Campeão da Libertadores por São Paulo e Palmeiras, Júnior vê Verdão favorito

Júnior durante cerimônia de homenagem no São Paulo. Foto: FERNANDO DANTAS/Gazeta Press

Por Felipe Portes (@portesovic)

Pode chamar de Júnior. Voluntarioso, veloz, presente no ataque e importantíssimo na recomposição. Já não se fazem mais laterais como o baiano de Santo Antônio de Jesus.

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Jenílson Ângelo de Souza fez história no futebol brasileiro e teve passagens por Vitória, Palmeiras, São Paulo, Atlético Mineiro e Goiás. Fora do Brasil, lembram dele pelos bons anos de Parma e pela prestação na campanha vitoriosa da Seleção de Luiz Felipe Scolari na Copa de 2002.

Aposentado desde 2010, deixou uma marca memorável em duas das maiores torcidas do Brasil, sem falar nos títulos. Bicampeão da Libertadores, tri brasileiro e campeão mundial com o São Paulo, da Copa do Brasil e da Mercosul com o Palmeiras, além da Copa da Itália pelo Parma e da Copa do Mundo em 2002. Um currículo invejável.

Conversamos por telefone com Júnior, que falou sobre seus momentos mais marcantes no futebol, além de dar sua opinião a respeito da trajetória do Palmeiras neste ano de 2018, na disputa da Libertadores. Confira os destaques:

O Palmeiras é um dos favoritos para a segunda fase da Libertadores?

Eu acho. Tem um elenco sensacional, realmente. Não tem outro igual no Brasil. É muito forte e que perdeu alguns jogadores como o Keno, que para mim estava sendo um dos destaques. Saiu também o Tchê Tchê, que não vinha jogando. Independente disso, o Palmeiras continua sendo muito forte e para mim, é um dos candidatos fortes para ganhar a Libertadores.

Agora o time teve a volta do Gustavo Scarpa…

Que bom que ele veio, é um jogador de qualidade enorme, foi bom ele ter voltado ao Palmeiras. É até interessante para dar uma acordada no Lucas Lima. Contra o Santos ele [Lucas Lima] jogou super bem, participou de quase todos os lances de ataque. É esse jogador que a torcida quer, mais chegada na área, gols.

Há uma pressão, por parte da torcida, de que o Palmeiras faça um bom papel e brigue por títulos, sobretudo a Libertadores. No ano passado, o time passou em branco. Agora, o futebol tem sido bom, mas oscila no Brasileiro.

Mas não dá para jogar duas competições com a mesma equipe e a mesma intensidade. Quarta, domingo, quarta, domingo. É preciso revezar. Com a sequência dos jogos, você pega um padrão de jogo com a mesma equipe, mas é por isso que oscila. O foco do Palmeiras é a Libertadores, é ganhar um Mundial, entende? O time vem bem na competição, e tenho certeza que se continuar assim, com essa pegada, essa mentalidade, pois ano passado não conseguiu, vão entrar muito forte para conseguir isso. Mas no Brasileiro, já é outra história.

Justamente por esse trabalho de dividir atenção com a Libertadores, você acha que é normal entregarem um desempenho abaixo da expectativa, contanto que os resultados venham?

Faz parte da crítica. Não dá pra esperar uma qualidade técnica alta de um jogador que está no campo quarta e domingo. Quando o físico cai, a parte técnica sente também, não tem jeito. Você pega times bem treinados, com imposição física, fica complicado. É normal priorizar uma competição tão importante quanto a Libertadores. O Brasileiro é importante, claro, mas a meu modo de ver, a Libertadores e o Mundial estão acima na prioridade.

A pressão de agora talvez seja maior do que a de 1999, até em virtude do investimento. Como você vê essa questão psicológica por sempre ganhar bem e brigar pelo título, não mais fazer uma temporada na parte de cima da tabela?

A diretoria e o patrocinador montaram um elenco muito bom no Palmeiras. É normal que a pressão seja por títulos. Esse grupo é para conquistar algo. Esses jogadores foram contratados a dedo, são ótimos, mas pelo perfil que o Palmeiras tem hoje, a pressão é esperada, já.

Você chegou em 1996 ao Palmeiras, vindo do Vitória, com a responsabilidade de substituir um jogador como o Roberto Carlos. Como foi essa recepção? Isso pesou na sua cabeça ou você levou com tranquilidade?

