José Luís Peixoto transforma José Saramago em personagem de romance: 'Sempre me intimidou'

·3 min de leitura

José Luís Peixoto conheceu José Saramago em 1997, numa biblioteca em Coimbra. Pediu-lhe que autografasse seu exemplar de “Memorial do convento”, mas o escritor se confundiu e dedicou o livro a “José Luís Pacheco”. Reencontram-se em 2001, quando, aos 27 anos, Peixoto venceu o Prêmio Literário José Saramago com seu romance de estreia, “Nenhum olhar”. Saramago chegou a profetizar que ele seria “o continuar dos grandes escritores”. Autor de mais de uma dezena de títulos em prosa e poesia editados em mais de 30 idiomas, Peixoto tornou-se um continuador do próprio Saramago. Em 2019, ele lançou “Autobiografia”, romance no qual escala o Nobel de Literatura como personagem. Publicado originalmente pelo clube de assinatura TAG — Experiências Literárias, “Autobiografia” acaba de chegar ao Brasil em edição da Companhia das Letras, em meio aos festejos do centenário de Saramago, que completaria 100 anos em 16 de novembro.

Inicialmente, Peixoto planejava escrever um livro de contos protagonizados por grandes personagens da história lusitana, mas logo percebeu que Saramago merecia maior destaque. Inventou, então, a história de José, um jovem romancista, com um fraco pela jogatina e pela aguardente, que é convidado a escrever uma biografia do autor de “Ensaio sobre a cegueira”.

Os capítulos de “Autobiografia” se alternam entre as trapalhadas de José e trechos do “texto ficcional de cariz biográfico” que ele escreve. Esses últimos, aliás, trazem como epígrafes frases de Saramago sobre a literatura. Uma cena descreve o espanto de José diante do estilo de Saramago, “feitos a que não estava habituado”. “Esse júbilo era igual ao das crianças que corriam pelas frases e pelas elevações da calçada, elas surpreendidas pelo terreno, José pelas frases e pelos parágrafos”.

— Embora não se possa separar as dimensões literária, política e humanista de sua obra, quis sublinhar o Saramago escritor e fazer da leitura e a escrita temas centrais do romance. Ainda hoje, o ativismo de Saramago tem enorme impacto político em Portugal — diz Peixoto ao GLOBO.

José teme cometer indiscrições ao narrar a vida de Saramago. Ele recusa “mexericos” sobre o fim do primeiro casamento do escritor e teme até revelar os nomes de seus antigos companheiros do Partido Comunista, como se eles ainda corressem algum risco no Portugal democrático dos anos 1990 em que se passa a história. Peixoto confessa que não conseguiu fugir do “fantasma” de Pilar de Río, viúva de Saramago e personagem do romance, enquanto escrevia. Ela, porém, disse ao GLOBO que adorou “Autobiografia”. Peixoto diz ainda que, apesar de sua amizade com Saramago, nunca deixou de se sentir “intimidado” pelo escritor, descrito por José como “severo comunista, austeridade empedernida, homem que não sorri”.

— Saramago levava muito a sério o que dizia. Sempre me impressionou sua convicção, não apenas nos livros, mas também em suas intervenções públicas. Mas ele também tinha momentos de bom humor, o que é um sinal de inteligência. E Saramago era uma pessoa com muitas inteligências — afirma Peixoto, cujo romance mais recente, “Almoço de domingo”, será publicado este ano pela Companhia das Letras.

Portugal como tema

“Autobiografia” retrata o Portugal dos anos 1990, que se abria para a Europa enquanto alguns ainda se ressentiam do fim do império colonial (como o idoso Bartolomeu, amigo de José) e outros tentavam a vida em países mais ricos (como o pai do protagonista, imigrante na Alemanha). Portugal é um tema recorrente na ficção de Peixoto, que já escreveu sobre a vida em cidadezinhas esquecidas (“Galveias”) e sobre a emigração lusa para a França no pós-guerra (“Livro”). No entanto, ele também se arrisca por mares pouco navegados. Escreveu livros de não ficção sobre a Coreia do Norte (“Dentro do segredo”) e a Tailândia (“O caminho imperfeito”) — foi guia turístico nesses países — , e mantém o podcast “Tanto mundo”, no qual fala de suas andanças por diversos países, interrompidas pela pandemia.

— O mais triste é a impossibilidade de sonhar novas viagens — diz ele, que espera vir ao Brasil em fevereiro. — Mas nem quero falar muito disso com medo de dar algum enguiço.

Serviço:

“Autobiografia”

Autor: José Luís Peixoto. Editora: Companhia das Letras. Páginas: 272. Preço: R$ 69,90.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos