Jovem que fingia ter câncer levantou ao menos R$ 20 mil de amigos e invadia ala de hospital para fotografar falsa quimioterapia: veja o que a polícia sabe

"Meu nome é Camilla. Tenho 27 anos e estou lutando contra o câncer de mama. Hoje, estou travando essa batalha constante. São dias e dias. Em alguns dias, estou ótima, feliz, com a autoestima lá em cima. Em outros, estou com muito medo e uma insegurança enorme. Afinal, sou mãe de dois príncipes lindos: um de 11 e um de 7 anos. Hoje, eu vejo a vida com muito mais amor e alegria: o quão forte nós somos. Eu me sinto curada". O relato aparentemente emocionado, publicado ano passado nas redes sociais como uma mensagem de apoio ao Outubro Rosa, é de Camilla Maria Barbosa dos Santos, moradora da cidade de Morrinhos (GO). De acordo com inquérito concluído pela Polícia Civil de Goiás esta semana, tudo não passava de uma farsa criada pela jovem para angariar dinheiro, inclusive com amigos, em prol do tratamento de uma doença que ela não tinha. Ela foi indiciada por estelionato.

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Camilla, segundo a polícia, mentia ter câncer de mama, com metástase no pulmão e intestino. Chegou a raspar a cabeça e compartilhar o momento nas redes sociais. Os investigadores estimam que, levando em consideração apenas as denúncias que chegaram à delegacia, ela tenha conseguido receber pelo menos R$ 20 mil com o golpe. Mas a quantia tende a ser maior, já que pequenos doadores acabam não prestando queixa.

– Provavelmente não vamos conseguir apurar os valores de maneira exata, uma vez que a maioria dessas doações foram feitas via campanha. Já conseguimos identificar ao menos cinco campanhas e rifas, e esses valores eram transferidos direto para a conta da autora – conta à reportagem o delegado Fernando Gontijo, titular da delegacia de Morrinhos. – Com isso, essas vítimas não querem e provavelmente não vão fazer o registro das ocorrências, apenas aquelas que talvez possam ter tido um envolvimento maior ou que fizeram doações maiores. Mas temos, até agora, aproximadamente R$ 20 mil reais que foram doados a ela, passados a título de caridade, para ajudá-la no falso tratamento.

A polícia afirma que várias vítimas da suposta golpista compareceram na delegacia e relataram que doaram dinheiro para que ela conseguisse comprar remédios e realizar exames, mas que, em algum momento, começaram a desconfiar da veracidade da doença.

Expulsa de hospital

Em seu interrogatório, Camilla afirmou que seu câncer apareceu no início de 2022, ocasião em que disse que havia ido ao hospital por ter contraído dengue. Ela disse à polícia que, em julho do ano passado, iniciou o tratamento da doença no Hospital Araújo Jorge, local onde realizou sete sessões de quimioterapia, mas que, por volta de outubro, a unidade havia perdido seu prontuário médico e encerrado o tratamento. A versão não convenceu os investigadores.

Em documento encaminhado pelo Hospital Araújo Jorge à delegacia, foi informado que Camilla Barbosa não é e nunca foi paciente naquele hospital. E, além disso, a direção da unidade contou aos policiais que a jovem ia constantemente ao setor de quimioterapia, sem autorização e utilizando-se de um cartão de identificação interno de terceiros, onde tirava várias fotos. Por isso, ela teria passado a ser expulsa do local.

– A investigação se baseia no fato de que ela afirma que todo o tratamento foi feito no Hospital Araújo Jorge. Então, seria o único local onde teríamos que procurar um exame. Na unidade, não existe nenhum registro, nenhum histórico dela lá. O próprio hospital, então, relatou várias situações em que ela foi flagrada dentro da instituição, agindo com condutas irregulares, em locais onde não poderia estar e produzindo imagens – conta o delegado. – Interrogada, ela disse que não foi a nenhum outro hospital. Então, se ela fez algum exame que comprove que tem câncer, não conseguimos identificar, ela também não nos apresentou nenhum. Caso a justiça entenda a necessidade de algum exame, isso poderá ser solicitado.

Família distante

Chama atenção, também, o fato de Camilla ter conseguido enganar tanta gente fingindo ter uma doença tão grave sem que a família tivesse ciência disso. Gontinjo afirma que a jovem, de 27 anos, havia perdido os pais e que não mantinha muito contato com parentes, que também eram enganados.

– Os pais dela faleceram e nós não conseguimos contato com familiares diretos dela. Conforme ela mesma diz, quem a acompanhava nas "consultas" era a ex-sogra. Temos notícias de que os familiares desconfiavam dessa doença dela, mas nunca tiveram nenhuma prova de que ela estaria mentindo, uma vez que ela deixava as pessoas de fora das situações, não deixava que acompanhassem em consultas, em sessões de quimioterapia. Ex-namorados dela também já chegaram a procurá-la e o próprio hospital dizia que ela não estava naquele local. Então, ela sempre tentou manter todos de fora dessa situação, e mostrava apenas as imagens que fazia – afirma o delegado.

Em busca e apreensão realizada na residência de Camilla, vários documentos e exames foram apreendidos, mas, segundo as investigações, em nenhum deles é possível constatar que Camilla tenha câncer. Em depoimento, ela confessou não possuir qualquer exame ou laudo médico que confirme o diagnóstico.