José Loreto fala da preparação para viver Casagrande no cinema: 'Todo mundo conhece um dependente químico'

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Quando leu a biografia de Walter Casagrande, José Loreto ficou tão impactado com a história do atleta que mergullhou nas drogas e superou a dependência química que resolveu procurar o ex-jogador e propor um filme. Casão recusou. Respondeu que, se ainda era difícil para ele ler aquelas páginas, imagina ver sua vida contada nas telas do cinema. Levou um ano até que mudasse de ideia. Mas mudou. E aí Loreto entrou em ação. Colou no ex-jogador e hoje comentarista.

- Fui para Curitiba vê-lo comentar jogo do Brasil no estádio. Fui na clínica de reabilitação com o Casão, no quarto onde ele ficou, conversei com psicólogos, terapeutas, almocei com pessoas que estavam em reabilitação. O vi dar depoimento para ajudar outras pessoas e sair completamente emocionado - narra o ator. - Pegava a ponte aérea só para tomar um café e ouvi-lo falar sobre tudo. Só não fui na terapia porque não podia. É um professorzão. Esse é o filme da minha vida, de uma importância nacional grandiosa. Todo mundo tem alguém na família ou conhece um dependente químico. É aquele assunto velado que ninguém fala no Natal. E acho que, quando a gente fala, desmistifica, trata como doença e tira o preconceito.

O roteiro para o filme de Casagrande está em fase de elaboração. Mas, antes desse projeto, Loreto vai interpretar Sidney Magal no longa “Meu sangue ferve por você”, previsto para ser rodado quando toda a equipe for vacinada. As reboladas em aulas de dança, salto alto e figurinos extravagantes usados para compor a persona do amante latino que abalou estereótipos de gênero chacoalhando os quadris, têm feito o ator entender que, como diz a música, ser um homem feminino não fere o seu lado masculino.

- É encorajador ver um homem seguro de si com quadril solto, fazendo trejeitos e performances. Estou azeitando o meu quadril e a dança tem afetado o meu emocional. Jogo a perna para o alto, é uma catarse que me torna mais sensível. Tenho me permitido ser mais feminino. Hoje, tenho saia, uso Melissa e isso me deixa potente e não acuado.

Aos poucos, o ator vem se especializando em papéis biográficos. Ele, que viveu José Aldo no filme "Mais forte que o mundo", que virou minissérie indicada ao Emmy Internacional, e diz que, por serem mais complexos, dão mais "barato".

- Procuro conversar com a família, com amigos mais próximos. Porque tem coisas que o biografado não tem coragem de falar. E esse olhar é precioso para mim. Vou montando uma colcha de retalhos.

Abaixo, Loreto fala da reforma que fez em sua casa durante a quarentena e dos desafios em educar a filha, Bella, de 3 anos. Também comenta sobre o vazamento de um vídeo íntimo seu, em 2017, e do julgamento sofrido por conta da especulação de que teria traído a ex-mulher com Marina Ruy Barbosa.

Antes de ser ator, você trabalhou como segurança em Los Angeles. Integrou equipes em show de Stevie Wonder de eventos com Gisele Bündchen... Conta uma história boa daquele tempo?

Fui segurança de uma festa de réveillon em que Gisele estava e barrei o Leonardo di Caprio por estar sem pulseirinha. Botei a mão no peito dele e disse que não poderia passar. Mas antes de eu terminar a frase, o chefe me mandou ir cuidar da área de fumantes (risos). Eu estava no melhor lugar da festa e perdi o posto (risos). Barrei ele por ser certinho, mas acho que mais para ter uma troca com ele (risos)...

Ao viver nesse ambiente, decidiu seguir a profissão de ator?

Sempre quis ser ator, mas minha mãe não queria. Fui estudar Economia porque ela era professora de matemática. Quando estava em Los Angeles, liguei para ela e falei que não voltaria ao Brasil para estudar Economia. Só se fosse para fazer teatro. Ganhava seis dólares a hora como segurança, o Oscar era na minha rua, eu morava na Hollywood Boulevard, fiz figurações em auditórios... Eu era exótico, e agentes me davam cartões no metrô. Eu nem falava inglês direito.

