Judas x Messias: como bolsonaristas tentam conter avanço de Moro

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Brazil's President Jair Bolsonaro talks with Brazil's Justice Minister Sergio Moro during a ceremony at the Planalto Palace in Brasilia, Brazil December 18, 2019. REUTERS/Adriano Machado
Jair Bolsonaro com seu então ministro da Justiça Sergio Moro. Foto: Adriano Machado/Reuters

Antes de se candidatar a presidente, era Jair Bolsonaro quem batia continência para Sergio Moro.

A cena aconteceu no aeroporto de Brasília em março de 2017. O então juiz de Curitiba estava na capital para participar de uma audiência pública na Câmara dos Deputados para debater a Operação Lava Jato.

Bolsonaro, então deputado do baixo clero, já sabia do potencial eleitoral embutido na defesa da operação – que por ironia morreria à míngua em seu governo – e mostrou ali a disposição em surfar na onda ao prestar tributo ao magistrado. Moro, na época, era provavelmente a figura mais popular do país –o que dava para perceber diante do número de pessoas que o cumprimentavam no salão. Moro respondeu friamente à piscadela do parlamentar.

Ainda assim, Bolsonaro passou a campanha tentando se associar ao magistrado e à Lava Jato. Seus inimigos haviam sido condenados pelo então juiz. Inclusive o ex-presidente Lula.

Nunca ficou muito claro quando aconteceu o convite para que Moro integrasse o governo do capitão. Há quem diga que a convocação aconteceu entre o primeiro e o segundo turno da campanha presidencial de 2018. Há quem desconfie que já havia um acordo ainda antes.

Fato é que Moro, quando convidado oficialmente, ao fim da disputa, não se constrangeu em trabalhar para o postulante beneficiado com a prisão do candidato que tirou da pista. O resto é história.

A partir dali era Moro, assim como alguns generais do primeiro escalão, quem passou a bater continência para o capitão.

O casamento terminou na reunião de 22 abril de 2020, quando Bolsonaro fritou o ex-ídolo diante dos demais ministros. Bolsonaro queria indicar um aliado para o comando da Polícia Federal. Moro bateu o pé. Derrotado, demitiu-se.

Moro deixou o governo com um trunfo para apresentar em 2022 àqueles que compraram gato por lebre ao apostar na versão combativa de Bolsonaro em 2018. Poderia dizer que perdeu o posto, mas não abriu mão dos princípios.

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A narrativa tinha até print a seu favor. Tudo registrado quando a deputada da base aliada Carla Zambelli pediu por mensagem de celular que ele reconsiderasse a demissão. Se o fizesse, ele seria indicado ao Supremo Tribunal Federal como prêmio. “Prezada, não estou à venda” é uma dessas respostas que poderiam (e podem) aparecer por aí nas camisetas de campanha.

Acontece que mais de um ano se passou desde então e, apesar da empolgação de parte dos formadores de opinião com a provável candidatura de Moro à Presidência em 2022, o ex-ministro não tem aparecido bem na foto das primeiras pesquisas.

O caminho para ganhar os votos à esquerda estão obstruídos por uma razão óbvia: quem está na disputa é o candidato que ele ajudou a tirar da pista em 2018, numa decisão hoje anulada pelas instâncias superiores.

De outro lado, os que votaram em Bolsonaro tinham tudo para migrar para Moro após quase três anos de mandato, quando pouco ou nada sobrou do mito restaurador da ordem nacional.

Não foi bem isso o que aconteceu.

Primeiro porque o núcleo-base do hoje presidente não estava assim tão preocupada com a corrupção como demonstrava estar há poucos anos. O que os atraíram eram outros predicados relacionados ao capitão, uma grande usina de produção de ódio e exposição de ressentimentos contra diversos grupos sociais. Isso além da promessa de desregulamentação embrulhada como projeto de reformas.

Com o controle da narrativa ativado enquanto Moro ia trabalhar nos EUA, o que ficou para a história não foi que Bolsonaro traiu os eleitores ao se associar ao ex-juiz e depois declarar a extinção da operação que abriu todas as comportas para o bolsonarismo. Bolsonaro tem “messias” no sobrenome e sabe usar isso a seu favor na construção da própria mitologia.

Nessa história, Moro não cabe como símbolo do combate à corrupção que saiu do governo para não ser chamuscado. Ele já estava chamuscado desde as notícias da Vaza Jato, divulgadas pelo The Intercept Brasil.

O governo Bolsonaro não acabou após a demissão do ex-juiz. O núcleo-base seguiu com o Messias. No quadro da posse, a história contada é que Moro foi quem traiu Bolsonaro. Todo Messias tem seu Judas, afinal.

É nisso o que Bolsonaro e seus apoiadores vão insistir daqui em diante. A conversa será uma espécie de vacina caso o governo naufrague, Bolsonaro não sustente a (ainda baixa) popularidade e seja vítima do pragmatismo de parte dos eleitores que prefere qualquer Judas a ver Lula eleito novamente.

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