Juros menores, crédito mais barato: pague menos pedindo portabilidade

Letycia Cardoso e Patricia Valle
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Os juros nunca foram tão baixos no Brasil, e o custo do crédito também. Com a taxa básica de juros (Selic) em 2% ao ano, ficou mais barato pegar um empréstimo e, até mesmo, pagar menos pelos antigos negociando com o banco ou pedindo a portabilidade de crédito para outra instituição — transação que cresceu muito em 2020.

Segundo dados do Banco Central, houve um aumento de 651% de transações de portabilidade na modalidade de crédito habitacional SFH e de 316% no SFI neste ano até agosto, em relação ao mesmo período do ano passado. No financiamento de veículos, o crescimento foi de 262% e para o crédito pessoal, de 377%.

Pela portabilidade de crédito, os clientes têm o direito de transferir gratuitamente suas dívidas de um banco para outro. Na prática, a portabilidade funciona como se o cliente tivesse contratado um novo empréstimo em outro banco e, com esses recursos, quitado antecipadamente a dívida no banco de origem. A diferença é que não há pagamento de impostos, desde que o novo empréstimo não supere o valor da dívida original. E pelas regras, as condições continuam a mesmas, apenas mudando a taxa de juros. Isso para que o consumidor consiga comparar facilmente onde está mais barato.

— Com a queda de juros, fazer a portabilidade pode ser um excelente negócio. Qualquer pequena redução na prestação pode significar uma economia grande no financiamento total. É importante cotar no mercado se o crédito ficou caro — afirma Andrew Frank Storfer, diretor-executivo da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac).

Quem contratou um crédito em 2018, por exemplo, quando a taxa de juros estava em 6,5% ao ano, pode conseguir uma redução de cerca de 17,3% na prestação da casa própria e de 4,4% na parcela do financiamento imobiliário se mudar o crédito para as condições atuais (Veja a simulação abaixo).

Quanto mais longo é o crédito, maior é a redução no valor total do financiamento. Por isso, a portabilidade do crédito imobiliário pode representar uma grande economia. Mas há um custo extra com a atualização da matrícula do imóvel.

— O novo banco dá o custo na averbação na matrícula do imóvel, que é proporcional ao valor do imóvel. Mas compensa pela economia com os juros — afirma Andrew Storfer.

A recomendação dos especialistas é pedir ao banco credor todas as informações sobre o crédito: saldo devedor, prazo restante e taxa de juros. E então, cotar em outros bancos se há um custo menor — o que é possível fazer pela internet. Mas antes de fechar negócio com o que oferece a menor taxa, mostre ao banco atual que tem oferta melhores.

*Cálculos feitos considerando prazo máximo de 30 anos para o financiamento imobiliário e de cinco para o de veículos.

Já se a melhor alternativa for em outro banco, é só fechar o negócio. Pelas regras de portabilidade, o novo banco comunica ao atual que está recebendo o crédito. O banco é obrigado a informar o saldo devedor e a aceitar a liquidação por meio de transferência de recursos pelo novo banco emprestador. Para fazer a portabilidade, é preciso estar em dia com os pagamentos .

— O custo de crédito ficou menor, então vale a pena para o banco atrair bons clientes. E depois da transferência, é possível até mesmo negociar outras condições— afirma Ricardo Teixeira, professor de MBAs da Fundação Getúlio Vargas.

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Antes de procurar outros bancos para verificar as condições de portabilidade, é interessante procurar a própria instituição onde foi feito o crédito para pleitear melhores condições. Além de obter taxas de juros menores, o coordenador do MBA de finanças na Universidade Veiga de Almeida (UVA), Haroldo Monteiro, aconselha a negociar o seguro embutido na prestação paga todo mês.

—Só optar pela portabilidade , cliente deve verificar se o banco está cobrando alguma taxa para fazer a operação — alerta Monteiro: — É preciso ficar bastante atento, já que taxa pode ser menor, mas o seguro maior. E e sse seguro costuma ter um peso muito grande no valor do financiamento.

A professora e gestora nacional do curso de Ciências Contábeis da Estácio, Iara Marchioretto, diz que os bancos costumam oferecer descontos para antecipação de parcelas ou pagamento de cotas em atraso.

A portabilidade também pode ser usada em outros tipos de dívidas como cartão de crédito ou cheque especial. Dessa forma, se o consumidor contraiu uma dívida alta em uma instituição, pode procurar outra que ofereça financiamento de longo prazo, com parcelas e juros menores, para fazer a transferência. Caso não seja possível, outra solução é pegar um empréstimo com taxas menores para sair do rotativo do cartão de crédito, que cobra tarifas exorbitantes.

— O interessado deve ver se o banco está cobrando seguro de inadimplência, o que acaba aumentando a taxa. Quando a soma da parcela e do seguro de inadimplência resultar numa taxa de juros mais alta do que era pago antes da portabilidade, isso pode ser um tipo de pegadinha — afirma o economista Haroldo Monteiro.

Se aprovada, o novo banco paga o valor restante da dívida à instituição onde o crédito foi contratado, e o cliente passa a pagar à instituição escolhida.