Jovens são mais visados por fraudadores. Idosos registram os maiores prejuízos

O Globo
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RIO - De uma hora para a outra, tudo precisou mudar. As casas viraram escola, trabalho, academia e bar. Todas as socializações e relações de consumo que exercíamos no ambiente externo tiveram que ser transferidas para o digital. Além da adaptação de hábitos, o uso mais intenso da internet exigiu que os cuidados fossem redobrados para evitar fraudes virtuais.

O aposentado Robert Queen, de 70 anos, que usava o tempo livre para dar aulas de inglês em empresas, precisou se acostumar a encontrar os alunos por meio de telas e, muitas vezes, às cegas. Isso porque, segundo ele, vários preferem deixar suas câmeras desligadas, e o professor acaba tendo que interagir com quadrados pretos. Os encontros com os filhos que moram em São Paulo e nos Estados Unidos passaram a ser cada vez mais raros. Em contrapartida, as videochamadas têm acontecido com maior frequência.

Apesar de acreditar que em home office trabalhe mais e de sentir falta dos encontros pessoais, Queen acredita que se adaptou bem à nova rotina. A única coisa que ainda não se tornou comum para ele são as compras virtuais. O aposentado diz que até comprou, durante a pandemia, um micro-ondas e um mixer pela internet, mas alimentos e roupas ainda parecem produtos impossíveis de serem adquiridos à distância.

Necessidade de proteção

Logo após a estreia no varejo on-line, o aposentado teve o cartão de crédito clonado e, há dois meses, fraudadores tentaram fazer uma transferência de sua conta corrente:

— O banco percebeu que não era meu comportamento, e a gerente me ligou. Cancelaram tudo, a senha e o cartão. Não tenho a menor ideia de onde os criminosos conseguiram as minhas informações.

De acordo com o Relatório Semestral sobre Crimes Cibernéticos, da LexisNexis® Risk Solutions, quem tem menos de 25 anos e as pessoas acima dos 75 são os dois grupos mais vulneráveis. Os primeiros recebem mais ataques, enquanto o segundo grupo perde mais dinheiro.

O risco gritante em ambas as extremidades de idade enfatiza a importância de as empresas protegerem os novos clientes digitais, que poderão estar mais suscetíveis a realizar transações on-line neste ano, diz Rafael Costa Abreu, diretor de Fraude e Identidade da empresa para América Latina.

— Na maioria das vezes, pensamos nos jovens adultos como altamente experientes em tecnologia, mas muitos também tendem a ser mais relaxados em seus padrões de uso e disposição para compartilhar dados pessoais. A faixa etária acima de 75 anos enfrenta um desafio diferente, pois geralmente é considerada menos familiarizada com as tecnologias mais recentes, aumentando sua exposição a golpes e tentativas de phishing. Os fraudadores são oportunistas em busca dos alvos mais fáceis — explica.

Golpe do site falso

No meio do ano passado, a estudante de psicologia Jade Gonçalves, de 23 anos, que trabalha como recepcionista decidiu sair de casa. Para isso, precisou comprar móveis e eletrodomésticos. Encontrou uma geladeira de inox por R$ 1.700 na internet. O site prestou bom atendimento pelo WhatsApp e ainda tinha avaliações de outros consumidores satisfeitos. Isso foi suficiente para ela concluir a transação. Na hora de pagar, o boleto veio em nome de uma pessoa física. No entanto, em uma busca rápida, descobriu que o CPF era do mesmo dono do CNPJ que constava no portal e ficou tranquila. A geladeira, no entanto, nunca chegou:

— Descobri que era uma fraude dez dias depois, quando fui acompanhar o rastreamento do produto e o site não existia mais. Procurei o meu banco e a instituição geradora do boleto, mas não consegui a devolução do valor pago. Até hoje não comprei outra porque não tenho dinheiro, estou usando uma emprestada.

A agente de educação infantil Vanderlea da Silva de Aguiar, de 44 anos, também foi vítima de um golpe: a clonagem do WhatsApp, um dos ataques mais frequentes no país. Vanderlea conta que, em 2019, recebeu uma mensagem informando que havia sido sorteada para comparecer a uma festa. Só que, para participar, teria que informar o código enviado para seu celular. Sem notar que se tratava da senha que dá acesso ao WhatsApp, passou os números. Os criminosos, então, começaram a pedir dinheiro para seus contatos. Esse susto, diz ela, a preparou para enfrentar os ataques na pandemia.

— Na semana passada, recebi mensagem dizendo que eu tinha sido uma das cem selecionadas para trabalhar por meio do celular, pedindo para clicar em um link. Não cliquei e ainda bloqueei — conta a agente, que diz receber orientações do filho de 14 anos sobre cuidados.

Home office mais exposto

A preocupação em manter suas informações pessoais seguras aumentou para a professora Thais Coutinho, de 38 anos, desde que ela começou a dar aulas virtuais. Sem ter certeza da segurança do aplicativo oferecido pela escola, Thais prefere usar apps como Zoom e Google Meets. E ainda se desdobra para acompanhar os estudos on-line do filho de apenas 5 anos.

— Apesar de receber muita pressão para usar o app sugerido pela escola, não quero baixar algo suspeito no meu celular, que é o mesmo aparelho onde tenho fotos do meu filho, dados bancários e a minha vida inteira armazenada. Vários colegas baixaram o app e depois tiveram contas de e-mail invadidas. Não quis arriscar.

Christopher Budd, gerente sênior de Comunicações de Ameaças Globais da Avast, chama atenção para o fato de que os cibercriminosos se aproveitam das tendências e se alimentam de tempos desafiadores.

— Observamos cibercriminosos adaptando seus ataques, para tirar proveito da crise de várias maneiras diferentes. Devido à pandemia, mais empresas mudaram para um esquema de home office e mais companhias dependem fortemente de serviços on-line para sobreviver. Nem todas tinham uma infraestrutura de segurança forte o suficiente para fazer isso, o que expôs algumas delas, seus clientes e funcionários.

Dicas para se proteger na vida digital

Sistema de segurança no celular

Especialistas da Psafe recomendam dar preferência aos aplicativos com função “bloqueio de hackers", que alertam em tempo real caso você receba ou acesse um link malicioso por meio do WhatsApp, Facebook Messenger, navegador e SMS.

Sites confiáveis

Evite clicar em links enviados por e-mail e redes sociais . Se for possível, acesse o site pelo computador. Pela tela do celular ser menor, o internauta não consegue visualizar a URL completa e acaba não percebendo que se trata de um site falso.

Verifique o link

É possível verificar em sites de cibersegurança se um link é suspeito ou não. Você pode acessar, por exemplo, o psafe.com/dfndr-lab ou possoconfiar.com.br/. O Procon-SP também matém em seu site uma lista de sites que devem ser evitados.

Use cartões virtuais

Pelo próprio aplicativo do banco, é possível gerar cartões virtuais com número diferente do seu cartão de crédito e validade para apenas uma transação on-line. Dessa forma, se após a compra houver tentativa de uso indevido, o fraudador não terá êxito.

Sem pirataria

Só use softwares oficiais e não baixe conteúdos piratas, eles podem conter malwares e abrir a porta para invasão da máquina. Filmes e músicas baixados irregularmente também podem permitir roubo de dados e invasão do computador.

Atenção

Nunca responda a mensagens ou ligações que solicitem dados pessoais, senhas ou dados bancários. Em caso de dúvida, contate o canal oficial da empresa para checar se quem entrou em contato é de fato um representante daquela companhia.