Levei naturalmente. Assim, cheguei para substituir um dos maiores jogadores na posição, no mundo, de Seleção Brasileira. Para mim, como desconhecido, não foi fácil. Mas o grupo era forte. Djalminha, Cafu, Rivaldo, Luizão, Müller, Cléber, Velloso, Marcos. Era um time maravilhoso. Cheguei para o lugar de um fenômeno, que era o Roberto Carlos. Não foi fácil, mas trabalhei duro, com humildade, tranquilidade, consegui jogar bem e ajudar o Palmeiras. Até hoje o pessoal tem muito carinho por mim e eu fico muito feliz por ter defendido um grande clube, substituindo um ídolo como o Roberto Carlos. Consegui títulos, isso que me credencia a entrar para a história. No título da Libertadores de 1999, eu estava lá, isso fica para sempre.

O que você guarda das decisões com o Boca Juniors na Libertadores? O Palmeiras decidiu a final em 2000 e depois encarou os argentinos na semifinal do ano seguinte. De alguma forma, o time de 2000 piorou em questão de elenco, por ter perdido medalhões? Conte alguma história daquele período.

As campanhas foram parecidas em 1999 e 2000, chegamos a uma final contra o Boca. A torcida na Bombonera é coisa de louco. Uma pressão enorme, um pessoal gritando perto de você. Jogar lá, naquela atmosfera, é complicado, torcida toda empurrando. E naquele ano, o Boca tinha um elenco maravilhoso, com jogadores como Riquelme, Palermo, Córdoba, Samuel, os irmãos Schelotto. Era sensacional. Lá na Argentina, conseguimos empatar em 2 a 2. Em casa, eles cozinharam o galo, empataram em zero a zero e levaram para os pênaltis. Aí, pênalti é loteria, né? Tiveram mais sorte naquele momento. Enfrentar o Boca lá na Bombonera ou em qualquer outro lugar é complicado.

Depois do Palmeiras, você foi para o Parma. Chegando lá, encontrou um time forte que foi campeão da Copa da Itália e fez boas campanhas da Serie A. O que você pode falar sobre o elenco?

Conseguimos um título importante. Cheguei ao Parma em 2000 e ficamos em quarto lugar. Tinha o Amoroso, na época, ele me ajudou demais em tudo, a lidar com os torcedores e os companheiros. O elenco era forte, tinha o Buffon, de 18 anos, Cannavaro, Thuram, caras espetaculares. Fiquei só um ano com o Buffon, logo em seguida ele foi para a Juventus, onde construiu uma carreira brilhante. Tinha alguns franceses, depois chegou o Adriano, que não à toa, nos levou ao quarto lugar. Jogou demais, um futebol maravilhoso, era fera, fez muitos gols. Também lembro do Matuzalém, e até o Alex, que ficou pouco tempo lá com a gente, o pessoal rescindiu o contrato com ele. A equipe era muito boa, gostava dos brasileiros, tinha muito cara daqui por lá. Nos deram um suporte maravilhoso. Em 2002, vencemos a Copa da Itália, com um gol meu na final, em cima da Juventus. Perdemos em Turim, por 2 a 1. Na volta, como o gol fora valia o dobro, em casa fiz o gol da vitória, um a zero, e foi suficiente.

O que você pode contar sobre o Buffon? O que lembra da convivência com ele?
Ele estava começando, tinha só 18 anos, era um fenômeno. Fazer o que ele fazia naquela idade…era maravilhoso. Pena que não tive maior convivência com ele. Depois do meu primeiro ano ele foi embora. Tinha uma personalidade forte, não à toa que virou ídolo da Seleção, do Juventus, do mundo. Quem não gosta do Buffon? Cara super simpático, além de ter muita qualidade. Conquistou tudo aquilo…

Como você vê essa fase do Parma depois dos anos 2000, entre falências e retornos à elite?

Desde 2004 e 2005, quando a Parmalat faliu, as coisas complicaram. Teve um escândalo e o Parma teve uma queda monstruosa. Sem dinheiro fica complicado você montar um bom time em uma liga tão competitiva quanto a Italiana. O que mais preocupa é a grana, que trouxe outros problemas, como envolvimento com apostas, manipulação de resultados. Tudo isso acarretou a fase atual. Depois vieram esses chineses que compraram o clube. Fico feliz com o retorno do Parma. É uma cidade muito bacana de se viver.

