Jovens são mortos em ação da PM em Niterói; famílias dizem que os dois eram inocentes e querem justiça

Rafael Nascimento de Souza
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Dois jovens foram mortos, no começo da tarde desta terça-feira, durante uma operação da Polícia Militar na Rua Doutor Pericles, na comunidade Santo Cristo, na Engenhoca, em Niterói, na Região Metropolitana do Rio. Entre as vítimas está um rapaz de apenas de 15 anos, e um segundo, de 19, que, segundo a família, tinha necessidades especiais e catava materiais recicláveis no momento do confronto. Parentes dos dois mortos afirmam que eles eram inocentes e cobram justiça.

Na manhã desta quarta-feira, muito abalados, parentes de Gabriel Machado Estevão, que tem deficiências psico-motoras, e do menor Jefferson Bispo da Silva Freitas, estiveram no Instituto Médico Legal (IML) do Barreto, também em Niterói, para liberarem os corpos.

— (Era pouco depois de 12h30) quando eu estava dentro de casa e notei que os policiais passaram correndo e em seguida escutei os tiros. Em seguida, ficamos sabendo que dois jovens estavam baleados. Então, eu saí para ir atrás do meu irmão e fui avisada que ele estava caído — lembra a dona de casa Jaqueline Teresa Machado, de 28 anos, irmã de Gabriel, que era conhecido na comunidade como Zulu.

Familiares do rapaz lembraram que, no momento da operação policial, as ruas do bairro estavam cheias de moradores. Como fazia todos os dias, Zulu teria saído de casa pouco depois das 6h com um carrinho de mão e percorrido a comunidade em busca de latinhas, papéis velhos e garrafas de plástico.

— Todo mundo da comunidade viu ele trabalhando. Como pode? De uma hora para outra ele foi morto — lembrou Jaqueline, que completou: — O policial matou meu irmão inocente. Ele estava catando latinha e subiu na hora errada. Aí, eles já chegaram no morro atirando. Eles mesmo falaram que, infelizmente, meu irmão chegou na hora errada.

No começo desta terça, pelo menos 30 pessoas fizeram uma manifestação na Alameda São Boaventura, no Fonseca, e cobraram justiça pela morte do rapaz.

— Ele era uma criança. Ele fazia favores para as pessoas. Ele era muito bom. Ele sempre gostava de trabalhar e falava: “quero trabalhar”. Depois, ele usava o dinheiro para comprar biscoitos e balas — lembrou a irmã de Gabriel.

Gelson da Silva Estevão, de 50 anos, que está desempregado e é pai de Gabriel, disse que pediu para que o filho ficasse em casa, mas o rapaz disse que “iria catar latinhas”:

— Eu falei: “Gabriel, não vai meu filho. Não vai”. Mas, ele acabou saindo. Ainda pedi para que ele não fizesse nada de errado. E ele disse que iria só catar a latinha dele. Quando foi umas 13h, falei para a minha filha: “O Gabriel não chegou ainda para tomar remédio”. Foi aí que ficamos sabendo que ele havia sido baleado.

Gelson criticou a postura da PM quando entra na localidade:

— Eles já entram atirando. Desse vez foi o meu filho. Mas, já foram outras pessoas e ainda outras serão mortas.

Avó de Jefferson, a aposentada Maria Luiza Coelho, de 62 anos, contou que falou com o neto pela última vez antes das 8h. O garoto foi criado pela avó paterna desde que nasceu e vivia desde criança na comunidade.

— Eu estava indo para o médico, pela manhã, e me deu uma dor no peito e ainda senti vontade de voltar. Mas, como eu estou fazendo um tratamento muito rigoroso, fui. Mas, antes, eu fui no quarto dele e disse que estava saindo. E ainda me disse: “vai com Deus, vó” — lembrou.

Pouco depois das 12h30 ela escutou tiros e chamou pelo neto.

— Voltei, fui almoçar e escutei tiros. Como eu estava na igreja, falei com o padre que eram tiros e falei: “Jefferson”. Toda vez que eles subiam, davam tiros. Em seguida, a minha cunhada me disse que ele tinha sido baleado. Pedi para me levarem lá. Mas, ele já tinham retirado ele e levado — completou Maria Luiza.

Na manhã desta quarta-feira, a aposentada precisou ser amparada quando estava no IML:

— Eu não aguento mais isso. Meu neto era tudo. Eu queria ele aqui comigo. Queria acordar, dar bom dia e pedir para ele ficar em casa. Por mais malcriado que ele fosse, ele era meu amigo. Era eu e ele só. Eu não acredito que ele tinha envolvimento. As pessoas de lá me conhecem. Algumas pessoas, assim que ele morreu, foram lá e viram que não tinha nada. Depois, encontraram cápsulas. Eles colocaram isso lá para incriminar os meninos.

Begerson Reis, presidente da associação de moradores da Comunidade do Santo Cristo, disse que “quase todos os dias temos uma visita da polícia”.

— Quando eles avistam alguém, eles atiraram. Ou, como foi o caso agora, no nosso entendimento, executaram dois jovens de graça — afirmou ele, que continuou: — Eles mataram uma criança de 15 anos e um jovem de 19, que tinha a mentalidade de uma (criança) de 7. E agora vêm com história de “revidaram a injusta agressão”. Gente, o Gabriel tinha problemas. Ele estava com um carrinho de mão batendo de porta e porta pedindo recicláveis para comprar biscoitos e Guaravita. Nenhum dos jovens tinha envolvimento (com crimes). Eles estavam em um local errado na hora errada? Não. Ali é o local onde eles moram. Passamos por ali.

Procurada, a Polícia Militar disse que abriu um Inquérito Policial Militar (IPM) para apurar o que aconteceu no local. O 12º BPM (Niterói) ficará responsável pela apuração. É o mesmo batalhão que estava na operação que culminou nas duas mortes.

Ainda de acordo com a corporação, agentes “estavam em patrulhamento pela comunidade Santo Cristo, no bairro Engenhoca, no município de Niterói, quando foram atacados por disparos de arma de fogo e ocorreu reação. Após cessar o confronto, dois indivíduos foram encontrados feridos e houve apreensão de uma pistola com 'kit rajada', uma granada, 163 trouxinhas de maconha e 196 pinos de cocaína”.

A PM não explicou com quem a arma, o explosivo e as drogas foram encontrados. Ainda segundo a assessoria de imprensa da Polícia Militar, “o Corpo de Bombeiros foi acionado para o socorro dos dois indivíduos. No local, a equipe de bombeiros designada constatou o óbito destes feridos. A perícia foi acionada”.