Julia Murat sobre ‘Regra 34': 'Gosto de pensar que o filme gera questionamentos sobre só nós mesmos ou sobre a sociedade'

A cineasta Julia Murat admite, sem tom de autocomiseração, ser dona de boas ideias, mas de rascunhos não tão bons assim.

— Confio bastante que tenho ideias originais, mas elas são mal executadas num primeiro movimento. Há pessoas com rascunhos ótimos. Os meus são ruins — diz a carioca, de 43 anos. — O legal é que sou muito trabalhadora. Gosto de sentar e trabalhar.

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Foi assim com o último filme, “Regra 34”, que começou a ser elaborado em 2015 e escrito por diversas mãos (“tive quatro roteiristas, três colaboradores, três ou quatro consultores”, diz ela, sobre o texto) até entrar em circuito nacional, ontem. O esforço tem sido recompensado desde o ano passado, quando a produção começou a rodar festivais pelo mundo. Conquistou, em agosto, o Leopardo de Ouro em Locarno, na Suíça — o último brasileiro a conseguir tal feito foi “Terra em transe”, de Glauber Rocha, em 1967. E Julia foi considerada a melhor diretora de ficção na Première Brasil do Festival do Rio, em outubro.

O longa conta a história de Simone (Sol Miranda), advogada que passou num concurso para defensora pública pagando os estudos por meio de apresentações eróticas na internet. À medida que tem contato, na defensoria, com mulheres vítimas de violência, se interessa, no âmbito pessoal, por práticas sexuais sadomasoquistas.

— Gosto de pensar que o filme gera questionamentos sobre nós mesmos ou sobre a sociedade — diz a cineasta.

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A protagonista, vencedora da categoria de melhor atriz no Festival de Cinema Iberoamericano de Huelva, na Espanha, é uma mulher negra, algo que não necessariamente apareceu na ideia original de Julia. Sexualizar um corpo negro apavorava a cineasta e as pessoas envolvidas no projeto. Foi somente quando Gabriel Bortolini, diretor assistente e responsável pelo casting, se juntou à equipe que a possibilidade de escalar uma atriz não branca começou a ser realmente considerada.

— Gabriel, um homem negro, entra no processo falando: “Calma aí. É óbvio que se sexualizarmos o corpo da mulher negra vai ser horrível. Por outro lado, o problema é sexualizar o corpo de quem for.” E quando eu encontrei a Sol, me apaixonei por ela — diz Julia.

A atriz, por sua vez, acredita que a abordagem da cineasta a ajudou a amar o próprio corpo.

— Estamos numa sociedade que temos que seguir determinados parâmetros estéticos. Pude entender que posso ser amada por mim e pelos outros — afirma Sol.

Filha de sobrevivente

Julia estreou como diretora em 2004, com o curta “Ausência”. O primeiro longa de ficção, “Histórias que só existem quando lembradas”, veio em 2011 e foi selecionado para festivais em Veneza, Toronto e San Sebastián. Ao todo, recebeu 39 prêmios. De lá para cá, ainda houve “Pendular” e o doc “Operações de Garantia da Lei e da Ordem”, ambos de 2017.

Imagens e histórias estão umbilicalmente ligadas à Julia por sua mãe ser a cineasta Lucia Murat e levá-la para fazer pontas em seus filmes desde a infância. Tanto que, por dez anos, investiu em cursos para ser atriz. Na hora de se profissionalizar, porém, percebeu duas coisas.

— O que eu mais gostava era de dirigir os atores. E era especialmente ruim na atuação (risos). A partir desse momento, passei a me dedicar ao trabalho por trás das câmeras— diz ela.

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O primeiro filme da mãe de que tem memória de participar é “Que bom te ver viva”, lançado em 1989, uma narrativa que mescla cenas documentais com relatos ficcionais, inspirados pela vivência de Lucia como militante presa e torturada no período da ditadura militar. No longa, Julia aparece como filha de uma das sobreviventes.

— Quando eu era criança e adolescente, dizia: “Mãe, para de falar disso (das torturas sofridas no DOI-Codi).”. Queria protegê-la, mas ela insistia — relembra Julia, que hoje vê a situação de forma diferente. —Mas quando Jair Bolsonaro começou a crescer, entendi que ela tinha razão. Falar funcionava como dois mecanismos: um processo de cura e de fazer com que este passado não apareça de novo, algo que está acontecendo.

Os últimos anos, de ataques à democracia, traz dores psicológicas e até físicas para a família Murat:

— Eu vomitei de imediato quando o Bolsonaro falou no impeachment (e defendeu o coronel Ustra, declarado torturador). E é muito duro para minha mãe.

Hoje, Julia mora em Nova York com o marido e as duas filhas, uma de 10 e outra de 6 anos, e faz mestrado. Para ela, ainda não há política pública para quem realiza cinema de autor no país.

— Se voltar agora, vai funcionar, de verdade, daqui a dois anos — diz ela, que pretende fazer um musical autobiográfico, inspirado no texto feito para o mestrado. — Eu gosto de risco, né?