Juntos em 'O irlandês', De Niro e Al Pacino contam como filme motiva 'questões existenciais'

DAVE ITZKOFF/NYT
Robert De Niro e Al Pacino em Londres. Atores estão juntos em 'O irlandês', de Scorsese

Não há placa para registrar o encontro, e nenhum dos participantes consegue precisar a data exata em que ocorreu, mas em um trecho qualquer da Rua 14, no East Village, em Manhattan, no fim dos anos 1960, os caminhos de dois atores em começo de carreira – Robert De Niro e Al Pacino – se cruzaram.

Ambos bem-sucedidos, começavam a gozar os frutos do trabalho constante e da visibilidade por ele gerada, e se conheciam de nome e reputação. Compararam currículos, estudaram um ao outro e se afastaram pensando no que o futuro traria para si e para o homem que acabaram de conhecer.

Meio século depois, os dois entram na suíte de um luxuoso hotel às margens do Tâmisa para falar de seu novo filme, "O irlandês", com tantas dessas incertezas há muito tempo resolvidas. Ambos deram ao cinema alguns de seus protagonistas mais fascinantes e explosivos, em filmes como "Taxi Driver", "Scarface", "Touro Indomável" e a série "O Poderoso Chefão".

Eles não são só colegas e parceiros ocasionais, mas amigos de verdade, que de vez em quando encontram um tempinho para pôr a conversa em dia e contemplar possíveis projetos comuns.

Num momento em que poderiam facilmente parar e se orgulhar do trabalho que fizeram, Pacino, de 79 anos, e De Niro, 76, continuam a dedicar uma atenção imensa à arte da atuação.

Três vezes juntos em cena

"O irlandês", dirigido por Martin Scorsese, coloca os dois atores juntos na tela pela terceira vez apenas. O drama criminal, estruturado como retrospectiva, é inegavelmente consciente do fato de que uma hora tudo acaba.

É um tema com que Pacino se identifica muito; no longa, ele interpreta Jimmy Hoffa, o intratável presidente do International Brotherhood of Teamsters. O mesmo vale para De Niro, que, além de produzir o filme, encarna o personagem-título, Frank Sheeran, membro do sindicato e mafioso que se gabava de ter matado Hoffa.

Só agora, como não têm mais nada a provar ao público, eles encontram motivação para superar as próprias marcas e acompanhar o ritmo um do outro. Nas raras ocasiões em que trabalham lado a lado, "a pressão diminui. E então volta a aumentar", diz Pacino.

Os dois cresceram na Nova York pós-Segunda Guerra Mundial. Ambos foram filhos do divórcio, ambos se viram atraídos para as escolas de atores da cidade e ambos eram fascinados pelos ex-alunos influentes dessas instituições, como Marlon Brando, James Dean, Geraldine Page e Kim Stanley.

Entretanto, nada transformou a vida deles como os filmes de "O Poderoso Chefão", de Francis Ford Coppola. Pacino garantiu seu lugar no panteão da glória graças à participação no original de 1972 e sua interpretação discreta e sedutora de Michael Corleone – papel em que De Niro, entre outros, estava de olho.

De Niro faturou seu primeiro Oscar por "O Poderoso Chefão 2", lançado dois anos depois, no qual interpretou a encarnação jovem de Vito Corleone.

Durante muitos anos, fazê-los aparecer na tela juntos pareceu uma façanha inalcançável, embora não tenham faltado tentativas: eles quase contracenaram em "Nos Calcanhares da Máfia" (Eric Roberts e Mickey Rourke acabaram assumindo); em "1900", de Bernardo Bertolucci (De Niro atuou, Pacino, não); em "O Sucesso a Qualquer Preço", versão para a telona do livro de James Foley (Pacino atuou, De Niro, não). Quando pergunto por que nenhuma dessas parcerias vingou, eles me dizem que foram apenas os caprichos do tempo.

Acabaram finalmente se encontrando, fugidia, mas espetacularmente, em 1995, em "Fogo contra fogo", de Michael Mann, que conta a história de um ladrão habilidoso (De Niro) e o investigador teimoso (Pacino) que o persegue. Mann explicou que quis trabalhar com os dois atores não só por causa de seu cacife cinematográfico, mas também por personificarem a ideia de homens que podem ser parecidos e, ao mesmo tempo, completamente diferentes.

