Jornalista é ameaçado por vizinhos após registro de agressão na Cracolândia

Cracolândia é 'problema crônico' há anos no centro da capital paulista
Cracolândia é 'problema crônico' há anos no centro da capital paulista

Moradores da rua Helvetia, no Centro de São Paulo, ameaçaram um jornalista que divulgou cenas de agressão de membros da GCM (Guarda Civil Metropolitana) a frequentadores da Cracolândia. Os vizinhos do videorrepórter Caio Castor passaram a ameaçá-lo em uma rede social e tentar invadir o prédio onde mora com a esposa e a filha após a divulgação de um vídeo feito por ele no último sábado (28).

O Sindicato dos Jornalistas de São Paulo e a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) publicaram notas repudiando as ações dos guardas civis e dos moradores que vem ameaçando o jornalista (leia a nota da Abraji abaixo).

Na gravação, que Castor publicou em redes sociais, vê-se três agentes de segurança da GCM abordando uma mulher. Um a ataca com o cassetete e, na sequência, outro espirra spray de pimenta em seu rosto. A substância atinge um terceiro guarda-civil, que se afasta com a mão no rosto. Nas imagens, a mulher aparece sozinha, descalça e desarmada. Segundo moradores, os guardas-civis foram alvos de provocação de usuários de drogas, que jogaram pedras e tossiram em cima deles.

A Prefeitura de São Paulo afirmou que afastou os guardas-civis e que uma sindicância foi instaurada para "apurar os fatos e aplicar as punições cabíveis". "A gestão municipal não compactua com irregularidades e todo caso de desvio de conduta é rigorosamente apurado", informou a nota.

Após o vídeo ganhar repercussão nas redes sociais, grupos de moradores da rua Helvetia passaram a trocar mensagens com agressões e ameaças verbais contra o videorrepórter e reclamando da denúncia. As primeiras mensagens mostram ainda a preocupação de que as imagens se espalhem.

Print de conversas em grupo de WhatsApp mostra moradores da rua Helvetia, núcleo da
Print de conversas em grupo de WhatsApp mostra moradores da rua Helvetia, núcleo da "nova" Cracolândia, identificando Caio Castor como autor do vídeo de uma mulher sendo agredida por guardas municipais e declarando ameaças

Jornalista independente, Caio Castor colabora com diversos veículos de comunicação, incluindo a Ponte Jornalismo, parceira do Yahoo! Notícias. Morador do centro, há anos acompanha a situação da Cracolândia. Ele conta que as cenas de violência nesta ‘nova Cracolândia' são recorrentes, incluindo a prática de atirar à queima-roupa com balas de borracha em frequentadores rendidos.

No domingo (29) moradores da região descobriram seu endereço e tentaram invadir sua residência. “Uma das 10, 15 pessoas que foram se reunindo ao longo da tarde e noite interfonou para o meu apartamento e disse que ia invadir, quebrar tudo, me xingando muito”, conta Castor.

Dentro do apartamento com a mulher e a filha, o jornalista pediu apoio de amigos do padre Júlio Lancellotti, conhecido por seu trabalho com pessoas em situação de rua, que acionou um delegado conhecido. Quando chegaram, as pessoas dispersaram e ele pode reunir seus pertences para deixar o apartamento. “Me sinto péssimo individualmente por estar sem casa, mas coletivamente também, por perceber uma escalada de discurso e prática em que não há mais espaço para debater os problemas da região", comenta sobre a situação. "Agora não se pode falar nada".

Após o episódio, o jornalista registrou boletim de ocorrência, encaminhando ao 77º DP.

Print de conversas em grupo de WhatsApp mostra moradores da rua Helvetia, núcleo da
Print de conversas em grupo de WhatsApp mostra moradores da rua Helvetia, núcleo da "nova" Cracolândia, identificando Caio Castor como autor do vídeo de uma mulher sendo agredida por guardas municipais e declarando ameaças

A rua Helvétia, no centro de São Paulo, abrigou por anos, nas suas quadras mais próximas à estação Júlio Prestes da CPTM, na região da Luz, o fluxo da Cracolândia. A quadra da mesma rua, porém mais próxima do Minhocão e da avenida São João, se tornou refúgio para o fluxo de traficantes, usuários e moradores de rua depois da megaoperação policial que os retirou da praça Princesa Isabel em 11 de maio.

Na última sexta-feira (27), a Polícia Civil, Polícia Militar e a GCM (Guarda Civil Metropolitana) deflagraram a segunda ação na cracolândia desde a megaoperação que esvaziou a praça Princesa Isabel, onde o fluxo de traficantes e usuários de drogas havia se estabelecido no fim de março. Ao menos seis adultos foram presos e um adolescente, apreendido.

Leia, na íntegra, nota da Abraji

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) repudia com veemência a reação de moradores da região central de São Paulo que foram até o apartamento do jornalista Caio Castor ameaçá-lo por ele ter filmado, na sexta-feira (27.mai.2022), um guarda civil metropolitano agredindo uma dependente química. Nos grupos de WhatsApp do bairro, moradores se queixaram de Castor ter divulgado as imagens, que serviram de base para uma reportagem da TV Globo. Eles alegaram que a reportagem levaria à retirada da Guarda Civil Metropolitana (GCM) do local, onde agora se instalou uma nova cracolândia.

Para além da troca de mensagens, um grupo de moradores decidiu ir até o prédio de Caio Castor e, por interfone, passou a ameaçá-lo. Dentro do apartamento com a mulher e a filha, o jornalista pediu apoio dos amigos e do padre Júlio Lancellotti, que auxilia pessoas em situação de rua na região. O padre acionou a polícia, mas os moradores se dispersaram antes de os policiais chegarem ao local. Ainda sob ameaça, no domingo (29.mai.2022), Castor e sua família deixaram o apartamento por medo de agressão.

Jornalista independente, Caio Castor colabora com diversos veículos de comunicação, como Agência Pública, Ponte Jornalismo e Agência Pavio. Morador da região central afetada pelo deslocamento recente da cracolândia, o videorrepórter cumpriu seu papel de mostrar uma atuação irregular do guarda civil metropolitano que agrediu uma mulher em situação de rua. Acompanhar o trabalho de agentes públicos e colaborar para coibir excessos é papel fundamental do jornalismo.

Sabe-se que, com o deslocamento da cracolândia, os moradores foram diretamente atingidos, registrando aumento da violência e da insegurança no local. O policiamento é necessário, assim como as políticas de saúde pública para lidar com a dependência química e com a reinserção dos usuários de drogas na sociedade.

É papel da GCM e das autoridades policiais proverem a segurança pública da região. O fato de um abuso ser denunciado não pode ser motivo para que se retire dali o policiamento, assim como é inadmissível que, para garantir esse policiamento, os moradores sejam coniventes com violência gratuita.

A Abraji se solidariza com Caio Castor e sua família e cobra a Secretaria de Segurança Pública para que investigue o caso com rapidez e responsabilize os autores das ameaças ao jornalista, assim como o guarda civil metropolitano que agrediu a dependente química.

Diretoria da Abraji, 30 de maio de 2022.

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