Jovens do Afeganistão reencontram tio no Brasil após fuga, noites na rua e longa espera

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - As fotos no Instagram mostram jovens relaxados, passeando em Copacabana ou na frente do Maracanã. As vidas de Omar, 24, Akbar, 23, Shadaab, 20, e Shahzad, 18, mudaram completamente na última semana.

Até chegarem ao Rio, os quatro jovens afegãos enfrentaram uma dura jornada ao longo de cinco meses, que incluiu percorrer mais de 4.000 quilômetros de Cabul até a Turquia, passando pelo Irã, escapar dos tiros da polícia turca de fronteira e dormir nas ruas em Ancara enquanto esperavam o visto brasileiro.

Eles são primos --Omar e Akbar são irmãos, assim como Shadaab e Shahzad-- e vieram encontrar um tio que vive no Brasil. Ahmad Amiri chegou ao país como refugiado há sete anos e é casado há quatro com uma brasileira, a engenheira química Magda Martins, 46.

Os garotos saíram de casa em maio deste ano, três meses antes de o Talibã retomar o poder, quando perceberam que o grupo extremista estava ganhando território. Não contaram para ninguém: os familiares só souberam quando eles já estavam na estrada.

Passaram dias andando, até que chegaram à Turquia. Atravessaram irregularmente a fronteira, foram descobertos pela polícia, mas conseguiram escapar dos tiros e da prisão. Conseguiram emprego e um lugar para morar de aluguel, com o plano de se estabelecerem e levarem a família para lá no futuro.

Mas em agosto, com a piora da crise política no Afeganistão, o governo turco apertou o cerco contra imigrantes dessa nacionalidade, e a população local ficou com medo de represálias. Omar, Akbar, Shadaab e Shahzad foram demitidos e despejados do apartamento onde viviam.

"Deu tudo errado", conta a tia, Magda. "Eles tiveram dias bastante difíceis. Dormiam em um parque a céu aberto, iam até a mesquita para orar e faziam a higiene lá, mas não deixavam eles permanecerem, tinham que voltar para o parque. No final, estavam passando frio."

Enquanto isso, Magda e Ahmad tentavam um jeito de ajudar. Em meados de agosto, o governo brasileiro anunciou que estudava a concessão de um visto humanitário para afegãos, mas a regulamentação do documento só saiu no começo de setembro. "Ficamos acompanhando de longe, esperando a portaria do visto ser publicada. Quando saiu, achamos que a situação ruim deles ia acabar rapidinho, mas o visto só saiu na semana passada", conta Magda. "A embaixada começou a colocar dificuldades, pedindo uma série de requisitos que não estavam na portaria, o que tornou o visto praticamente inviável."

No fim de setembro, embaixadas habilitadas a emitir os vistos humanitários para afegãos começaram a exigir dos solicitantes que alguma empresa ou organização se comprometesse a bancar para eles uma longa lista de requisitos, incluindo plano de saúde e odontológico, renda mensal, hospedagem, alimentação, transporte, teste de Covid-19 e custos para revalidação de diplomas.

Questionado pelo jornal Folha de S.Paulo na época, o Itamaraty disse que as orientações não são obrigatórias e valem apenas para casos em que o pedido de visto se dê por meio de instituições privadas ou ONGs e envolva grupos numerosos de pessoas a serem acolhidas.

No último dia 13, a Defensoria Pública da União (DPU) enviou um pedido de explicações ao Itamaraty sobre a situação do visto dos sobrinhos de Magda, ressaltando que eles estavam em situação de rua e com medo de serem detidos devido ao status migratório irregular. Na semana seguinte, o visto saiu.

A brasileira afirma que essa foi a primeira viagem de avião dos sobrinhos. A chegada ocorreu na última segunda-feira (25), e o reencontro emocionado foi registrado em fotos e vídeos.

Magda diz que, depois de resolvida a documentação, eles vão procurar emprego e aprender português. "Fico preocupada porque virão novos desafios. Viver no Brasil não é fácil. Mas a sensação que me passam é que estão maravilhados, com expectativa de vida nova. Com aquela sensação de 'a gente vai ser feliz'."

A família também está preocupada com os parentes que seguem no Afeganistão. Dois deles já foram sequestrados pelo Talibã e não apareceram mais. Mas o reencontro com os sobrinhos renovou as forças de Ahmad, diz Magda. "Muita gente nos ajudou, as pessoas estão enviando doações, já que eles só chegaram com as roupas do corpo. A vinda desses meninos foi um banho de esperança para nós."

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