Jovem asiática é chamada de ‘coronavírus’ e leva borrifada de álcool na cara: “Eu não sou uma doença”

Família do pai de Fernanda Yumi Tagashira está no Brasil desde 1936; família da mãe é brasileira (Foto: Arquivo Pessoal)

O estigma de que o coronavírus e um “vírus chinês” pode gerar problemas, entre eles o preconceito com pessoas de origem asiática. Foi o que aconteceu com Fernanda Yumi Tagashira, 19 anos.

E nos siga no Google News:

Yahoo Notícias | Yahoo Finanças | Yahoo Esportes | Yahoo Vida e Estilo

Ela tem descendência japonesa e passou a ser chamada de “coronavírus” por uma colega de trabalho.  A mulher também borrifou álcool na cara de Yumi.

O preconceito e os comentários racistas da colega começaram logo que Yumi entrou no novo emprego, há um mês. A mulher perguntou diversas vezes sobre o sobrenome da jovem e fez trocadilhos, sempre com tom de deboche.

Baixe o app do Yahoo Mail em menos de 1 min e receba todos os seus emails em 1 só lugar

“Eu não falei nada porque não é a primeira vez que fazem isso com meu sobrenome e pensei que era só mais uma pessoa infeliz”, afirmou. Em outra ocasião, a colega perguntou sobre as origens de Yumi: a bisavó chegou ao Brasil, saída do Japão, em 1936. Já a família da mãe é brasileira.  

Na terça-feira, dia 17, Yumi foi designada a passar o dia com a colega. “Ela sentou do meu lado e não disse meu nome, disse ‘tô com a coronavírus hoje, vou ajudar a coronavírus’”, relatou. A colega ainda afirmou para outros presentes na sala que, se ela fosse infectada, todos já saberiam o motivo.

A situação piorou ainda mais quando Yumi, que tem rinite, espirrou. Mais uma vez a mulher insinuou que a jovem tinha covid-19.

Com a falta de álcool em gel, o trabalho das duas optou por comprar álcool líquido e colocar em borrifadores para que os funcionários pudessem fazer a higienização do local. Yumi saiu para almoçar e, quando voltou, viu que a colega estava com o borrifador na mão. Ela deixou o local uma vez mais e, ao retornar, levou uma borrifada de álcool na cara. “Entrou no meu olho, ficou ardendo e meu rosto ardeu também”, afirma.

Mesmo com o susto e sem conseguir ver quem havia feito aquilo, Yumi sabia exatamente de quem se tratava. Quando a jovem reclamou, ouviu da colega que não gostaria de ter acertado o rosto de Yumi.

Ela só se deu conta da gravidade da situação ao chegar em casa e contar pra mãe o que tinha acontecido no trabalho. “Comecei a chorar. Eu não deveria ter ficado quieta. Ela não fala meu nome, ela me chama de coronavírus e eu não sou um vírus, não sou uma doença”, desabafa.

Leia também

A empresa na qual Yumi trabalha tomou atitudes. Disse que demitira a responsável pelo caso e que ajudaria a jovem a levar um processo por injúria racial.

Segundo o código penal brasileiro, ofender alguém utilizando elementos referentes a raça, cor, etnia, origem ou a condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência configura injúria. A pena é de reclusão de um a três anos, além de multa.

Baixe o app do Yahoo Mail em menos de 1 min e receba todos os seus emails em 1 só lugar

Na sexta-feira, antes de Yumi levar o processo à cabo, a colega pediu desculpas. Por isso, a jovem pediu para que a empresa não a demitisse. “Fiquei muito feliz, porque não achei que eles iam me dar todo esse apoio”, relata. A mulher foi chamada para conversar com superiores e também com Yumi. “Falei para ela que não queria que ela fosse mandada embora porque ela pediu desculpas e ela parecia estar disposta a evoluir. Mas precisa repensar as atitudes. A empresa deixou claro que o que ela fez é racismo, e racismo é crime.”

EXEMPLO

Sobre a pecha de “vírus chinês”, usada por autoridades como Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, e o deputado Eduardo Bolsonaro, Yumi lembra que o primeiro caso no Brasil foi importado da Itália. Para ela, quando líderes têm esse tipo de fala, o sentimento xenofóbico cresce – e muito.

“A situação do coronavírus só piora o preconceito. E o governo, em vez de dar apoio para grandes colônias japonesas que tem no país, só alimenta a ignorância, é decepcionante”, pondera.