Sobre o Alex. Ele ficou pouco tempo no Parma. Você acha que ele poderia ter sido um fenômeno na Itália como foi no Brasil, se tivesse ficado por mais alguns anos?

Com certeza, pela qualidade que ele tinha. Era é um grande jogador. Depois ele virou rei na Turquia, né? Então, foi chato o que aconteceu com ele. É meu amigo, temos uma parceria longa, desde o Palmeiras, a gente se entendia muito bem em campo. Fiquei triste por ele não ter permanecido no Parma. Mas Deus sabe de todas as coisas e reservou ao Alex tudo isso que veio depois.

Aí você voltou ao Brasil, em 2004, para defender o São Paulo. Conquistou muitos títulos importantes, como a Libertadores, o Mundial, com o Autuori, e depois os Brasileiros, com o Muricy. Qual era o segredo daquele elenco? Confiança, força do grupo, ou isso vinha da cobrança do Muricy?

Ah, um pouco de tudo, né? Trabalho, exigência dos profissionais que tínhamos, até pela tradição e pela camisa do São Paulo. Trabalhávamos forte. As cobranças vinham, naturalmente. O Muricy prezava o tempo todo pela qualidade do time, e isso refletiu nos títulos. Trabalhei com o Leão, fomos campeões do Paulista, depois veio o Paulo Autuori, ganhamos a Libertadores e o Mundial, daí o Muricy, com as conquistas do Brasileiro. Eram jogadores diferentes nesses anos, mas a cobrança era igual, em virtude da camisa que vestíamos.

Essa vitória no Mundial, contra o Liverpool, foi uma das últimas de times sul-americanos contra Europeus. De tudo que a gente sabe sobre a postura dos clubes de lá, o que vocês sentiram dos ingleses quando a partida aconteceu?

Se eles tinham arrogância eu não sei, até porque todo time entra em campo para ganhar, com confiança. Isso acontece. Sabíamos que eles tinham uma defesa que levava poucos gols, um elenco bom, mas senti que eles queriam ganhar, mesmo. Enfrentaram uma outra equipe com isso na cabeça, e no decorrer do jogo, viram que não estávamos para brincadeira. Em termos de projeção, foi ótimo para nós, para a história do São Paulo. Ganhar um Mundial três vezes não é fácil. Independente da postura do Liverpool, o mais importante foi que fizemos um bom jogo.

Qual era o plano de vocês para a partida contra o Liverpool? Algo especial para a ocasião?

Pediram que a gente entrasse do jeito de sempre, que não tivéssemos medo de nenhum adversário, mas jogássemos da mesma forma que fizemos na Libertadores. Jogamos nosso futebol de sempre, não mudou nada, era isso que tínhamos como esquema e fomos com aquilo. Vencemos.

Sobre a Copa do Mundo e o Brasil: a Seleção teve um caminho mais tranquilo em 2002…

Não foi tranquilo, não, pô! Foi super difícil, já na estreia contra a Turquia. Não foi fácil… no mata-mata, pegamos a Bélgica, super complicado. Depois a Inglaterra, saindo atrás, aí a Turquia outra vez. Foi tudo complicado, mas o elenco era experiente e o pessoal dentro de campo soube superar os obstáculos. O time estava muito focado e com grandes jogadores como os nossos, soubemos jogar bem. As dificuldades aconteceram, é verdade, mas com experiência tudo foi resolvido.

Em relação ao time de 2018, o que você vê desse Brasil em comparação às grandes seleções do momento? Os rivais que melhoraram demais e estão em um momento superior, ou fomos inexperientes na hora decisiva? O que mais falta para esse time de agora?

Não sei se foi inexperiência. Você tem o Thiago Silva, de duas Copas, o Neymar, o Marcelo, Fernandinho, Paulinho, que também jogaram a última. O que vejo é que os europeus aprenderam muito, melhoraram bastante, questão de marcação. Eles evoluíram, puxaram o resto das seleções. Você vê o que fez a Coreia contra a Alemanha. Não tem mais jogo fácil. Essas coisas, além da qualidade das outras seleções, com jogadores que driblam, partem pra cima. Temos de nos conscientizar que esse aspecto defensivo é importantíssimo.

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