Jovens e famílias buscam almoço a R$ 1 para manter alimentação na pandemia

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***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 06.01.2021 - Fila no restaurante Bom Prato em Santana, zona norte de São Paulo. (Foto: Karime Xavier/Folhapress)
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 06.01.2021 - Fila no restaurante Bom Prato em Santana, zona norte de São Paulo. (Foto: Karime Xavier/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Desde o início da pandemia de Covid, houve uma mudança no perfil de quem procura os restaurantes do Bom Prato, que oferece refeições a até R$ 1 em São Paulo. Se antes a maioria do público era formada por idosos, pessoas em situação de rua ou vulnerabilidade social, hoje se soma a esse grupo quem ficou desempregado e sem renda.

É o caso de Jaqueline Lopes, 32, que era atendente de restaurante e perdeu o emprego no final de 2019. Moradora do Jardim Santo André, na zona leste, ela diz que "mandou muito currículo, mas ninguém chama." Seu marido trabalhava em uma vidraçaria, mas foi demitido. "A crise está feia. Almoço aqui com cartão [gratuidade], e meu esposo, no albergue."

"Continuamos servindo o mesmo número de refeições no almoço, total de 1.600, mas quem procura não são mais os comerciários da região, idosos ou pessoas em situação de rua. Começamos a perceber um crescimento de jovens e de desempregados, afirma o gerente do Bom Prato São Mateus, José Airton Rodrigues.

Desempregado, o operador de máquinas, Ronaldo Sikine, 33, afirma não ter como pagar uma refeição em um restaurante padrão. "Não vinha muito no Bom Prato. Há mais ou menos um mês, utilizo o cartão [gratuidade] aqui para fazer as refeições."

Enéas Rodrigues de Oliveira, gerente do Bom Prato da Lapa, na zona oeste, relata que mais autônomos, como pedreiros, pintores, diaristas começaram a frequentar a unidade desde o ano passado. "Esses profissionais não puderam entrar nas casas que prestam serviços por causa do risco da contaminação. Além de quem trabalhava por conta própria e não pôde mais atuar ou o pequeno negócio quebrou."

Em abril do ano passado, por questões sanitárias, o programa passou a entregar marmitas aos usuários no almoço e a servir o jantar, que foi implantado, nos mesmos moldes.

Em setembro, o atendimento presencial no café e no almoço foi retomado. Contudo, as unidades continuarão servindo marmitex no jantar até março. "Na unidade São Mateus são distribuídas todos os dias 300 marmitex para o jantar", diz Rodrigues.

Para muitos que frequentam o local, retirar o marmitex e dividir com toda a família foi a alternativa para manter a alimentação nesse período.

Os responsáveis pelas unidades afirmam que até idosos se arriscavam no auge dos casos de Covid-19 para pegar a marmita, pois não conseguiam se manter com o valor da aposentadoria. Relatam também que famílias que não puderam mais pagar aluguel e passaram a morar na rua também fazem parte desse novo perfil. Outras têm dificuldades de acessar benefícios sociais.

"Percebemos que, em vez de uma refeição, levavam 2 ou 3, normalmente para uma criança ou um idoso que ficou em casa ou que tem alguma dificuldade de locomoção. Pela demanda seria necessário pelo menos mais um restaurante nessa região", afirma Rodrigues.

Julvanilda da Cruz Ferreira, 62, afirma que apenas a aposentadoria de um salário mínimo tem sido insuficiente para garantir as suas despesas básicas e as da família do filho. "Ele e a minha nora ficaram desempregados, com três crianças. Agora que o meu filho está voltando a trabalhar, mas eu levava almoço e janta daqui para casa todos os dias. Ainda levo o marmitex à noite para dividirmos", diz a moradora da Vila Flávia, na zona leste.

"A gente passa sem, mas as crianças pedem e nunca temos. Eles falam para irmos à feira comprar banana, laranja, uva e maça. Não tem como. Está tudo muito caro", relata Julvanilda. "A última vez que comi carne fora daqui foi quando recebi a aposentadoria no mês passado. Comprei uma costela porque estava com muita vontade."

Dos 59 restaurantes da rede, 6 atenderão até o dia 31 de dezembro também aos finais de semana: Brás, Campos Elísios, Lapa, São Mateus, Guaianases e Santana; a unidade 25 de Março só não funciona aos sábados. Funcionam de segunda a sábado: Campinas, São José dos Campos, Santos I, Taubaté, Rio Claro, Bauru, Carapicuíba e Franca.

Com a inclusão do jantar, segundo dados da Secretaria de Desenvolvimento Social, o Bom Prato passou a servir 1,2 milhão de refeições a mais por mês.

"O almoço ou o jantar custa R$ 1 para o usuário. Cada refeição tem 1.200 calorias e é composta por arroz, feijão, salada, legumes, uma proteína e sobremesa (geralmente uma fruta da época), que ajudará na segurança alimentar daquela pessoa ou da família", afirma Maísa Zangarelli, nutricionista do Bom Prato do Brás.

A venezuelana Lismar Gonzalez, 26, está no Brasil há um ano. Ela conta que foi encaminhada de Roraima com a família para São Paulo para que a filha, 6, fizesse um tratamento de displasia. Há 15 dias, eles moram em São Mateus (zona leste) e almoçam no Bom Prato do bairro todos os dias. "Não teríamos como pagar R$ 15, por exemplo, em outro restaurante."

Segundo o gerente do Bom Prato São Mateus, José Airton Rodrigues, são atendidas diariamente na unidade a média 25 crianças de até seis anos e cem usuários com o cartão de gratuidade.

O auxiliar de serviços gerais Antonio Carlos Sobrinho, 52, faz o trajeto de Cidade Tiradentes a São Mateus de ônibus duas vezes por dia para almoçar e, depois, garantir o jantar. Ele conta que está afastado do trabalho por motivos de saúde e não recebe o benefício do INSS há quatro meses.

"A situação financeira está muito difícil. Não dá para comprar quase nada no mercado. Quando começaram a servir marmitex, consegui levar também para os meus tios e minha prima, que tem três filhos e está desempregada."

CUSTO

Segundo dados da Secretaria de Desenvolvimento Social, os restaurantes do Bom Prato servem mais de 114 mil refeições por dia. O subsídio governamental é de R$ 5,10 para adultos e de R$ 6,10 para crianças com até 6 anos, que têm a refeição gratuita. "A pessoa paga R$ 0,50 pelo café da manhã e R$ 1 pelo almoço ou pelo jantar", explica o gerente de São Mateus, José Airton.

Há refeições subsidiadas integralmente pelo governo desde junho de 2020. A pessoa recebe um cartão com direito às refeições. Crianças em situação de vulnerabilidade social também têm acesso ao cartão.

O cadastramento para cartões de gratuidade é realizado pelas prefeituras. Até o momento, de acordo com a pasta, houve a disponibilização de 24.688 cartões aos municípios, sendo que 16.533 constam ativos atualmente no programa.

Cardápios especiais de Natal e Ano-Novo Nas unidades do Bom Prato serão servidos cardápios especiais de final de ano. Por exemplo, na unidade São Mateus, será servido no almoço arroz colorido, feijão, frango ao molho de abacaxi, salada ipanema e pêssego no Natal. Já no Ano-Novo, o cardápio será arroz a grega, lombo ao molho de laranja, batata lisboa, salada francesa e ameixa.

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