Jovem ensina inglês para pessoas trans no Rio de Janeiro

“A educação é a única forma de se construir uma sociedade melhor”, diz Thiago Peniche. Foto: Arquivo Pessoal
“A educação é a única forma de se construir uma sociedade melhor”, diz Thiago Peniche. Foto: Arquivo Pessoal

Com o objetivo de ajudar o próximo e dar esperança para um grupo que não tem tantas chances como a maior parte da população, o professor Thiago Peniche, 21 anos, decidiu ministrar aulas de inglês de graça para pessoas transsexuais e travestis. Com a ajuda do pastor Luís Gustavo, da ICM (Igreja da Comunidade Metropolitana), ele conseguiu um local para colocar a ideia em prática e, assim, nasceu o projeto Es(trans)geiros.

De acordo com o jovem, ele tinha o sonho de ajudar pessoas que não tiveram as mesmas oportunidades que ele e viu que a sua chance de fazer isso estava mais perto do que ele imaginava. “Muitas pessoas abandonam o ensino médio porque começam a ter medo de frequentar as aulas. Então, a minha intenção era criar um espaço onde essa população pudesse estudar sem ter medo, onde as pessoas pudessem se sentir acolhidas, abraçadas e respeitadas”, afirma ao blog.

As aulas de Thiago acontecem semanalmente na igreja, que fica no centro do Rio de Janeiro, e conta com uma turma de 15 pessoas. Mesmo com as boas intenções, a turma precisa de ajuda com doações de materiais, mas encontrou apoio de várias pessoas. “Isso tudo me dá muita esperança porque a educação é a única forma de se construir uma sociedade melhor”, diz.

Leia a entrevista completa:

Quando e por qual motivo você decidiu dar as aulas?

Thiago Peniche: Comecei a pensar nisso no ano passado. Conversei com algumas pessoas, pedi ajuda para divulgação e alguns conhecidos me ajudaram a fazer a arte digital para começar a divulgação. Eu tinha o sonho de dar aulas de inglês em outro país, na verdade, em algum local onde as pessoas também precisassem de aulas gratuitas. Era o meu sonho, mas como eu não consegui bancar isso por motivos financeiros, eu comecei a me movimentar pra levantar o meu próprio projeto social.

Você queria ajudar as pessoas?

Peniche: Eu tinha o sonho de ajudar pessoas que não tiveram o mesmo privilégio que eu tive de poder aprender inglês. E eu quis fazer um trabalho especialmente voltado para a população trans de baixa renda porque as pessoas transexuais e travestis têm uma dificuldade maior dentro do âmbito da educação: elas precisam enfrentar o preconceito. São vários relatos de bullying e discriminação que envolvem agressões físicas, verbais, além do direito de usar o banheiro negado. Muitas pessoas abandonam o ensino médio porque começam a ter medo de frequentar as aulas. Então, a minha intenção era criar um espaço onde essa população pudesse estudar sem ter medo, onde as pessoas pudessem se sentir acolhidas, abraçadas e respeitadas.

Você foi atrás do espaço ou ele foi oferecido à você?

Peniche: Eu pedi ajuda na rede social, e logo as pessoas se sensibilizaram e começaram a indicar lugares. Até que o pastor Luís Gustavo, da ICM Rio, apareceu e me ofereceu. Ele super apoiou a causa. Eu fiz uma visita ao culto, ele me mostrou que a igreja contava com projetor, equipamento de som, um quadro branco, banheiro, café e água para os alunos.

Como você reagiu a isso?

Peniche: Fiquei muito emocionado porque é numa igreja, né? Eu nunca esperaria que uma igreja fosse apoiar uma causa com esse viés. Mas a ICM Rio é uma igreja diferente. Eles acreditam que Deus ama todas as pessoas. Isso me emocionou muito. Daí, pronto: eu já tinha o local, já tinha os equipamentos básicos. Era só botar a mão na massa.

Quantas pessoas, em média, já passaram pelo seu curso?

Peniche: Atualmente temos 15 alunos que frequentam as aulas toda semana, mas quando fiz o formulário, tive mais de 100 inscrições. O problema é que muitas pessoas moram longe ou precisam trabalhar no dia do curso. Isso mostra a necessidade de mais iniciativas como essa. É muita gente precisando.

Por qual motivo acha que o curso é importante na vida dessas pessoas?

Peniche: Porque todo mundo tem sonhos, mas nem todo mundo tem oportunidade. Eu tive o privilégio de aprender inglês, mas eu sou a exceção, não sou a regra. Menos de 3% dos brasileiros falam inglês, e essa porcentagem cai quando falamos sobre pessoas trans, uma vez que 82% dos transexuais não consegue sequer completar o ensino médio. As alunas e alunos do Es(trans)geiros estão pela primeira vez na vida tendo a oportunidade de estudar inglês. Com certeza, isso será decisivo para elas e eles, porque muitos ali tem sonhos de trabalhar fora, fazer intercâmbio, ou só se comunicar mesmo, e agora finalmente eles têm os meios necessários para poder seguir os seus sonhos. O inglês vai melhorar o currículo deles e, assim, eles vão ter mais chances no mercado de trabalho. Sem o Es(trans)geiros, eles não estariam estudando agora, e talvez nunca conseguissem. Porque estamos falando de pessoas que têm dificuldade até para ter o dinheiro da passagem. E que droga, né? Que droga pensar que a gente vive numa sociedade onde nem todo mundo consegue estudar.

Qual o perfil das pessoas que procuram o curso? São pessoas que estão desempregadas?

Peniche: Temos algumas pessoas mais velhas, mas a maioria são jovens adultos. É misturado. Tem desempregados e empregados. Mas são pessoas baixa renda.

Pretende continuar com os cursos?

Peniche: Pretendo sim. Pretendo criar o meu próprio curso de inglês, do básico ao avançado. E gratuito.

Como alguém que quer ajudar consegue fazer parte do projeto?

Peniche: Aceitamos doação de material didático, livros de exercício e carga de caneta. Se alguém pudesse doar um quadro branco grande seria muito legal. Temos uma vaquinha, aliás. Além disso, estou procurando professores trans para integrar o nosso time.

Me conte um pouco sobre a sua história.

Peniche: Me formo em jornalismo esse ano. No ano passado, estagiei nas Nações Unidas. Esse estágio me deu uma visão de mundo e dos meus privilégios que antes eu não tinha. No estágio, pude entrevistar outros jovens que também faziam a diferença em suas comunidades, e eles me inspiraram diretamente a fazer algo pela minha comunidade. Então, da mesma forma que eu fui inspirado, eu quero motivar outras pessoas a lutar por um mundo melhor.

Qual a reação das pessoas ao saber do seu trabalho?

Peniche: Já recebi muitas mensagens de pessoas falando que sempre quiseram fazer algo parecido, mas não tinham coragem, e que depois que souberam do Es(trans)geiros se sentiram motivadas a também começar um projeto social. Na semana passada mesmo, uma professora, em Campinas, disse que deu início ao seu projeto social. Isso tudo me dá muita esperança. A educação é a única forma de se construir uma sociedade melhor.

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