Justiça da Itália liberta chefe da máfia acusado de mais de 100 assassinatos

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Giovanni Brusca, 64, antigo chefe da máfia italiana, deixou a prisão na segunda-feira (31), após cumprir pena de 25 anos por seu papel confesso em mais de 100 assassinatos, incluindo o do juiz Giovanni Falcone, morto em 1992, e de Giuseppe Di Matteo, adolescente de 14 anos que foi estrangulado e dissolvido em ácido por ser filho de um informante da polícia.

Brusca foi preso em 1996, quatro anos depois de acionar o explosivo que matou Falcone, a mulher dele e três guarda-costas. Mais tarde, tornou-se um delator, dando às autoridades informações para esclarecimento de centenas de outros crimes em troca de benefícios e redução de pena.

O assassinato do juiz, seguido dois meses depois pelo de Paolo Borsellino, outro magistrado empenhado no combate à máfia, foi um dos episódios mais notórios da longa e violenta luta da Itália contra o crime organizado.

Maria Falcone, irmã do juiz assassinado, lamentou a soltura de Brusca em entrevista ao jornal Corriere della Serra. "É uma notícia que me dói como pessoa, mas é a lei, uma lei que meu irmão quis e que é preciso respeitar", disse.

As viúvas de dois dos guarda-costas mortos na explosão expressaram descontentamento com a decisão da Justiça. "Vinte e nove anos depois ainda não sabemos a verdade, e o homem que destruiu a minha família está livre", disse Tina Montinaro, nesta terça (1º). Rosaria Costa, cujo marido também foi morto em 1992, disse que Brusca colaborou com a Justiça "apenas para obter benefícios, não foi uma escolha pessoal e íntima".

Brusca forneceu aos investigadores informações sobre vários ataques do grupo siciliano conhecido como Cosa Nostra, realizados nas décadas de 1980 e 1990, e testemunhou em um julgamento sobre supostas negociações entre autoridades italianas e mafiosos para impedir os bombardeios. Segundo a imprensa italiana, ele deve ficar em liberdade condicional por quatro anos.

"Independentemente do que se possa pensar das atrocidades que cometeu na época, houve uma colaboração. Não esqueçamos que ele deu informações sobre os atentados tanto na Sicília como na Itália continental", disse o procurador Federico Cafiero De Raho, chefe de uma unidade antimáfia, à agência de notícias Reuters. "Claramente, os juízes acreditaram que esta era a pena de prisão apropriada."

A libertação de Brusca foi criticada por muitos políticos, tanto de direita quanto de esquerda. O líder do Partido Democrático, de centro-esquerda, Enrico Letta, a classificou como "um soco no estômago que te deixa sem palavras".

"Uma pessoa que cometeu esses atos, que dissolveu uma criança em ácido, que matou Falcone, na minha opinião é uma fera e não pode sair da prisão", reagiu Matteo Salvini, líder da Liga, de ultradireita.

Falcone, apontado pelo ex-juiz e ex-ministro da Justiça Sergio Moro como sua inspiração para deixar a toga e assumir cargo no governo de Jair Bolsonaro (sem partido), foi um dos responsáveis por deflagrar a Operação Mãos Limpas no país e trabalhou contra a Cosa Nostra. Reconhecido internacionalmente, recebeu prêmios por sua imparcialidade.

Em 1992, o carro onde estavam o juiz e sua mulher, Francesca Morvillo, explodiu ao passar por uma estrada que foi dinamitada por explosivos. Brusca ativou o detonador dos mais de 400 quilos de explosivos escondidos sob a estrada de Trapani a Palermo.

Falcone dirigiu grandes julgamentos nos anos 1980, com mafiosos apresentados dentro de jaulas, no fundo de salas construídas especialmente para estes processos, em Palermo. Centenas deles foram sentenciados à prisão perpétua.

Deflagrada em 1992, a Mãos Limpas revelou um grande esquema de corrupção envolvendo vários partidos na Itália.Considerada uma das maiores operações anticorrupção já realizadas na Europa, e inspiração para a Lava Jato, no Brasil, a investigação levou cerca de 3.000 pessoas à cadeia e investigou empresários, ministros e cerca de 500 parlamentares.