Jornalista transfoma episódio de violência vivido na adolescência em peça

·3 min de leitura

RIO — Ana tem 30 anos e está tentando engatar um relacionamento com Caio. Mas está insegura, sem saber se vai adiante. Ela não costuma confiar na figura masculina. Isso porque, no passado, sofreu uma violência sexual. Para ser feliz, acredita que precisa resolver, internamente, essa questão. Vai, então, em busca de terapia. Revive memórias, relembrando momentos com a família; e conversa sobre temas delicados, como aborto e estupro. Depois dessa experiência, vive o presente com mais coragem de enfrentar os desafios da vida. Esse é o enredo do espetáculo “Ana e a tal felicidade”, uma adaptação do livro de mesmo nome da jornalista Cris Pimental, moradora de Icaraí há 25 anos. A peça, da qual a escritora é idealizadora e diretora de produção, está em cartaz no Teatro Sérgio Porto, no Humaitá, Zona Sul do Rio, até o dia 28.

A obra na qual a peça se baseia é um romance, cuja trama se passa nos 1980, inspirado na vida da própria Cris, que sofreu um estupro aos 17 anos, e nas histórias de violência contra a mulher que a autora ouvia quando era escrivã da Polícia Civil de São Paulo, nos anos 1990.

— No livro, eu emprestei minha própria dor, a da violência sexual, para a personagem Ana, a protagonista. Fiz terapia por muitos anos, mas escrever foi o jeito que eu encontrei de exorcizar o sofrimento causado por esse episódio, que aconteceu na minha cidade natal, Santa Branca, no interior de São Paulo. Eu estava saindo de uma aula, dois caras me abordaram, me jogaram no carro e aconteceu. Por muito tempo, eu fui muito tímida e não sorria, me sentia culpada. Era muito pesado. Também tinha medo de homem, não deixava ninguém se aproximar de mim. Hoje, eu consigo sorrir. E toda essa história também é encenada nessa peça de 60 minutos, mas de forma leve, porque eu não quero que ninguém saia triste do teatro, e sim refletindo sobre como é difícil ser mulher numa sociedade machista. Apesar disso, Ana consegue superar tudo e ir em busca da tal felicidade — conta a escritora, hoje com 54 anos.

Trauma superado

A peça começou a ser elaborada em março deste ano. Para a concepção da dramaturgia e das cenas, Cris passou 15 dias com os atores, a dramaturga Renata Mizrahi e a diretora do espetáculo, Carol Araújo, contando sua história, fazendo a leitura do livro e ajudando na composição teatral.

— Depois do que aconteceu comigo, saí da minha cidade, estudei e fui levando a vida, até que eu encontrei um cara com quem pude contar e me casei. Ficamos juntos por 20 anos. Nesse período, fui muito feliz e descobri, inclusive, o orgasmo. Ensinaram para nós que só o homem poderia atingi-lo. Não podíamos nem tocar no assunto. E a Ana subverte essa lógica, mostrando o poder da mulher ao descobrir que pode se tocar e se relacionar com o próprio corpo. — explica Cris.

As apresentações estão acontecendo às quintas e sextas, a partir das 20h; aos sábados, com uma sessão às 18h e outra às 20h; e aos domingos, a partir das 19h, seguidas de um bate-papo com o elenco e com a escritora. O ingresso custa R$ 30 (inteira) e pode ser adquirido no local ou por meio do site sympla.com.br. O local tem capacidade para 180 pessoas. A classificação etária é 16 anos.

— O que eu quero que o público entenda é que o combate ao machismo começa na educação que damos aos nossos filhos dentro de casa. Se ensinarmos que não apenas as meninas precisam lavar louça, mas os meninos também, por exemplo, começamos a mudar esse cenário. Um mundo mais seguro para as mulheres começa com essas pequenas atitudes — analisa a autora.

SIGA O GLOBO-BAIRROS NO TWITTER (OGlobo_Bairros)

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos