Josué Gomes se mantém no comando da Fiesp e faz reunião com aliados sem mencionar oposição

O empresário Josué Gomes da Silva, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), mostrou que mantém o comando da entidade e organizou nesta segunda-feira uma reunião com dirigentes de sindicatos empresariais que o apoiam na disputa com o grupo de oposição que busca destituí-lo do cargo na entidade.

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Josué havia marcado a reunião desta segunda-feira no dia 16 de janeiro, durante a mesma assembleia na qual o grupo da oposição fez uma votação para derrubá-lo. A proposta do empresário e controlador do Grupo Coteminas era criar os chamados comitês de aprimoramento da governança da Fiesp.

Como se sabe, o dirigente tem enfrentado há meses um movimento de sindicatos patronais em sua maioria ligados ao ex-presidente da Fiesp Paulo Skaf. Eles se dizem insatisfeitos com a falta de diálogo de Josué com sindicatos, em especial os de menor porte e de setores de diminuta relevância econômica.

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Na última sexta-feira, a oposição usou contas de e-mail da própria Fiesp para informar funcionários da e filiados da entidade que Elias Miguel Haddad, de 95 anos, um dos 24 vice-presidentes da instituição, assumiria a presidência interinamente em razão da alegada destituição de Josué.

Em uma mensagem dirigida aos presidentes de sindicatos patronais, Miguel Haddad desmarcou a reunião dos comitês convocada por Josué para esta segunda-feira.

Na sequência, ainda na noite de sexta-feira, o advogado Miguel Reale, que defende Josué, enviou uma notificação extrajudicial ao vice-presidente e a outros membros da oposição na qual o empresário torna sem efeito qualquer deliberação tomada em sua ausência e classifica o ato como "atitude é isolada, desproporcional e irresponsável", que fere o estatuto da entidade.

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A assembleia do dia 16 de janeiro terminou oficialmente com uma deliberação sobre as explicações do dirigente sobre os questionamentos da oposição, majoritariamente de ordem política (como a assinatura do manifesto pró-democracia lido no ano passado em 11 de agosto na Faculdade de Direito da USP). A reunião durou cerca de quatro horas e meia e reprovou, por 62 a 24, os argumentos dados por Josué.

Assim que essa votação terminou, o presidente e o grupo que o apoia deixaram o local. Na sequência, sem a presença do dirigente, os remanescentes abriram uma segunda assembleia, com quórum menor, e aprovaram a destituição do presidente por 47 votos a favor, 1 voto contra e 2 abstenções.

Para o grupo de Josué, essa segunda votação foi ilegal, mas a oposição não o reconhece mais como presidente desde então e nomeou o vice-presidente mais idoso para um mandato tampão até que haja uma reunião para a escolha de qual vice-presidente assumirá o cargo pelo restante do mandato. Na prática, portanto, a Fiesp conta com dois presidentes atualmente.

Nesta segunda-feira, Josué e os sindicatos que o apoiam conseguiram realizar a reunião que havia sido cancelada por Elias Miguel Haddad. O encontro foi realizado no 15º andar do prédio, local em que são realizadas as reuniões da diretoria, e não houve nenhuma dificuldade de acesso.

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Segundo dirigentes empresariais que compareceram à reunião, Josué convidou todos os sindicatos, mas só estiveram presentes membros de 55 entidades (a Fiesp tem 131 sindicatos afiliados, mas nem todos têm direito a voto).

Entre eles, segundo dirigentes ouvidos pelo GLOBO, estavam sindicatos representantes da indústrias automotiva, de celulose e papel, construção civil, máquinas, setor eletroeletrônico e segmento metalúrgico.

De acordo com Synésio da Costa, presidente do Sindibrinquedos e aliado de Josué, havia nesse grupo sindicatos que deixaram de apoiar o movimento da oposição. Outro dirigente disse que somente os aliados de Josué compareceram ao evento. O grupo de oposição a Josué boicotou o evento.

— Gastamos o tempo todo da reunião falando em como melhorar pautas para o setor. Não foi mencionada briga ou invasão à Fiesp em nenhum momento. Josué falou de grandes pautas de interesse da indústria, como a reforma tributária — afirma Synésio.

Josué, porém, pediu aos presentes apoio para organizar os chamados "conselhos superiores" da Fiesp, que têm mandatos anuais e que, em razão do imbróglio na entidade, não tiveram renovação em 2023 ainda.

—Josué falou em recompor o conselho com critérios, com regramento jurídico. Ele pediu ajuda explicitamente para compor os conselhos com os nomes que foram indicados pelas entidades que lhe mandaram nomes e disse que vai privilegiar os nomes da indústria, o que considero bastante positivo — diz Synésio.

A leitura de outro aliado de Josué é de que nomes de consultores serão substituídos por "gente da indústria" e com "conhecimento de fábrica". Na prática, isso daria margem para a renovação dos conselhos e a retirada de aliados de Skaf da Fiesp.

Esse mesmo aliado, no entanto, diz que Josué tem se mostrado disposto a conversar com Skaf para dirimir tensões, desde que seu mandato siga intacto.