Jovem abordado por PMs sofreu hemorragia causada por pancadas, diz perícia

PORTO ALEGRE, RS (FOLHAPRESS) - O jovem Gabriel Marque Cavalheiro, 18, morreu devido a uma hemorragia interna causada por pancadas na região cervical --as sete primeiras vértebras localizadas no pescoço. O laudo de necropsia do corpo dele foi divulgado nesta segunda (29) por autoridades de segurança do governo gaúcho.

Cavalheiro foi encontrado morto em um açude em São Gabriel, na região de fronteira do Rio Grande do Sul, uma semana depois de ser levado por três policiais militares

Segundo trecho do documento, lido em entrevista coletiva pela diretora-geral do Instituto-Geral de Perícias do Rio Grande do Sul, Heloísa Helena Kuser, houve "perda sanguínea causada por ruptura de vaso na região cervical, com sinais de ação por instrumento contundente, ou seja, uma hemorragia interna".

A perícia aponta ainda que, embora o corpo tivesse sido encontrado submerso em um açude, não havia líquido no pulmão, traqueia ou estômago, indicando que a vítima já estava morta antes de ser abandonada no local.

Na noite do dia 12 deste mês, uma mulher chamou a polícia assustada porque, segundo ela, Cavalheiro tentava entrar na casa dela. Ele aparentava estar alcoolizado e buscava o caminho da casa do tio, onde estava hospedado. Natural de Guaíba, na região metropolitana de Porto Alegre, o jovem estava em São Gabriel para se apresentar ao serviço militar na semana seguinte.

A ocorrência foi atendida por três policiais militares, o segundo-sargento Arleu Júnior Cardoso Jacobsen e os soldados Raul Veras Pedroso e Cléber Renato Ramos de Lima. Conforme o site GZH, uma testemunha afirmou ter visto Cavalheiro ser algemado e agredido com um tapa e golpes na cabeça, fortes o suficiente para deixá-lo desacordado. Ele aparentava estar inconsciente ao ser posto na viatura.

Parte da abordagem foi filmada e circulou em redes sociais. As imagens revelam Cavalheiro sentado e algemado diante dos policiais, mas não mostram agressões.

Os três policiais foram presos em 19 de agosto, quando o corpo foi localizado em um açude na região de Lava-pés, distante seis quilômetros da ocorrência. O GPS da viatura apontou que o veículo esteve lá por cerca de dois minutos na noite do desaparecimento. Os policiais admitiram ter estado na região, mas alegaram ter deixado o rapaz no local com vida e por vontade dele. Eles negam as agressões.

Agora, a Polícia Civil procura esclarecer em que momento Cavalheiro foi colocado na água. Como o tempo de permanência dos PMs no local foi muito breve, suspeita-se que uma ou mais pessoas possam ter voltado ao local para ocultar melhor o corpo do jovem no interior do açude.

A defesa de dois dos policiais argumentou que os vídeos daquela noite não mostravam as fardas sujas, o esperado caso eles tivessem entrado no açude.

Após o resultado da perícia e de relatos de testemunhas, a Corregedoria da Brigada Militar indiciou os PMs por homicídio quadruplamente qualificado, em razão de motivo fútil, tortura, impossibilidade de defesa e prevalecimento dos policiais em serviço. Além disso, respondem no inquérito militar por ocultação de cadáver e falsidade ideológica, por terem mentido nos documentos da ocorrência.

Além de responderem à Justiça Militar, os três policiais tiveram prisão preventiva decretada pela Justiça comum, que deve julgá-los por homicídio. Eles respondem ainda a um processo administrativo que pode resultar em exclusão da Brigada Militar, o que deve fazer com que eles percam salários e o direito de cumprir eventuais penas em cadeias militares.

Cavalheiro foi sepultado em São Gabriel no último dia 21. Ele pretendia morar na cidade porque, além de ter parentes na cidade, era apaixonado por andar a cavalos, o que faz parte da cultura da região da fronteira. O cortejo até o cemitério do município foi acompanhado por cavalarianos. O corpo foi enterrado sob um chapéu de cavalaria, salva de palmas e pedidos de justiça.

Além da promessa de "exaustiva apuração" sobre o caso, o governador do Rio Grande do Sul, Ranolfo Vieira Júnior (PSDB), prometeu dar início ao uso de câmeras em uniformes de policiais militares até o final deste ano.