Jovem que teria sido estuprada por pai de santo procurou o terreiro para tentar contato espiritual com a avó

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Quando X., uma jovem formada em Direito, hoje com 25 anos, procurou em 2019 o Centro Espírita Ilê Adora Oboluae Ajubero, em Senador Vasconcelos, na Zona Oeste do Rio, ela queria conectar-se espiritualmente com sua avó, que a criou junto com sua mãe e morrera um ano antes. No local, indicado por uma amiga, ela foi recebida pelo pai de santo Mário Luiz da Silva, conhecido como Pai Mário, de 53 anos. Rapidamente, o religioso teria se encantado com a moça.

Oriunda de uma igreja evangélica, a jovem bonita, de cabelos longos e tonalizados, teria passado a receber investidas do homem que, meses depois, ela conta tê-la acariciado a força e tentado sexo sem consentimento – após uma festa religiosa. Com medo, X. decidiu que nunca mais voltaria ao barracão. Assim como ela, outras mulheres deixaram de frequentar o templo religioso. Elas acusam o líder espiritual de estupro e estupro de vulnerável. Após criarem forças, decidiriam denunciar o pai de santo à polícia. Desde o último domingo, Mário Luiz está preso temporariamente, suspeito de abusar sexualmente de pelo menos cinco mulheres, uma delas menor de idade, a pretexto de promover uma “limpeza espiritual” nas vítimas.

Na tarde desta quinta-feira, dia 27, X. contou ao EXTRA/GLOBO que o sonho de estar perto da avó já morta, mesmo de forma espiritual, se tornou um pesadelo.

— Eu queria ter, de alguma forma, uma ligação com a minha avó. Por mais de um ano, fiquei tentando achar uma religião que me ajudasse. Foi quando, em fevereiro de 2020, antes da pandemia, eu fui ao centro pela primeira vez e conheci o Pai Mário. Após a primeira consulta, ele falou sobre a minha avó e eu fiquei apaixonada pela religião (a Umbanda) — lembra a jovem.

Ela conta ainda que, por conta de sua família não aceitar a sua nova religião, ela ficou ainda mais próxima das pessoas que frequentavam o espaço religioso:

— Ele foi se tornando mais do que um pai espiritual, já que a minha família não aceitava a Umbanda. Eu me abria muito com ele. (O Pai Mário) se aproveitou da situação, dos momentos em que eu estava vulnerável emocionalmente e psicologicamente, para conquistar a minha confiança.

A advogada conta que, a partir daí, foi muito rápido para que Pai Mário começasse a mandar mensagens convidando-a para encontros reservados. X. diz que estranhou as investidas do homem e que todas foram recusadas:

— Começou por mensagem. Ele mandou muitas elogiando o meu cabelo. Falava que gostava de um tipo de corte, perguntava se eu iria ao centro naquele dia e dizia: “O Pai tá aqui sozinho, vem. Fica aqui para você aprender”. Ele sempre falava que iria me ensinar e sempre insistia para conversar sozinho. Eu comecei a achar aquilo muito excessivo. Além disso, ele sempre ficava na sala de banhos, feitos pelas mães de santo, com a desculpa de o espírito estar mandando.

X. se recorda que o pior dia dela no espaço sagrado foi quando em julho de 2020. Naquela ocasião tinha acontecido uma festa religiosa, ela bebeu e quase foi abusada sexualmente por Mário Luiz.

— Naquele dia, eu bebi e acabei caindo. Durante todo o tempo, ele estava se passando pela entidade. Mas eu percebi que ele estava fingindo. Ele insistia em me dar banho e eu falei que não iria tomar banho. Após isso, eu saí e fui para outro local. Minutos depois, ele mandou me chamarem para uma sala. Por respeito a sua autoridade, obedeci e fui. Era uma sala e ele, se passando pelo santo, começou a falar várias coisas e começou a me acariciar. Ele tentou me agarrar e foi alisando até chegar as minhas nádegas. Eu tentei me afastar e ele me pressionou, tentando forçar alguma coisa. Num primeiro momento, eu não entendi, mas logo caiu a ficha. Saí correndo e falei com o meu companheiro que nunca mais voltaria ali.

O relato de X. foi feito a Davi dos Santos Rodrigues, delegado-adjunto da 35ª DP (Campo Grande). Assim como ela, outras quatro pessoas relataram o que passaram entre as quatro paredes do templo religioso. Uma das vítimas teria sido estuprada por cerca de dois anos em decorrência de sua orientação sexual. Ela é lésbica. Durante esse tempo, a menina diz que foi ameaçada a não contar o que acontecia. Caso ela relatasse os abusos, sofreria sanções, assim como sua mãe.

Na delegacia, as mulheres, que têm entre 18 e 40 anos, disseram que Pai Mario se utilizava das festas e dos banhos de piscina para abusar das frequentadoras do centro. A alegação do religioso era que a entidade estaria mandando que ele realizasse uma limpeza nas vítimas, e que os espíritos não viam os toques que realizava como sendo de cunho sexual. Assim, ele estaria habilitado a realizar o procedimento. Em nenhum desses momentos o acusado estaria aparentemente incorporado por alguma entidade.

Nos depoimentos, as mulheres relataram ainda ameaças e intimidações por parte do pai de santo. Ele falava que, caso dissessem para alguém sobre o que ocorria no local, ele faria uma feitiçaria contra elas. Mário também é suspeito de registrar alguns dos abusos em fotos e vídeos. Na quarta-feira, dois telefones celulares foram apreendidos e passarão por perícia.

O pedido de prisão temporária de 30 dias do pai de santo foi deferido pela juíza Isabel Teresa Pinto Coelho Diniz, no Plantão Judiciário, no último domingo. Na decisão, a magistrada afirmou que a segregação cautelar dele é imprescindível para a conclusão da investigação, no sentido da adoção de meios probatórios à elucidação correta do fato. Ela alega que, solto, o religioso poderá “criar obstáculos” ao andamento do inquérito, com possível coação de testemunhas ou simplesmente fugindo.

Algumas vítimas do suspeito se reuniram em um grupo de WhatsApp para relatarem entre elas os abusos sofridos.

As mulheres, acompanhadas pelo advogado Jeanderson Kozlonsky dos Santos, do Instituto Nacional de Combate à Violência Familiar, procuraram a delegacia durante o Maio Laranja, quando é realizada a campanha do Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes.

Jeanderson conta que muitas das vítimas são de Campo Grande, na Zona Oeste do Rio, e de São João de Meriti, na Baixada.

— O nosso intuito, na divulgação desse caso, é abrir holofotes para que outras pessoas nos procurem e denunciem. Todas elas terão assistência psicológica e jurídica de graça. Já temos um caso de uma menina, hoje com 18 anos, que foi abusada por esse religioso desde os 7 anos — relata o advogado.