Justiça busca responsáveis por ataques em Brasília e aponta aliado de Bolsonaro

Autoridades brasileiras ampliaram nesta terça-feira (10) seus esforços para punir os responsáveis pelos ataques às sedes dos Três Poderes, com ordens de prisão preventiva para Anderson Torres e coronel Fábio Augusto, respectivamente ex-secretário de Segurança e ex-comandante da Polícia Militar do DF.

Torres, que foi ministro da Justiça do ex-presidente Jair Bolsonaro, recebeu ordem de prisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), por suposta "omissão e conivência" com os distúrbios de domingo como responsável pela Segurança da capital, cargo do qual foi demitido após o episódio.

Moraes considerou "potencialmente criminosa" a "omissão das autoridades públicas" com os milhares de seguidores radicalizados de Bolsonaro que invadiram o Palácio do Planalto, o Congresso e o STF em busca da queda do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O juiz descreveu o ocorrido como uma "tragédia anunciada" devido à divulgação prévia que os atos golpistas tiveram nas redes sociais. Por isso, também determinou a prisão de Fábio Augusto, afastado do comando da Polícia Militar do Distrito Federal (DF) após os fatos e já sob custódia das autoridades, segundo a imprensa.

“A democracia brasileira não será abalada, muito menos destruída, por criminosos terroristas”, declarou o ministro em sua decisão, que comparou à atitude de Winston Churchill para combater os nazistas na Segunda Guerra Mundial.

Torres, que negou "qualquer tipo de conivência com as barbáries", disse nesta terça-feira no Twitter que interromperá suas férias nos Estados Unidos e voltará ao Brasil para se “apresentar à justiça e cuidar” de sua defesa.

Seu antigo chefe, Bolsonaro, também nos EUA, deixou nesta terça o hospital onde estava internado desde domingo com dores abdominais e voltou para a casa do ex-lutador José Aldo, que o hospeda em Orlando.

- Novas prisões -

As forças de segurança e as autoridades de Brasília são criticadas por sua atuação com relação aos tumultos. Vídeos que circulam nas redes sociais mostram policiais filmando os ataques ao invés de intervir.

Moraes já havia suspendido de suas funções por 90 dias, na noite de domingo, o governador do DF, Ibaneis Rocha, que havia pedido desculpas a Lula por falhas na segurança.

O ministro da Justiça e Segurança Pública, Flavio Dino, anunciou nesta terça que cerca de 50 novos mandados de prisão serão emitidos em breve, alcançando participantes diretos dos ataques, autores intelectuais e financiadores.

A “democracia brasileira segue firme”, afirmou nesta terça-feira pelo Twitter o presidente Lula, que considera “atos terroristas” o que houve na capital. “Vamos recuperar o país do ódio e da desunião”, acrescentou.

- Liberação de bolsonaristas -

A decisão do juiz Moraes foi precedida pela liberação pela Polícia Federal (PF) de 599 pessoas detidas após os atos violentos, ocorridos exatamente uma semana depois de Lula assumir o poder.

Eram “em geral idosos, pessoas com problemas de saúde, em situação de rua e mães acompanhadas de crianças”, liberados “por questões humanitárias”, disse a PF em nota.

As autoridades detiveram mais de 1.500 pessoas no total após a invasão e a depredação dos edifícios públicos, que causaram danos materiais significativos, em especial a obras de arte de valor inestimável.

Cerca de 527 pessoas haviam sido presas nesta terça-feira e outras ainda estavam sendo "submetidas aos procedimentos de polícia judiciária” para que seus destinos sejam definidos, acrescentou a PF.

Os indivíduos liberados estavam confinados em um ginásio da Academia Nacional de Polícia, na capital federal. Alguns foram transportados de ônibus para uma estação de onde puderam retornar para suas casas.

- 'Nova luta' -

Os que seriam presos foram levados para delegacias e depois transferidos para o Complexo Penitenciário da Papuda.

De um dos veículos, os passageiros gritavam "A vitória é nossa!". Alguns colocavam os braços para fora das janelas, com os punhos fechados ou fazendo o gesto de "V" de vitória.

"É só descansar e preparar para nova luta porque se eles acham que vão nos intimidar com isso, eles estão completamente enganados”, declarou à AFP Agostinho Ribeiro, um dos bolsonaristas soltos, que reclamou do tratamento "humilhante" no ginásio.

Ribeiro afirmou que quando chegou aos prédios públicos já havia estragos e alegou que participou dos atos no domingo porque quer um Brasil "livre do comunismo".

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