Jovem é encontrado morto após abordagem; PMs são afastados

THAIZA PAULUZE

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O vendedor ambulante David Nascimento dos Santos, 23, foi encontrado morto após abordagem da polícia na noite da última sexta-feira (24), em uma favela na região do Jaguaré, zona oeste da capital paulista. Segundo a mãe, ele tinha marcas de tortura e tiros no rosto e no peito. Doze PMs foram afastados.

David tinha ido a um bar perto de casa, na favela do Areião, usar o Wi-Fi para baixar filmes e pedir um lanche via aplicativo, quando um carro da PM se aproximou, fez uma abordagem e o colocou no banco de trás da viatura.

Ele era vendedor ambulante de água e doces na Marginal Pinheiros, também próximo dali, e tinha o sonho de ser cantor de funk -já era conhecido como Dede ou MC 2Dêeh. David deixa dois filhos, de 1 e 2 anos, além da esposa grávida.

A mãe, Cilene Geraldina dos Santos, 38, afirma que o rapaz tinha marcas roxas e terra no corpo, principalmente no rosto. Também havia perfurações de tiros na barriga e na cabeça -ela não sabe quantos.

Segundo a família, o jovem foi levado pelos policiais para uma comunidade vizinha, a Fazendinha, onde teria sido torturado e morto. Testemunhas dizem ter ouvido gritos de socorro e xingamentos.

Cilene nega que o filho tivesse qualquer envolvimento com o crime. "Ele dizia que ia gravar uma música e reformar nossa casa. Agora não vai nem poder conhecer o filho. Nunca fez mal para ninguém, nem para matar uma galinha ele prestava", conta.

David já foi detido por conta do roubo de um celular, mas não chegou a ficar preso. Segundo a mãe, ele havia comprado um celular roubado e, por ser réu primário, cumpria apenas medidas alternativas.

A primeira versão da PM foi a de que houve troca de tiros. Registro feito no 5º DP de Osasco, na Grande São Paulo, é de morte decorrente de intervenção policial, resistência e excludente de ilicitude.

Imagens de câmeras de segurança, porém, podem desmentir o que foi dito pelos agentes. As gravações mostram um rapaz, que a família afirma ser David, sendo abordado por PMs e colocado numa viatura do 5º Baep (Batalhão de Operações Especiais), às 19h48 da última sexta. Ele foi encontrado morto pela família no Hospital Regional de Osasco por volta das 22h.

Segundo os oficiais, eles faziam a perseguição a pé de três homens que teriam se escondido após supostamente terem assaltado o carro de um motorista de aplicativo na av. Presidente Altino, no Jaguaré. O motorista disse não poder reconhecer os assaltantes.

O grupo teria se escondido pelas ruas da favela do Areião, ainda segundo a polícia, que aponta David como um dos assaltantes que teriam atirado contra os policiais.

Na versão dos PMs, durante a perseguição, eles avistaram um homem atrás de uma moita. Em seguida, eles "ditaram palavras de ordem, se identificaram como policiais, mas um indivíduo saiu do mato atirando contra eles, que revidaram e efetuaram cinco disparos".

Ainda segundo a corporação, David foi levado ao hospital por volta das 21h35, mas já chegou sem vida.

A mãe também afirma que o jovem teve as roupas trocadas pela polícia. No vídeo, o rapaz é visto usando bermuda e chinelos. O corpo foi encontrado com sapatos e uma calça que, segundo Cilene, não pertenciam a David.

"Ele estava de bermuda, boné, um Kenner e uma jaqueta. Tudo isso sumiu, assim como o celular dele, o RG", diz ela, que está sem comer desde que soube da morte do filho. "Ele morreu porque estava esperando comida pelo iFood."

Cilene diz que David era o filho mais apegado a ela, do total de nove, e tinha uma tatuagem escrito "amor só de mãe" e outra com o nome dela. "Todo dia eu perguntava 'filho, dormiu bem?' Agora olho para a cama dele e não vejo ele mais lá." Ele faria 24 anos em 10 de maio, Dia das Mães.

Ela conta que David já tinha sido enquadrado pela PM diversas vezes onde mora a família, algumas com violência. "É a rotina do morador de favela e negro. Até já me fizeram abaixar a calça pra comprovar que não tinha droga", diz.

A família está sendo acompanhada pela Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocídio, que encaminhou o caso para a Corregedoria e para o Ministério Público. A rede, que articula advogados, movimentos sociais e moradores de favelas, e recebe denúncias de abuso policial nas periferias de São Paulo há dois anos, tem reunido também relatos de violação de direitos trabalhistas com a pandemia.

O caso de David foi denunciado inicialmente pela Ponte, um portal de segurança pública e direitos humanos.

Procurada, a Secretaria de Segurança Pública (SSP), sob gestão de João Doria (PSDB), afirmou que a Corregedoria da PM apura as circunstâncias da morte por meio de inquérito policial militar e que 12 agentes foram afastados do policiamento operacional. A ocorrência também é investigada pelo 93º Distrito Policial, responsável pela área.

De acordo com dados divulgados pela SSP em 24 de abril, o número de mortos pela polícia em São Paulo no primeiro trimestre deste ano foi o maior da série histórica do governo paulista, iniciada em 1996.

Entre janeiro e março, a PM matou 255 pessoas em supostos confrontos, sendo que 85% (218 mortes) foram cometidas por policiais em serviço e 64% das vítimas com registro de raça eram negras. Na comparação com o mesmo período do ano passado, a elevação no número total de mortos por PMs no estado foi de 23%.

Antes do primeiro trimestre deste ano, os meses de janeiro a março de 2003 eram os recordistas no número de pessoas mortas por policiais militares, com 228 mortos.