Jovens mortos após abordagem policial na Baixada foram executados com armas diferentes

Carolina Heringer
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Os dois jovens encontrados mortos em Belford Roxo, na Baixada Fluminense, após uma abordagem policial, foram executados com armas diferentes. A informação consta em laudos feitos em três projéteis retirados dos corpos dos rapazes e aos quais o EXTRA teve acesso. Dois policiais militares - soldado Jorge Luiz Custódio e o cabo Julio Cesar Ferreira dos Santos – estão presos acusados de envolvimento nas mortes.

Exame pericial constatou que o projétil retirado durante a necropsia do corpo de Jhordan Luiz de Oliveira Natividade, de 17 anos, era de calibre .380, compatível com munição utilizada em pistolas. Já os dois projéteis retirados do corpo de Edson de Souza Arguinez, de 20 anos, eram de calibre .38, utilizado em revólveres e carabinas, conforme aponta o laudo.

Os projéteis não são compatíveis com as armas entregues pelos PMs na Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense (DHBF). Ao serem presos, os militares entregaram dois fuzis calibre 556 e duas pistolas calibre 40, ambas de propriedade da Polícia Militar.

Como revelado ontem pelo EXTRA, a DH investiga se Jhordan e Edson foram entregues a milicianos pelos policiais, que podem ter suspeitado que os amigos estariam cometendo roubos na região. Uma nova investigação foi aberta para apurar a participação de outras pessoas no crime.

Em relatório enviado pela DH à Justiça, no dia 22 de dezembro, o delegado titular da unidade, Uriel Alcântara, aponta elementos que fazem a polícia suspeitar de que os amigos foram entregues aos paramilitares. Um deles foi o fato de que a viatura dos policiais circulou por locais dominados pela milícia, e fora da área de atuação da dupla, na madrugada do crime.

Uriel aponta também que a análise das imagens de câmeras de segurança que flagraram a abordagem dos PMs aos rapazes acabou revelando que foi encontrado uma arma ou simulacro com Jhordan, objeto que nunca foi apresentado pelos PMs em nenhuma delegacia. Além disso, a tia de uma das vítimas declarou, na delegacia, que os rapazes teriam saído para praticar roubos.

O delegado frisa, no relatório, que não há como afirmar que os policiais militares tenham sido os “autores imediatos” das mortes dos amigos, ou seja, que não foram os responsáveis pelas execuções em si. No entanto, aponta que há “robustos elementos autoria e materialidade demonstrando que concorreram inequivocamente para o resultado”.

Na denúncia do Ministério Público estadual do Rio, à qual o EXTRA também teve acesso, o promotor Diogo Erthal Alves da Costa afirma que os homicídios foram cometidos por motivo torpe, “sendo a execução das vítimas ato de odiosa e abjeta limpeza social, eliminação de indivíduos indesejáveis”. Os PMs foram denunciados por dois homicídios duplamente qualificados (motivo torpe e com emprego de recurso que impossibilitou a defesa das vítimas).

“Após abordagem violenta, tendo sido arrecadada uma arma de fogo ou simulacro, os denunciados Julio Cesar e Jorge Luiz empregaram recurso que impossibilitou a defesa, pois, aproveitando-se do armamento que portavam, das algemas, da viatura e da condição de policiais militares, dominaram as vítimas, conduzindo-as, já subjugadas, para serem executadas”, escreveu o promotor na denúncia.

Diante das suspeitas da participação de outras pessoas no crime, no fim do mês passado, o promotor solicitou ao comando do 39º BPM informações do GPs de todas as viaturas da unidade na madrugada do crime. A PM, no entanto, respondeu que já não possui mais os dados em seu sistema.

Os dois policiais militares permanecem presos no Batalhão Especial Prisional da PM em Niterói, na Região Metropolitana do Rio. Jhorden e Edson sumiram na madrugada de 13 de dezembro do ano passado, após terem sido abordados por Julio Cesar e Custodio no bairro Vila Mercedes, em Belford Roxo. Os rapazes estavam em uma moto.

Câmeras de segurança flagraram o momento da abordagem. Após terem sido parados por um dos policiais, os amigos caem da motocicleta. Em seguida, sofrem algumas agressões, são algemados e colocados dentro da viatura. Uma arma foi encontrada com os rapazes.

Os jovens não foram levados pelos policiais para a delegacia. Eles foram encontrados mortos no dia seguinte por familiares, a oito quilômetros do local da abordagem. Os parentes das vítimas conseguiram as imagens de câmeras de segurança que flagraram a abordagem e foram até o 39º BPM.

O comando do batalhão encaminhou os dois PMs à DHBF. Na unidade, em depoimento, eles alegaram que liberaram os jovens cerca de 40 metros após terem colocado ambos na viatura. Os dados do GPs do carro, no entanto, derrubaram a versão dos policiais, demonstrando que eles não pararam no local indicado.

Os dados também revelam que os militares não estiveram no local onde os jovens foram encontrados mortos, mais um indicativo de que não foram os responsáveis por terem executado os rapazes.