"Há uma tese e uma antítese; eles têm algumas características em comum, e as que não são, são diametralmente opostas", diz Mann sobre os atores. "Al decorou suas falas com duas semanas de antecedência, em uma absorção psicológica, de forma livre. Já Bob optou por estar completamente ligado no momento."

"O resultado foi que ambos fizeram uma imersão artística total, embora com processos radicalmente diferentes", completa.

Treze anos se passaram antes que De Niro e Pacino voltassem a atuar juntos, em "As duas faces da lei", drama policial do qual nenhum dos dois se lembra com saudade.

E já na época os pauzinhos se arrumavam lentamente para "O irlandês", filme que surgiu graças ao fascínio de De Niro com o livro homônimo, de Charles Brandt, que descobriu enquanto fazia pesquisas para outro projeto em potencial com Scorsese. A obra descreve a ascensão de Sheeran em uma família de criminosos da Pensilvânia que acaba se envolvendo com a saga de Hoffa e da família Kennedy.

"O irlandês" é o nono longa de De Niro com Scorsese, mas o primeiro em que Pacino trabalha com o diretor. E, embora fossem conhecidos – Pacino procurou Scorsese há muitos anos para dirigir um projeto, não realizado, no qual interpretaria Modigliani –, ainda assim Scorsese foi buscar informações sobre o astro que lhe era pouco familiar.

Como De Niro conta: "Marty perguntou como era o Al; eu disse que era um doce. "Você vai ver." (Pacino não se incomoda com a descrição. "É que você me vê sorrindo", brinca.)

Além da chance de trabalhar com Scorsese e um com o outro, De Niro e Pacino encararam "O irlandÊs" como uma oportunidade de mais uma vez encarnarem personagens da vida real e se dedicarem aos documentos e registros deixados por ambos, podendo compô-los de dentro para fora.

Ambos reconheceram que se sentiram atraídos pelo tom elegíaco do filme, que acompanha seus personagens – pelo menos os que sobrevivem – até a velhice e os deixa, geralmente na solidão, para tentar definir como a história se lembrará deles.

Para Scorsese, era apropriado e inevitável que ele e seus protagonistas quisessem explorar esse assunto sombrio. "Acho que todos nós temos essa necessidade de olhar para trás, eu, Bob, Al, Joe, os personagens que interpretam. Mas acho que é a idade em que nos encontramos. Só queríamos lhe dar forma no cinema."

Já os atores acharam uma tarefa delicada explicar por que esse aspecto do filme lhes interessou, e por motivos óbvios: quem quer admitir que está mais perto do fim do que do início? Como diz Mann: "Será que tem alguém que sai por aí pensando que é um estadista idoso? Ou você ainda fica pensando no que vai ser quando crescer?"

'Questões existenciais'

Com certa hesitação, De Niro diz que ele e Pacino tiveram de levar em consideração algumas das questões existenciais que "O irlandês" levanta.

"Estamos em um ponto em que estamos perto de ver" – e faz um gesto oscilante com a mão, como se descrevendo a descida de uma ladeira, enquanto procura as palavras – "não quero dizer o fim, mas o horizonte. O início daquela viradinha e o que há do lado de lá."

Pacino diz que percebeu essas ideias com mais clareza depois de concluído o filme. "Até que ponto elas aparecem no meu desempenho é o resultado da direção de Scorsese e o longo processo de 'gestação' do longa."

"Acho que dez anos atrás não faria um filme desses. Ele acendeu alguma coisa que nem consigo identificar direito, e me surpreendi por sentir. É nisso que nos metemos? O que estamos fazendo, balançando o esqueleto de lá para cá?"

Em "O irlandês", a proximidade entre Sheeran e Hoffa acaba levando-os a uma amizade terna – pelo menos até o clímax sanguinolento –, mas De Niro e Pacino explicam que os deveres da promoção do filme não se repetiram nessa relação.

Mesmo com uma turnê publicitária mundial como essa, com todas as estreias, tapetes vermelhos e after-parties, Pacino entrega: "Não nos vemos com muita frequência, não."