Justiça liberta fazendeiro acusado de assassinato de agricultor em acampamento do MST no Rio

Rafael Soares
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RIO - A Justiça do Rio decidiu libertar o fazendeiro Matheus Canellas Ramos, que estava preso desde julho acusado de ser mandante do assassinato do agricultor Carlos Augusto Gomes, o Mineiro, no acampamento Emiliano Zapata, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em São Pedro da Aldeia, na Região dos Lagos. A investigação do crime, a cargo da 125ª DP (São Pedro da Aldeia), concluiu que o trabalhador rural foi executado com quatro tiros quando Ramos invadiu o acampamento acompanhado de policiais militares de folga, que atuavam como seus capangas. O crime aconteceu em 8 de julho passado.

A liberdade provisória de Ramos foi determinada na semana passada pelo juiz Márcio da Costa Dantas, da 2ª Vara de São Pedro da Aldeia, a pedido da defesa do fazendeiro. Segundo o magistrado, "não é razoável que os supostos atiradores estejam em liberdade e o suposto mandante em cárcere, ressaltando-se que o réu tem residência fixa, ocupação laboral lícita e é tecnicamente primário". Os dois PMs — os sargentos Renato da Silva Bráz e Ênio Alves Leão — foram soltos em setembro e agosto, respectivamente.

Segundo a decisão, o fazendeiro não pode ter contato com os outros réus ou com testemunhas do processo e não pode se aproximar do acampamento onde o crime aconteceu. Ele também só pode sair de casa com autorização judicial.

De acordo com a Polícia Civill, o crime foi motivado por um conflito fundiário que começou há cerca de 15 anos na Fazenda Negreiros, em São Matheus, no município de São Pedro da Aldeia. A propriedade, que foi parcialmente desapropriada em uma ação movida pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), foi ocupada por famílias de trabalhadores rurais. No entanto, a parcela não desapropriada da fazenda foi ocupada por outros agricultores, reiniciando o conflito. Os agricultores relataram que, em dezembro de 2019, o proprietário do terreno ameaçou derrubar suas cercas e queimar suas moradias.

Dois dias antes do crime, uma casa construída no assentamento foi incendiada por homens armados. Já na noite do dia 7, o proprietário da fazenda retornou ao local, acompanhado pelos PMs. A chegada deles resultou em um confronto armado com os trabalhadores rurais. Feridos após o tiroteio, os policiais militares envolvidos foram presos no Hospital Regional de Araruama na mesma semana do crime. Já o proprietário das terras foi preso em seu apartamento.

Segundo o relatório final da investigação, não há dúvida de que Mineiro foi morto pelo fazendeiro ou por seus comparsas: "Fato é que ou Matheus, ou os policiais que o acompanhavam, matou Mineiro. Não há se falar em tiro acidental dado por um dos posseiros, pois Mineiro foi atingido por quatro disparos. Ademais, a presença de um comprimido de Clonazepam ao lado do corpo, medicamento que o PM Renato tinha consigo, revela que ao menos ele esteve ao lado de Mineiro. A vítima, frise-se, já fora ameaçada anteriormente por Matheus".

Quando o fazendeiro foi preso, a Polícia Civil encontrou, em seua casa, um revólver calibre 38, uma pistola calibre 380, uma espingarda calibre 38 e munições. Pouco antes da apreensão, o suspeito se trancou em um quarto e jogou duas armas – a pistola e o revólver – pela janela. Os artefatos caíram em um prédio vizinho, mas foram encontrados pelos investigadores. Na ocasião, além das armas, os policiais apreenderam aparelhos de telefonia celular, um capuz (balaclava), um colete, facas e documentos, bem como um adesivo grande com o distintivo da Polícia Federal.