Jornalistas são ameaçados de morte após reportagem sobre fake news bolsonarista

***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 07.06.2022 - O presidente Jair Bolsonaro (PL) durante cerimônia de lançamento do programa Brasil pela Vida e pela Família, no Palácio do Planalto, em Brasília. (Foto: Gabriela Biló/Folhapress)
***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 07.06.2022 - O presidente Jair Bolsonaro (PL) durante cerimônia de lançamento do programa Brasil pela Vida e pela Família, no Palácio do Planalto, em Brasília. (Foto: Gabriela Biló/Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Um repórter e uma editora do site Congresso em Foco tornaram-se alvo de ameaças de morte e tiveram dados pessoais vazados após denunciarem um fórum virtual que incentiva a produção de fake news em favor do presidente Jair Bolsonaro (PL).

As ameaças de morte foram direcionadas ao jornalista Lucas Neiva, autor da reportagem, e à editora do site, Vanessa Lippelt. Depois da publicação, no sábado (4), o site do Congresso em Foco sofreu um ataque hacker e foi derrubado, sendo restabelecido na manhã do domingo (5).

A publicação trouxe informações sobre o domínio "1500chan", um fórum em que internautas se comunicam, sem precisar se identificar, por texto e imagem. Segundo a reportagem, o site trazia mensagens de ódio contra jornalistas e militantes da esquerda, a quem diziam que "fariam sangrar".

O domínio, de acordo com a reportagem, também continha anúncios de usuários que ofereciam pagamentos com recursos próprios, em criptomoeda, em troca da criação de conteúdo eleitoral em favor de Bolsonaro que viralizasse na internet.

Após a veiculação da reportagem, foram direcionadas diversas mensagens de ódio ao jornalista no mesmo fórum: "Parece que alguém vai amanhecer morto", escreveu um participante. Em outra mensagem, um segundo participante afirma que causaria problemas a Neiva.

Um terceiro disse: "Eu ri do jornalista esfaqueado em Brasília e queria que acontecesse mais", referindo-se ao jornalista Gabriel Luiz, 29, da TV Globo de Brasília, que foi esfaqueado por dois homens em Brasília.

Em abril, a Polícia Civil considerou que o jornalista foi vítima de uma tentativa de latrocínio (roubo seguido de morte).

Já a editora do Congresso em Foco recebeu a mensagem: "Eu vou te matar, sua vagabunda. (...) Achei quatro falhas em criptografias militares, infinitamente dez vezes mais fortes que a do Pentágono. Eu já tenho seus dados e os dados de toda sua família".

"Viajarei até sua casa com a arma que estou enviando a foto em anexo, tenho 200 balas, assim fazer a festa no seu cafofo e provavelmente morrer em um belo confronto com a polícia depois de estuprar você e todas as crianças presentes."

O texto, com a foto de uma arma que, segundo o autor, seria usada no assassinato da jornalista, foi encaminhado ao email da redação do Congresso em Foco.

Depois do ataque hacker ao site de notícias, o 1500chan substituiu sua interface pela imagem de uma caravela e letras em códigos, tornando seu conteúdo acessível somente para usuários que utilizarem ferramentas específicas do navegador. A Folha não conseguiu contato com os usuários do fórum.

Todas as mensagens com ameaças foram encaminhadas e registradas em um boletim de ocorrência na 9ª Delegacia de Polícia de Brasília.

A editora Vanessa Lippelt disse à Folha que é uma questão de tempo para a polícia chegar aos autores que, uma vez identificados, "vão sofrer as consequências cíveis e criminais pelos atos".

"Não cabe mais no atual momento que passamos no país tentarem calar jornalistas com ameaças do tipo. Apesar de Bolsonaro e sua trupe ter predileção pela ditadura e pelo autoritarismo, vivemos numa democracia, e o papel da imprensa é vital para a manutenção desse estado democrático", afirmou.

A ABI (Associação Brasileira de Imprensa) cobrou a punição dos responsáveis pelas mensagens e disse que este tipo de ação "é uma das mais covardes entre as muitas perpetradas contra a liberdade de imprensa nos tempos atuais", coloca em risco a integridade física de profissionais e seus familiares e "constitui assédio moral com possíveis graves consequências".

A associação informou que pedirá ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) que providencie a apuração da veiculação de informações falsas no âmbito da campanha para as próximas eleições, assim como das graves ameaças sofridas pelos jornalistas no exercício de sua função.

Senadores classificaram as ameaças como grave ataque à liberdade de expressão e ao livre exercício profissional e se solidarizaram com os profissionais pelas redes sociais.

O presidente da Comissão de Direitos Humanos, senador Humberto Costa (PT-PE), disse que recebeu a notícia com muita "indignação e consternação". Em nota, ele assegurou que o colegiado tomará as providências necessárias para que o crime seja elucidado.

"É fundamental que estas ações sejam amplamente investigadas. Esses criminosos não calarão as vozes daqueles que diuturnamente trabalham para nos trazer informação e conhecimento; esses criminosos não cercearão a imprensa brasileira; esses criminosos não rasgarão a Constituição Federal", disse.

Um relatório da Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão) sobre violações à liberdade da expressão divulgado em março mostrou um aumento de profissionais de imprensa vítimas de atentados, agressões, ameaças, ofensas e intimidações em 2021, na comparação com o ano anterior.

Pelo menos 230 profissionais e veículos de comunicação sofreram algum tipo de ataque, 22% a mais do que em 2020. O principal autor das ofensas ao longo de 2021, segundo o estudo, foi Bolsonaro.

Já apoiadores do presidente foram responsáveis por oito episódios de agressão, cinco de ameaça e cinco de intimidação, o que é compreendido como uma resposta ao estímulo a ataques à imprensa por parte de Bolsonaro.

Procurado, o Planalto não se manifestou sobre o caso e o relatório até a publicação desta reportagem.

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