Junta militar birmanesa 'pode estar cometendo crimes contra humanidade', aponta especialista da ONU

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Parentes velam o corpo de manifestante morto ao ser baleado na cabeça por forças de segurança em Yangon

A junta militar birmanesa "pode estar cometendo crimes contra a humanidade", apontou nesta quinta-feira um especialista da ONU, no dia em que a repressão no país asiático resultou em nove mortes.

"Crescem as evidências de que a junta militar pode estar cometendo crimes contra a humanidade, incluindo assassinatos, desaparecimentos forçados, perseguição, tortura e prisões", declarou Thomas Andrews no Conselho de Direitos Humanos da ONU. "Examinem os fatos", implorou o especialista independente, encarregado pela ONU de monitorar a situação dos direitos fundamentais em Mianmar.

Andrews lembrou ao Conselho os requisitos para que alguns fatos sejam considerados crimes contra a humanidade. "O fato de serem cometidos em meio a um ataque de grande amplitude ou sistemático contra uma população civil, seja qual for, e com o conhecimento dos fatos", disse.

A atual repressão em Mianmar faz parte dessa situação: é uma campanha coordenada contra a população civil, de grande amplitude, com cerca de 2.000 detidos até o momento, e são bem organizadas e executadas "com o conhecimento dos líderes" do governo, explicou.

Andrews reconheceu que cabe a um tribunal de justiça decidir a respeito, embora as provas já tenham começado a ser coletadas por um mecanismo de vigilância independente, criado em 2018 pelo Conselho dos Direitos Humanos, a mais alta instância da ONU sobre o assunto.

Em campo, "seis homens morreram baleados e oito pessoas ficaram feridas", informou um socorrista na região de Myaing. Outras três pessoas morreram em diferentes localidades do nordeste e sul do país, palcos de protestos renovados.

A associação de ajuda aos presos políticos denunciou ontem a morte de 60 civis desde o começo dos protestos, após o golpe de Estado de 1º de fevereiro. Segundo o especialista da ONU, a cifra poderia superar 70 mortos.

Forças de segurança realizaram operações na noite de ontem em Yangon, capital econômica do país, que incluíram buscas por armas em apartamentos.

Operações em residências, hospitais e universidades, prisões em massa, munição real: a junta parece, mais do que nunca, decidida a sufocar a rebelião, em boa parte pacífica. A organização de defesa dos direitos humanos Anistia Internacional denunciou "execuções extrajudiciais" e o uso de armas de guerra.

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