Acabei voltando para o Brasil e fazendo Economia e teatro. Fui saindo à francesa da faculdade. Fingia que estava indo para lá, mas ia para a CAL. Fiz peça infantil em praças de alimentação de shopping e larguei de vez a faculdade. Meus pais ficaram sabendo três meses depois...

Como anda a cabeça na quaentena? Reformar sua casa funcionou como uma terapia?

Muito! Foi doido, como se eu tivesse me reconstruindo junto. Fiquei pensando: "Fazer isso é futilidade ou essência? Tenho uma filha pequena, peguei uma casa antiga e vou fazer de um jeito para ela crescer aqui". Era minha musculação de 8 às 17h e a minha terapia também. A primeira vez que é uma casa só minha, com uma filha, no lugar de pai solteiro, após uma separação. Um momento em que as prioridades são outras.

Às vezes, quando estamos no auge do trabalho, da fama, fica difícil olhar para as coisas internas, menos superficiais. Olhei para dentro quando estava lá colocando argamassa, passando tubos, essas obras invisíveis, que ninguém vê. Temos um monte delas na vida. Me coloquei nesse lugar do pedreiro, de construir. Lembro que chegava na Barra, olhava um monte de concreto e via o suor de cada pedreiro ali. A emoção que sentia na construção, foi um momento de superação. Minha casa caminha junto comigo, é meu ninho.

Qual a parte boa e o aspecto mais difícil de ser pai?

Acordar com ela fazendo carinho, botar para dormir, a espontaneidade com que ela fala as coisas é demais. Minha mãe é superprotetora e eu tenho isso. Ao mesmo tempo, lembro que tenho que criar para o mundo (risos). Outro dia, estava conversando com um amigo e ele me disse que os filhos, às vezes, tinham medo dele. Essa é a minha maior dificuldade, passar uma firmeza. Como não acredito na educação pelo medo e brinco muito com ela, quando falo sério, ela acha que eu estou brincando. Não posso ser só o papai astral que vai topar tudo.

Você tem uma boa relação com a Débora? Que aprendizado ficou da época do boato de que a teria traído com a Marina Ruy Barbosa?

Muitos aprendizados. Aquilo foi uma grande especulação e um grande julgamento sem ninguém saber de nada. Expliquei que não tinha acontecido nada entre eu e Marina. Pedi desculpas a Débora por problemas pessoais que estávamos vivendo (o ator fez um post em que pedia perdão à mulher e a filha) e, aí, especularam tanta coisa... Não quis ficar desmentindo. Foi uma dor muito grande. Há coisas que toda família passa que precisam ser resolvidas entre quatro paredes. Mas aquilo virou uma novela. Pensei: "Vou me recuperar com o meu trabalho, tenho muita coisa para fazer, não vou ficar desmentindo fofoca". Passa, e a gente amadurece. Me fez perceber até que ponto é importante me preocupar com o que os outros falam e levar a culpa de algo que você não fez.

Em 2017 vazou um vídeo íntimo seu. Como se sentiu ao ter sua intimidade exposta e como aquilo afeitou a sua vida e a da sua família?

Fui na delegacia de crimes de informática, ia processar. Já tinham até achado o computador de onde saiu o vídeo. Mas o delegado me levou a uma sala em que 30 funcionários trabalhavam e me explicou que, se eu quisesse, tiraria pessoas dali para resolverem o meu caso, mas que a equipe estava prestes a desbaratar uma rede de pedofilia. Uma coisa de filme. Eu pensei: "Me expuseram, mas, quer saber, deixa quieto. De repente, eram adolescentes...".

Mas aquilo me afetou demais, até a minha relação com a Débora. Foi muito difícil na hora. Tenho uma avó de 96 anos, outra de 94... O neto, o filho pelado vira aquele assunto calado, né? Mas todo mundo me entende. Porque a maioria dos meus amigos já fizeram isso, e é super saudável.

Mas tem que saber com quem você faz certas coisas. Tentei pensar pelo lado bom: é uma lição e virou lixo rapidinho. Passou um tempo e ninguém falou mais.

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