'Joyland': filme paquistanês que retrata caso de amor entre homem casado e uma mulher trans é censurado no país

A exibição local de um filme produzido no Paquistão retratando um caso de amor entre um homem casado e uma mulher transgênero foi banido pelo governo pela pressão de islâmicos do país após ter sido liberado pelos orgãos de controle locais. “Joyland”, que ganhou prêmios em todo o mundo, incluindo o Prêmio do Júri em Cannes, também é a candidatura do Paquistão ao Oscar do ano que vem.

Mas não pode ser visto no próprio país em que foi produzido, a menos que uma revisão dos censores, ordenada por um comitê após a intervenção do primeiro-ministro, rescinda a proibição. O filme estava previsto para estrear no Paquistão nesta sexta-feira.

— É quase como dar dois passos para trás toda vez que fazemos um pequeno progresso — disse Kami Sid, modelo transgênero e ativista, à AFP na quarta-feira. — Sinto-me triste pelo meu país, pela indústria e, acima de tudo, sinto-me triste pela comunidade transgênero.

Embora seus direitos sejam ostensivamente protegidos por lei, a maioria dos transgêneros paquistaneses é forçada a viver na periferia da sociedade, muitas vezes recorrendo à mendicância, dançando em casamentos ou trabalho sexual para sobreviver.

“Joyland” conta a história do filho mais novo de uma família patriarcal de Punjabi que se apaixona por uma ousada dançarina transgênero. O caso deles expõe a hipocrisia dos relacionamentos em uma família multigeracional lutando contra a sexualidade e o choque entre tradição e modernidade.

O filme foi liberado pelo conselho de censores do Paquistão em agosto, mas o ministério da informação o proibiu na semana passada, após objeções de grupos e indivíduos islâmicos de direita. O ministério disse que era “claramente repugnante às normas de decência e moralidade”, provocando críticas dos apoiadores do filme nas redes sociais, que especularam que os funcionários agiram sem nem mesmo ver o filme.

Em um comunicado, o diretor Saim Sadiq disse que estava “arrasado” com a decisão, acrescentando que os diretores do filme “pretendem levantar nossa voz contra esta grave injustiça”. As tentativas de reconhecer e proteger os direitos dos transgêneros paquistaneses têm recebido forte resistência dos partidos islâmicos, que dizem que são sinais de invasão dos valores ocidentais.

A proibição de “Joyland” vem logo após o grande sucesso de “The Legend of Maula Jatt”, que já se tornou o filme paquistanês de maior bilheteria mundial desde seu lançamento no mês passado e é visto por muitos como o início de um renascimento para o cinema local, há muito eclipsado pelo glamouroso Bollywood da vizinha Índia.

“Joyland” está sendo um grande sucesso na Índia, onde estreou no Festival Internacional de Cinema de Dharamshala na semana passada, com clientes fazendo fila em volta do quarteirão para comprar ingressos e exibições extras organizadas.

Os partidos islâmicos de direita vêm fazendo campanha há meses para alterar a legislação dos direitos dos transgêneros, que busca acabar com a discriminação e garantir acesso igualitário ao emprego e à educação, entre outras coisas.

— Vemos claramente esta proibição do filme como uma continuação dos ataques à comunidade transgênero — disse à AFP Shahzadi Rai, ativista pelos direitos dos transgêneros. — Este filme foi feito no Paquistão, sobre o Paquistão e depois banido pelo Paquistão. É muito perturbador para a comunidade transgênero.

O destino do filme agora está novamente nas mãos dos censores, depois que um comitê ordenado pelo primeiro-ministro Shehbaz Sharif disse a eles para revisá-lo.

— A situação continua muito incerta — disseram à AFP os criadores de “Joyland”.