre no que já existe. Se te sugerirem um caminho, você já sabe, tem que inventar outro.

Parece que em “As aventuras de Lucas Camacho Fernandez” você joga com isso. Parte dos clichês de aventura, de capa e espada, e insere elementos inusitados, a começar pelo protagonista.

Tudo começou com o Lucas. Encontrei ele em uma pesquisa sobre Shakespeare em 2011. Ele está no fragmento do diário de bordo de um capitão inglês que, a serviço da Companhia das Índias Ocidentais, passou pela África, onde hoje é Serra Leoa, na época explorada por portugueses. Esse capitão, William Keeling, é incrível: encenava Shakespeare no navio para distrair a tripulação. E ele cita no diário um jovem negro chamado Lucas Fernandez, intérprete que falava línguas europeias e locais e faz tradução simultânea de “Hamlet” para português enquanto a peça rola no convés. Quem era esse cara? Como foi parar ali? Que fim levou? Parti desse elemento real para criar uma história com referências a Shakespeare — que, afinal, meu trouxe o Lucas — e elementos de romance de ação, de peripécia.

Como clássicos do gênero, como “Robinson Crusoé”, “Viagens de Gulliver” e “O Conde de Montecristo” te influenciaram?

São leituras de adolescência que ressurgem, pelo clima que elas têm, pela época que descrevem — sou fascinado por essa passagem da Idade Média para a Idade Moderna. E também pela narrativa própria desse tipo de livro, onde tudo se encaixa, uma coisa leva a outra, nada aparece por acaso.

No meio da “sessão aventura” surgem cenas cruéis da escravidão. O contraste é intencional?

Sendo a história de um negro nos anos 1600, é inevitável falar de escravidão. E nessa parte não houve ficção, fui fiel aos documentos históricos. Inclusive, mais do que da escravidão, eu queria falar do escravismo, o sistema econômico que pressupunha capturar gente para trabalhar até a morte sob ameça de tortura extraindo ouro, colhendo algodão, produzindo açúcar. O sistema racionalmente previa que para uma pessoa comer pudim era preciso matar outras. Como a Humanidade chegou a esse ponto?

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Resenhas têm chamado o livro de “cinematográfico”, "visual". O que acha do comentário?

O livro é, de fato, totalmente filmável. Bem fiel ao gênero, não tem muita narrativa psicológica, se concentra mais na ação.

Por outro lado o a narração reflete muita pesquisa, uma profusão de termos náuticos, militares, do universo do engenho, um vocabulário preciso.

O Guel Arraes leu e comentou que, quando for filmado, é preciso ter cuidado para não perder o narrador, ter atenção para isso. Eu falei que tudo bem, eu nunca vou conseguir dinheiro pra filmar essa história (risos) Quatro continentes, cidade cenográfica, naufrágio em tempestade, batalha naval entre inglêses e espanhóis... O romance tem essa liberdade, posso botar 150 navios que é o mesmo preço que cem.

Uma história que você e Guel Arraes conseguiram transformar em filme é “Grande sertão: veredas”. Como foi adaptar Guimarães Rosa?

Eu e ele fizemos o roteiro pare ele dirigir. Buscamos manter o máximo de texto original. Acredito que, de todas as versões já filmadas do livro, esta é a que mais inclui Guimarães Rosa. As adaptações ficaram por conta de passar a história para o presente, o sertão dos jagunços virou a favela das milícias. Bandos armados, que têm laços com o poder, que justificam sua violência... É um conflito muito atual. A filmagem foi complexa, no auge da pandemia, mas o filme está incrível e deve estrear este ano.

Você e Guel também escreveram a peça "O debate", lançada em livro em 2021, que imaginou os bastidores do encontro final entre Lula e Bolsonaro na TV e virou filme de Caio Blat. O setor cultural sofreu muito com a pandemia e com o último governo. Qual a tua expectativa com a recriação do Ministério da Cultura?

Vai ter que recomeçar do zero. O último governo federal destruiu tudo, foi incompetente em todas as áreas e foi especialmente cruel com a cultura, eleita como inimiga. Mas mesmo assim a gente continuou fazendo filme, livro, TV, música. Não quero que pareça uma defesa da precarização, aquela expressão “flor do lodo”, mas a verdade é que a cultura brasileira é muito forte. Já passamos pela ditadura, pelo Collor, e agora por mais essa.