Junho de 2013 e janeiro de 2023 têm pontos de contato, diz socióloga

***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF - Manifestantes ocupam a laje do Congresso Nacional, em Brasília, durante protesto em 17 de junho de 2013; eles tentaram, mas não conseguiram entrar no prédio, onde ficam o Senado e a Câmara dos Deputados. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF - Manifestantes ocupam a laje do Congresso Nacional, em Brasília, durante protesto em 17 de junho de 2013; eles tentaram, mas não conseguiram entrar no prédio, onde ficam o Senado e a Câmara dos Deputados. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - As enormes manifestações que tomaram o país em 2013 reuniram uma gama extensa de matizes ideológicos, algo bem diferente do que se viu nas invasões no domingo (8) na Esplanada, em Brasília, claramente associadas às doutrinas da extrema direita.

As chamadas Jornadas de Junho tinham pautas difusas, do protesto contra o aumento das tarifas de transporte aos gritos contra a corrupção, passando por diversos outros temas. No caso da multidão de bolsonaristas que atacou a praça dos Três Poderes, havia um objetivo central: promover um golpe de Estado, derrubando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

São expressivas, portanto, as diferenças entre esses dois momentos históricos separados por uma década, mas é possível identificar pontos de contato, segundo Angela Alonso, professora de sociologia da USP e pesquisadora do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento).

No ano passado, Alonso e o jornalista Paulo Markun lançaram duas produções sobre aqueles protestos, a série "Junho 2013 - O Começo do Avesso" e o documentário "Ecos de Junho". Agora a socióloga está concluindo um livro sobre o mesmo tema, que deve ser publicado ainda neste ano.

"Mais do que fenômenos separados [junho de 2013 e janeiro de 2023], tenho pensado em como temos um processo de longo prazo, no qual vão aparecendo erupções", diz Alonso, que é colunista da Folha.

O processo ao qual ela se refere tem como espécie de marco inicial as reações de parte da sociedade ao primeiro governo Lula (2003-2006). Ali começaram a despontar mobilizações ainda modestas com pautas de apelo moral e religioso que, anos depois, resultaram em movimentos sociais.

Surgem, então, grupos de agenda conservadora, outros de cunho mais liberal e ainda outros de face claramente autoritária. Todos se unem no que Alonso chama de "campo patriota" por conta do uso de símbolos nacionais.

Depois dessas reações ao Lula 1, esse "campo patriota" foi se expandindo gradualmente, ganhou força em episódios como junho de 2013 e assim chegamos ao 8 de janeiro de 2023.

A socióloga identifica três semelhanças principais entre os episódios de 2013 e 2023. A primeira é "a continuidade de atores. Alguns movimentos atuais são os mesmos do período anterior a 2013. Líderes de alguns desses grupos passaram das ruas para as instituições, caso da deputada federal Carla Zambelli [fundadora do Nas Ruas], e os grupos se mantiveram ativos".

Segundo Alonso, esses movimentos são precursores no uso da internet para organizar grandes mobilizações políticas no Brasil.

Os temas são um segundo ponto de contato. A professora lembra que a atenção à moralidade pública, especialmente a bandeira anticorrupção, e à moralidade privada, ligada aos costumes, perpassa todo esse período.

Nesse caso, no entanto, ela faz um adendo: "Em 2013, o Supremo Tribunal Federal era visto como uma reserva moral da nação para esse campo patriota. Havia cartazes celebrando, sobretudo, Joaquim Barbosa [ministro de 2003 a 2014]. Para esses grupos, o STF vai passando desse lugar heroico para a posição de inimigo, o que ajuda a explicar os ataques ao Supremo no domingo".

O terceiro ponto de aproximação é a violência política. Nos primeiros grandes protestos de junho de uma década atrás, chamaram a atenção os confrontos entre os adeptos da tática black bloc e os policiais. Mais adiante, aconteceram conflitos entre grupos de manifestantes de diferentes concepções ideológicas.

Nesse mesmo recorte, contudo, a professora indica aspectos dissonantes. "Em 17 de junho de 2013, os manifestantes invadiram a cobertura do Congresso Nacional, mas houve uma negociação -com parlamentares, inclusive- e uma contenção da polícia. Tentaram entrar no prédio, mas os policiais não deixaram. Desta vez, não havia ninguém para negociar nem para segurar. É como se alguém tivesse dado a chave para eles, não precisavam nem arrombar."