Justiça de NY absolve, 55 anos depois, condenados pelo assassinato de Malcom X

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Uma virada dramática em um capítulo doloroso da história dos afrodescendentes nos Estados Unidos: a justiça de Nova York absolveu nesta quinta-feira (18) dois homens condenados pelo assassinato em 1965 de Malcolm X, ícone da causa negra, em uma reabilitação tardia que suscita muitos questionamentos.

Chamando o caso de "falha da justiça", a juíza da Suprema Corte de Nova York Ellen Biben anulou a condenação de Muhammad Aziz, conhecido como Norman 3X Butler, que aos 83 anos estava presente no tribunal, e Khalil Islam, vulgo Thomas 15X Johnson, que morreu em 2009, após uma ação movida pelo promotor Cyrus Vance e pela defesa.

"Pedimos desculpas pelas graves e inaceitáveis violações da lei e da confiança pública", disse Vance às famílias pelo que classificou como "injustiça".

Após 22 meses de investigações conduzidas por Vance, a equipe de advogados dos dois condenados e a organização The Innocence Project, que luta contra erros judiciais, o promotor concluiu em um documento de 42 páginas que as condenações deveriam ser anuladas e a acusação descartada.

Mas quem atirou contra Malcolm X em 21 de fevereiro de 1965, quando ele pisou na tribuna do Audubon Ballroom, no Harlem?

Muhammad Aziz e Khalil Islam, que passaram mais de duas décadas na prisão, sempre alegaram inocência. O terceiro condenado pela morte de Malcolm X, Mujahid Abdul Halim, ou Talmadge X Hayer, reconheceu ter feito o disparo e sempre defendeu que Aziz e Islam não estavam envolvidos.

"Não preciso que o tribunal, esses promotores ou um pedaço de papel me digam que sou inocente", berrou na audiência Muhammad Aziz, que denunciou um "sistema corrupto até a alma e que segue sendo familiar para os negros em 2021".

"Honestamente, nunca pensei que viveria para ver este dia", declarou Ameen Johson, de 57 anos, um dos filhos de Islam.

Até a anulação da sentença, a tese oficial, muito questionada, defendia que havia três culpados, membros na época do movimento "Nação do Islã", que foram condenados pela justiça americana em 1966.

Lançado em fevereiro de 2020 na Netflix, o documentário "Quem Matou Malcolm X?" levantou dúvidas sobre a presença desses dois homens na cena do crime.

- Carta póstuma -

De acordo com a investigação, o FBI "ocultou" vários documentos envolvendo outros suspeitos, assim como a presença de agentes infiltrados no salão no momento do tiroteio.

Uma testemunha confirmou aos investigadores da equipe de Vance o que Muhammad Aziz sempre afirmou: que ele estava em sua casa no momento do assassinato.

Além disso, um jornalista do Daily News havia recebido uma ligação na mesma manhã anunciando que Malcolm X seria assassinado, noticiou o The New York Times na véspera.

Essas revelações relançam a tese do papel obscuro desempenhado pelo FBI e a Polícia de Nova York na época, alimentada por uma carta póstuma de um policial em fevereiro de 2021. Ele contou que havia se infiltrado, por ordem de seus superiores, no entorno de Malcolm X e armado uma armadilha para dois guarda-costas, detidos dias antes da morte, para enfraquecer a segurança do ativista.

Na época de seu assassinato, Malcolm X, de 39 anos, uma figura radical do movimento negro acusada por seus detratores de incitar a violência e o separatismo, havia deixado a Nação do Islã e abraçado um discurso mais moderado.

Ele vinha sendo ameaçado por membros de seu antigo grupo e sua casa no bairro nova-iorquino de Queens havia sido alvo de um ataque alguns dias antes.

O assassinato de Malcolm X abalou os Estados Unidos e simbolizou as tensões políticas e sociais no país nos anos 1960, marcadas também pelo assassinato do presidente John F. Kennedy em 1963 e de outra grande personalidade da defesa dos direitos civis, Martin Luther King, em 1968.

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