Justiça de SP autoriza projeto de palhaço a seguir atendimento a usuários da cracolândia

***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 08.09.2022 - Flávio Falcone, o palhaço da cracolândia, durante operação Caronte, da Polícia Civil, na região central da capital paulista,. (Foto: Danilo Verpa/Folhapress)
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 08.09.2022 - Flávio Falcone, o palhaço da cracolândia, durante operação Caronte, da Polícia Civil, na região central da capital paulista,. (Foto: Danilo Verpa/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O TJ-SP (Tribunal de Justiça de São Paulo) concedeu nesta segunda (19) uma liminar que garante ao projeto social Teto, Trampo e Tratamento -do qual faz parte o psiquiatra Flávio Falcone, 42, conhecido por se fantasiar de palhaço- o direito desenvolver seus trabalhos com usuários de drogas da cracolândia, no centro da capital paulista.

Na decisão, o juiz José Fernando Steinberg diz que as atividades desempenhadas pelo projeto social têm aparência lícita. "Logo, diante dessa premissa, até que haja prova em contrário, não deve haver a restrição de circulação em local público, sob pena de ofensa ao direito fundamental de locomoção", completa.

"A resolução reconhece que as atividades desempenhadas pelo projeto Teto, Trampo e Tratamento são lícitas e autoriza que eles continuem desempenhando seu importante trabalho em prol das pessoas vulneráveis", diz a advogada do grupo, Fernanda Balera.

Falcone foi detido em uma operação policial realizada na região em 1° de setembro. Na ocasião, ele foi levado ao 77° DP (Santa Cecília) sob alegação de perturbação do trabalho ou do sossego alheio.

Moradores do entorno da aglomeração de usuários reclamam das ações promovidas pelo projeto. Depois de passar três horas na delegacia, o homem foi liberado.

"A gente tinha acabado de começar a atividade. O delegado pessoalmente veio até mim e falou: 'você vai para a delegacia'. E todo mundo que estava comigo foi levado para a delegacia", afirmou o psiquiatra à reportagem.

Duas semanas depois, ele e o resto do grupo voltaram à cracolândia.

Psiquiatra formado pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), Falcone atendia em um Caps (Centro de Atenção Psicossocial) de São Bernardo do Campo (Grande SP) em 2009 e saía às ruas para encaminhar usuários de drogas e pessoas em situação de vulnerabilidade para tratamento. A aproximação era difícil, conta, até que um dia foi trabalhar vestido de palhaço.

"Foi um divisor de águas na minha carreira, no meu trabalho com essa população. Eu pisei na calçada e a praça inteira veio falar comigo. Falei 'uau, descobri aqui um negócio que faz uma conexão imediata'. E fui estudar. Nem eu sabia por que isso funcionava tanto"

Àquela altura, já estudava a arte do palhaço havia uns cinco anos. Mas foi na formação em psicologia analítica junguiana -do psiquiatra suíço Carl Jung (1875-1961)- que encontrou mais respostas.

"O palhaço é a melhor forma que o ser humano encontrou para lidar com a sombra. A sombra é tudo aquilo que você esconde: seu fracasso, sua fragilidade, seu erro. Então o palhaço é o arquétipo do erro. Acredito que é por isso que o palhaço faz sucesso com essa população, são os excluídos, os errados da sociedade capitalista", afirma Falcone, para quem a alegoria também representa esperança. "É vida, alegria, riso."

Com valores recebidos por meio de doações, o Teto, Trampo e Tratamento acolhe atualmente oito pessoas em pensões no centro de São Paulo, segundo Falcone. Desde a sua criação, em 2020, foram atendidos cerca de 40 usuários de drogas. O programa também oferece tratamento psiquiátrico e psicológico, além de apoio na busca por uma fonte de renda.