Jornal Nacional: pau que bate em Chico não bate em Francisco

Lula foi entrevistado no Jornal Nacional, da TV Globo (Foto: Reprodução/TV Globo)
Lula foi entrevistado no Jornal Nacional, da TV Globo (Foto: Reprodução/TV Globo)

A mesma régua utilizada para entrevistar Jair Bolsonaro no Jornal Nacional certamente não foi a mesma utilizada para entrevistar o ex-presidente Lula. O pau que bateu em Chico não foi o mesmo que bateu em Francisco.

E começo reiterando meu ponto já com a primeira frase de Bonner. “O senhor não deve mais nada à Justiça”. Parecia mais uma assessoria de imprensa mas deu o tom do resto da entrevista. Ao ser questionado sobre corrupção Lula pode transcorrer tranquilamente escolhendo o ponto de vista da narrativa a ser utilizada. O apresentador do Jornal Nacional foi eficiente quando rebateu a tentativa de Lula de imputar à Lava Jato a diminuição de empregos no país quando quem provocou isso foi o seu governo e o governo Dilma com os mandos e desmandos na economia.

Lula foi muito bem quando disse que o Brasil precisava de estabilidade e previsibilidade. Nem o mais simples dos mortais aguenta tanta instabilidade nesse país de Deus. Apostar no que pode ser o dia de amanhã não passa disso, uma aposta.

Lula foi controverso em alguns pontos: defendeu a liberdade de imprensa mas da porta para fora defende a regulamentação das mídias. Honestamente, não acredito que o Brasil tenha qualquer condição de entrar nesse assunto sem ser autoritário e punitivo. Meu grande amigo e cientista político Rodolfo Marques estudou esse tema com profundidade e tem uma opinião diferente da minha. Àqueles que pensam diferente sugiro lerem meu amigo, sempre competente.

Lula defendeu que a política não pode ser contaminada pelo ódio, e talvez aqui tenha sido o ponto alto do debate. Embora em sua campanha tenha bradado aos quatro ventos que Bolsonaro é genocida, foi muitíssimo bem quando lembrou que a política PT contra PSDB ela uma política de antagonismos no campo das ideias e foi brilhante quando chamou o presidente de bobo da corte.

Um tapa de luva de pelica tão tênue e que provoca muito mais reflexão do que qualquer incitamento ao ódio. Alguns colegas em redes sociais defenderam Lula chamar Bolsonaro de genocida. Meus amigos, o ódio estimula o ódio e eu sempre, sempre vou ser contra qualquer pensamento nesse sentido. A democracia é feita do debate e do dissenso no plano das ideias e eu defendo isso com unhas e dentes. Violência não é e jamais será a solução.

Mas se Lula foi bem até aqui, deixou por último a mancada derradeira que deve servir de munição para todas as outras candidaturas: chamou o todo poderoso e protagonista setor agro brasileiro de fascista e direitista. Aliás, meio ambiente não é seu tema de domínio também. Se embolou todo no assunto e atacou um dos setores mais fortes da economia brasileira. Vai lhe custar caro.

Eu entendo que esquerdistas acharam Lula maravilhoso e bolsonaristas da mesma forma. Mas para mim a regra de ouro é uma frase de Maquiavel: a política é o que é, não o que gostaríamos que fosse. Bolsonaro conseguiu sair ileso sem nenhuma grande gafe, mas não tem um décimo do carisma do ex-presidente Lula que mostrou que está pronto para entrar em temas espinhosos como a corrupção. Mas deixou claro que conquistar o voto dos evangélicos não é seu único desafio. Há um setor agro no meio do caminho, no meio do caminho há um setor agro.