Jornalista britânico e indigenista brasileiro desaparecem na Amazônia

Um jornalista britânico e um indigenista brasileiro desapareceram em uma região remota da Floresta Amazônica, após receberem ameaças, confirmaram autoridades nesta segunda-feira (6), despertando temores envolvendo sua segurança.

O correspondente estrangeiro Dom Phillips, 57 anos, desapareceu enquanto realizava uma pesquisa para um livro no Vale do Javari, no estado do Amazonas, junto com o renomado especialista em questões indígenas Bruno Pereira, relatou o jornal britânico The Guardian, do qual o jornalista é colaborador, em um primeiro momento.

Os dois viajaram de barco para o lago Jaburu, no oeste do Amazonas, e deveriam ter retornado à cidade de Atalaia do Norte por volta das 9h00 de domingo.

A União das Organizações Indígenas do Vale do Javari (UNIVAJA) e o Observatório de Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato (OPI) disseram em nota que os homens "receberam ameaças".

Pereira, especialista da Fundação Nacional do Índio (Funai) e com profundo conhecimento da região, recebia regularmente ameaças de madeireiros e garimpeiros que tentam invadir ilegalmente as terras das comunidades indígenas.

Fontes da Funai disseram à AFP que estão colaborando com as autoridades locais nas buscas. E acrescentaram que Pereira tirou uma licença temporária para se dedicar a "assuntos pessoais".

- Dois detidos, segundo imprensa -

Phillips e Pereira viajaram para entrevistar os habitantes indígenas ao redor de uma base de monitoramento da Funai e chegaram ao lago Jaburu na sexta-feira (3) à noite, informaram UNIVAJA e OPI.

Eles começaram a viagem de retorno na madrugada de domingo, fazendo uma parada na comunidade de São Rafael, onde Pereira havia programado uma reunião com um líder local para discutir as "invasões" em suas terras, segundo o comunicado.

Como o líder da comunidade não chegou, os dois homens decidiram seguir até Atalaia do Norte, uma viagem de aproximadamente duas horas, disseram. A última vez em que foram vistos foi na localidade de São Gabriel, perto de São Rafael.

Viajavam em um barco novo com 70 litros de gasolina, o que era "suficiente para a viagem", e usavam equipamentos de comunicação por satélite.

Segundo o jornal "O Globo", dois pescadores foram detidos pela Polícia Federal na noite de hoje no âmbito do caso, incluindo a pessoa com a qual deveriam se reunir.

O Ministério Público Federal (MPF) anunciou a abertura de um procedimento administrativo para apurar o desaparecimento, uma investigação que será conduzida pela Marinha, com participação de Polícia Federal, Polícia Civil, Força Nacional e Frente de Proteção Etnoambiental Vale do Javari.

As buscas até a tarde de hoje não haviam dado resultado.

- 'O tempo é essencial' -

As famílias dos desaparecidos manifestaram preocupação, junto com organizações e personalidades, entre elas o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

"Apelamos às autoridades brasileiras" que façam o possível "para encontrar nosso querido Dom", escreveu no Twitter Paul Sherwood, cunhado de Phillips.

"O tempo é essencial", acrescentou.

O Comitê para Proteção de Jornalistas (CPJ) e a Associação dos Correspondentes de Imprensa Estrangeira no Brasil (ACIE) pediram às autoridades que atuem "imediatamente".

"Espero que sejam encontrados logo, que estejam bem e em segurança", tuitou Lula, favorito nas pesquisas para as eleições presidenciais de outubro contra o presidente Jair Bolsonaro, que, por sua vez, é acusado de incentivar as invasões de terras indígenas en favor de garimpeiros e do agronegócio.

Phillips, que também trabalhou para o New York Times e o Washington Post, é casado e vive em Salvador, na Bahia.

Ele tinha viajado com Pereira em 2018 ao Vale do Javari para escrever uma matéria para o The Guardian.

Trata-se de uma terra indígena de difícil acesso no extremo-oeste do Amazonas. Lá vivem cerca de 6.300 indígenas de 26 grupos diferentes, 19 deles isolados, segundo a ONG Instituto Socioambiental.

Nos últimos anos a violência armada aumentou na região diante da presença de garimpeiros, caçadores e pescadores ilegais.

A base local da Funai, instalada para proteger e prestar assistência aos indígenas, foi alvo de diversos ataques desde o fim de 2018, incluindo o assassinato a tiros em 2019 de um de seus funcionários.

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