Josué Gomes ignora assembleia que tentou destituí-lo, e Fiesp diz que ele continua no cargo

A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) afirmou em nota nesta quinta-feira que o presidente da entidade, Josué Gomes da Silva, continua no cargo. Com isso, consolida-se a tese de que o dirigente vai questionar a legalidade da votação organizada na noite da última segunda-feira e que, com 47 votos, decidiu retirá-lo do cargo. Houve duas abstenções e um voto a favor de sua permanência.

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A nota sucinta informa "que Josué Gomes da Silva é o presidente da entidade e está no exercício pleno de suas funções, conforme determinam os estatutos vigentes".

O grupo oposicionista esperava que a Fiesp protocolasse em cartório a ata da assembleia, o que não tinha ocorrido até esta quinta-feira.

O encontro foi marcado por Josué depois de um grupo de representantes de 86 sindicatos patronais filiados à Fiesp ter solicitado a convocação de uma assembleia para debater questionamentos do grupo em relação à gestão do dirigente, a maioria questões de cunho exclusivamente político.

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A assembleia que buscou destituir Josué Gomes ocorreu no mesmo dia em que ele tentou demonstrar força ao trazer à sede da Fiesp para um almoço com os sindicatos patronais o vice-presidente da República e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin.

A assembleia durou cerca de quatro horas e meia. Primeiramente, os sindicatos reprovaram, por 62 a 24, os argumentos dados por Josué Gomes aos questionamentos sobre sua atuação no cargo. Assim que essa votação terminou, Josué e os sindicatos que o apoiam deixaram o local.

Entre as entidades que respaldam o presidente, estão os que representam grandes setores como o automotivo, a indústria de celulose e papel, o setor de plástico, o de máquinas e a indústria da construção civil.

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Do lado dos oposicionistas, está um numeroso grupo de sindicatos patronais de setores menores, a exemplo dos ramos audiovisual, panificação, vassouras e estopas. Esse grupo permaneceu na Fiesp após a saída de Josué Gomes e abriu uma segunda assembleia, com quórum menor. Nela, aprovaram a destituição do presidente por "grave violação do estatuto" e "conduta incompatível com a ética".

Na assembleia, o grupo buscou dar um verniz ético à destituição de Josué questionando, por exemplo, a nomeação do ex-presidente do BNDES Luciano Coutinho para o conselho de micro, pequena e média empresa da Fiesp ao mesmo tempo em que sua consultoria Macrotempo prestava serviços à entidade.

Manifestos pró-democracia

O pano de fundo da disputa, no entanto, tem menos a ver com corrupção e mais com disputa política. De estilo reservado, Gomes colecionou inimizades ao longo de um ano na Fiesp por deixar de atender a pleitos de entidades patronais de menor porte, que tinham excelente relação com Skaf.

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Também gerou rusgas o fato de Josué ter articulado os manifestos pró-democracia lidos no dia 11 de agosto de 2022 no Largo de São Francisco. A atuação irritou especialmente o grupo mais alinhado ao bolsonarista Paulo Skaf.

Ao GLOBO, o ex-ministro da Justiça Miguel Reale, que defende Josué Gomes no processo, chegou a afirmar que a destituição é ilegal e não tem validade jurídica. Agora, o caso deverá oficialmente ser judicializado e o juízo poderá determinar a realização de uma nova assembleia.

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Em paralelo, nomes do chamado Comitê de Defesa da Democracia, grupo de intelectuais, investidores, sindicalistas e empresários que articulou os manifestos pró-democracia de agosto, divulgou na quarta-feira uma carta em apoio a Josué.

O texto é assinado por nomes como o ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga; a socióloga e banqueira Neca Setubal; o diretor do Instituto Ethos, Caio Magri; o presidente da central sindical UGT, Ricardo Patah; o secretário-geral da Força, João Carlos Gonçalves (Juruna); o diretor da Faculdade de Direito da USP, Celso Campilongo; e o advogado e professor da FGV Oscar Vilhena Vieira, entre outros.

Um dos que assinam é Clemente Ganz Lúcio, sociólogo e ex-diretor do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). Ele afirma que o grupo resolveu se solidarizar com Josué por entender que ele sofre uma "prática antidemocrática e golpista".

— Ouvi áudios da reunião, é um comportamento inacreditável desse grupo. É parecido aos que financiam atos terroristas. A Fiesp sofre o que o movimento sindical também sofre: há entidades sem representatividade e cartoriais que recebem financiamento e não representam, de fato, os interesses de uma classe. O modelo de financiamento precisa ser revisto e as centrais sindicais vão buscar isso — afirmou ao GLOBO.