Jornalista brasileiro descreve cotidiano em Teerã durante crise entre EUA e Irã

O jornalista Renato Machado, em Teerã, no Irã

Enquanto os governos de Estados Unidos e Irã trocam ataques e ameaças diante de olhos do mundo inteiro, a população do país no Oriente Médio tenta levar suas vidas em meio à tensão de uma possível e temida guerra. Único brasileiro que acompanha, de Teerã, o desenrolar dessa crise internacional, o jornalista Renato Machado vem relatando, ao longo da última semana, de que forma a agressividade entre os dois governos vem afetando o dia a dia dos iranianos após o assassinato do general Qassem Soleimani, considerado um herói local.

Machado, que vive por lá desde 2018, contou, por exemplo, como os iranianos se dividiram sobre os resultados da resposta de seu governo, que, na noite de terça-feira, atacou com mísseis duas bases militares dos Estados Unidos no Iraque. Embora o pedido de vingança pela morte de Soleimani tenha unido o povo, alguns acharam a ação insuficiente para retaliar os americanos pelo assassinato, enquanto outros vibraram com as imagens de destruição. Um terceiro grupo, no entanto, ficou aliviado e esperançoso de que possa existir uma solução pacífica daqui pra frente.

O jornalista também mostrou como o temor de uma escalada no conflito levou os iranianos a uma corrida para comprar dólares e euros. Casas de câmbio na região central da capital do país amanheceram, na última quarta-feira, com filas formadas, em sua maioria, por pessoas comuns, receosas de ver seu dinheiro evaporar por causa de uma possível alta nos preços.

O rito fúnebre em homenagem ao general iraniano assassinado, de quatro dias, levou centenas de milhares de pessoas às ruas e foi considerado o maior da história do país, ultrapassando as cerimônias de 1989 em homenagem ao aiatolá Ruhollah Khomeini, líder da Revolução Iraniana de 1979. No entanto, um tumulto ocorrido durante o funeral realizado na cidade natal de Soleimani deixou ao menos 56 mortos e 213 feridos.

Na segunda-feira, dia da despedida da capital iraniana, Teerã, Machado acompanhou a cerimônia realizada na mesquita da Universidade de Teerã, que ficou cercada por uma multidão de milhares de pessoas, que tomou todas as ruas ao redor do prédio e depois saiu em cortejo pela cidade. A região central de Teerã amanheceu tomada por uma multidão.

Nas reportagens, o jornalista mergulha na sociedade do Irã, país de 81 milhões de habitantes que está em ebulição, unido pelo sentimento de vingança ao general. Ele também como o assassinato representou um duro golpe para os iranianos, tanto para as autoridades políticas do regime quanto para a população comum. E como o carismático comandante das Forças Quds era considerado herói de guerra e também a peça-chave no aparato de segurança, que impedia uma ação direta das potências estrangeiras contra o Irã. Não à toa, já havia sido descrito como “mártir vivo” pelo aiatolá Ali Khamenei, líder máximo no país.