Jovem pode perder o olho após ser atingido por bala de borracha da PM

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Em Pernambuco, ato ‘Fora Bolsonaro’ sofreu forte repressão policial e deixou feridos, além de detidos; governo do Estado diz que não autorizou operação
Em Pernambuco, ato ‘Fora Bolsonaro’ sofreu forte repressão policial e deixou feridos, além de detidos; governo do Estado diz que não autorizou operação, mas movimentos cobram responsabilização

Texto: Victor Lacerda e Lenne Ferreira | Foto: Reprodução internet

No último sábado (29), ocorreram atos contra o governo Bolsonaro em todo país. No Recife, os movimentos sociais apresentaram uma manifestação com obedecendo distanciamento, no entanto, sofreu forte repressão da Polícia Militar de Pernambuco (PMPE). A ação violenta feriu pessoas que sequer participavam do ato, a exemplo do jovem Jonas Correia de França, de 29 anos, que foi atingido no olho direito por uma bala de borracha disparada pela por policiais do Batalhão de Choque. Ele corre o risco de perder a visão.

Jonas, que é morador do bairro Santo Amaro, na região central do Recife, está internado no Hospital da Restauração, região central da capital pernambucana. Assim como Daniel Campelo, outra vítima da operação que também foi baleado e perdeu a visão, ele não estava na manifestação. Pai de dois filhos, de 9 anos e outro de 1 ano e seis meses, Jonas estava voltando de um trabalho de “bico” quando foi surpreendido pela ação policial.

“Meu esposo estava em contato comigo momentos antes do que aconteceu, me avisando que iria demorar para voltar para casa por conta da manifestação. Sem ter tido nenhum atendimento de socorro, tive que me deslocar da minha casa com meu cunhado quando soube o que tinha acontecido. Mesmo afirmando que era trabalhador e que não estava envolvido com a manifestação, foi atingido igualmente. Isso precisa acabar”, conta e repudia a esposa, Daniella Barreto, dona de casa, de 28 anos.

Segundo ela, Jonas estava voltando do Mercado São José, onde prestava serviço como autônomo, quando foi atingido pelo disparo da polícia. Mesmo acatando a determinação da polícia, que pediu que ele se afastasse, Jonas foi alvejado ao fazer a travessia na ponte Princesa Isabel.

Ainda de acordo com a esposa, a ação mexeu com o psicológico de toda a família que se sentiu desamparada pela gestão estadual durante o ocorrido. “Dinheiro de passagem, medicação, pomada ou colírio, tudo está sendo custeado por nós, que estamos desempregados. Meu marido perdeu a visão e espera por uma cirurgia para tentar se recuperar, mas continua diante de uma situação injusta. Não é porque nós somos pretos, pobres e de favela que temos que ser tratados desse jeito. Pelo que parece, o plano é nos verem mal ou nos matar. Isso foi um ato de covardia”, relata.

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Em conversa com a Alma Preta Jornalismo, a dona de casa afirmou que na tarde desta segunda-feira, Jonas encontra-se na Fundação Altino Ventura, no bairro da Iputinga, na Zona Norte do Recife, onde passa por uma série de exames para averiguar a situação atual do olho direito. De acordo com os familiares, os médicos responsáveis pelo atendimento no Hospital da Restauração aguardam uma melhora no inchaço causado pela lesão para tentarem uma cirurgia de recuperação.

A assessoria da vereadora Dani Portela (PSOL-PE), que está na assistência da família das duas vítimas, a gestora está pedindo solidariedade a todos que puderem contribuir com os custos que a família terá durante a recuperação dos atingidos. Os dados bancários das familiares responsáveis por cada vítima estão disponíveis através do link.

"Não só colocaram a vida de muitas pessoas em risco, como, indiretamente, promoveram aglomerações quando tentaram dispersar. Foi brutal e triste”, relata Maristella Lourenço

Prisões

Além de feridos na ação, a Polícia Militar de Pernambuco também efetuou duas prisões durante ato contra o governo Bolsonaro. Os únicos detidos foram manifestantes negros: o cantor Afroito e a percussionista e arte-educadora Maristella Lourenço, 23 anos. Os dois foram levados para a Central de Flagrantes da Capital, onde receberam o apoio de outros ativistas e dos mandatos das Juntas e Dani Portela, ambos do PSOL, que também participavam da manifestação e presenciaram todo o ocorrido.

