Jornalista turco é condenado a 27 anos de prisão por denunciar relação de governo com rebeldes sírios

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um tribunal turco condenou nesta quarta-feira (23) o jornalista Can Dundar, um grande crítico do presidente Recep Tayyip Erdogan, a 27 anos de prisão por ter tornado público um sistema de entrega de armas de Ancara a grupos islâmicos na Síria. Dundar, que vive exilado na Alemanha, foi considerado culpado de auxiliar um grupo terrorista e de espionagem por ter publicado uma investigação em 2015, apoiada por imagens, sobre as entregas de armas pelos serviços secretos turcos. Seu artigo foi publicado no jornal Cumhuriyet, do qual ele era chefe de redação. Os advogados de Dundar se recusaram a participar da audiência na qual a sentença foi proferida. "Não queremos ser parte de uma prática para legitimar um veredito político", disseram, em um comunicado. Fahrettin Altun, diretor de comunicação da presidência da Turquia, disse considerar que a sentença não viola a liberdade de expressão e disse esperar que a Alemanha extradite o jornalista. A Justiça turca declarou Dundar um fugitivo e bloqueou todos os seus bens no país. Em maio de 2016, o jornalista foi condenado em primeira instância a cinco anos e dez meses de prisão por divulgar segredos de Estado sobre este assunto, o que irritou Erdogan, cujo país apoia grupos de oposição síria contra o regime do presidente Bashar al-Assad. No entanto, a sentença foi anulada em 2018 por um tribunal que ordenou um novo julgamento. O novo processo incluiu a acusação de espionagem, que resultou em uma pena mais severa. Em seu veredito nesta quarta-feira, o tribunal explicou que a sentença é dividida em 18 anos e seis meses como punição por "divulgação de informações confidenciais e espionagem", e oito anos e nove meses por "ajuda a uma organização terrorista", especificamente a rede do pregador Fethullah Gülen. Gülen, que está exilado nos Estados Unidos, foi acusado por Ancara de ter organizado o golpe fracassado contra Erdogan em julho de 2016. Dundar refugiou-se na Alemanha em 2016 após sua primeira condenação. Em uma visita a Berlim em 2018, Erdogan solicitou sua extradição e acusou-o de ser um agente que revelou segredos de Estado. Heiko Maas, ministro das Relações Exteriores da Alemanha, criticou a decisão judicial como "um duro golpe contra o jornalismo independente na Turquia". "O jornalismo não é um crime, mas um serviço indispensável para a sociedade, mesmo e especialmente quando ele olha de forma crítica aos que estão no poder", disse Maas.