Em publicação feita no último domingo via rede social, a percussionista afirmou que não houve justificativa da resposta dos policiais diante da manifestação. “Durante o percurso não houve nenhum tipo de confronto ou tumulto para que houvesse a necessidade de intervir daquela forma. Havia pessoas de várias faixas etárias, apenas lutando por direitos básicos”, pontuou.

Em conversa com a Alma Preta Jornalismo, a artista avalia como desesperador e desnecessário tudo o que aconteceu, em momento algum as pessoas estavam armadas. Só estavam presentes em um ato constitucional. Não éramos para estarmos na rua, com renda, refeição, saúde e vacinados. Não só colocaram a vida de muitas pessoas em risco, como, indiretamente, promoveram aglomerações quando tentaram dispersar. Foi brutal e triste”, relata.

“Estou cansada de notas de repúdio e de responderem com indenizações, como se o dinheiro trouxesse de volta a saúde psicológica da gente. Espero que o sistema militar e os órgãos que sejam responsáveis pelas polícias possam ser mais conscientes com a condução de suas ações e de saberem afastar essas pessoas violentas das ruas. Todos os dias acontecem atrocidades envolvendo a PM. Isso precisa mudar. Estamos desconfiados com quem esperávamos ser sinônimo de segurança”, complementa.

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Ativista e morador da comunidade de Peixinhos, Afroito foi arrastado diante de câmeras e sobre os gritos dos manifestantes. “Da minha parte, foi uma movimentação simples. Passei ao lado da barreira policial para comprar uma carteira de cigarro, por achar que demoraria no ato. A todo momento interpretei a presença dos policiais como uma proteção para, caso manifestantes pró-bolsonaro, se fizessem presente e, por algum motivo, isso gerasse atrito entre manifestantes, mas fui surpreendido. Ao todo, cinco policiais pularam em mim e me prenderam. Fui arrastado, tive meus joelhos lesionados e me colocaram em uma viatura com resquícios de sangue”, relata. Ele foi liberado após pagar fiança de R$350.

Afroito e Maristela vão responder pelos crimes de desacato, desobediência e quebra de isolamento social e estão aguardando a movimentação para possivelmente responderem em audiência de custódia. Os dois garantem que um termo circunstanciado de ocorrência (TCO) não foi feito. Como mostram registros feitos por manifestantes, muitas pessoas ficaram feridas. As comissões de Advocacia Popular e Direitos Humanos da OAB - PE solicitam que todos que tiverem gravado fotos e vídeos que demonstram excesso de PMPE enviem para o email comissaoadvpopular@gmail.com. Os detidos receberam apoio jurídico dos mandados das Juntas e Dani Portela.

Repercussão

Diversas entidades emitiram notas de repúdio contra a ação da Polícia Militar de Pernambuco e cobram investigação e posicionamento do Governo do Estado. Ao longo da tarde do sábado (29), a repercussão da ação truculenta da polícia motivou posicionamentos da vice-governadora de Pernambuco, Luciana Santos (PCdoB), e do governador do Estado, Paulo Câmara (PSB). Ambos usaram as redes sociais para se pronunciar e demonstraram repúdio à ação da Polícia Militar de Pernambuco.

Segundo informações repassadas pelo Governo de Pernambuco, a Corregedoria da Secretaria de Defesa Social instaurou procedimento para investigar os fatos. O oficial comandante da operação, além dos envolvidos nas ações truculentas, permanecerão afastados de suas funções enquanto durar a investigação. Paulo Câmara ainda afirma que os dois homens feridos durante o ato do último sábado serão indenizados.

Movimentos sociais seguem pressionando o governo do Estado para que os responsáveis não sejam apenas afastados dos cargos, mas punidos criminalmente.