Justiceiro em 'Todas as flores', Nicolas Prattes relata a dor de perder a avó, festeja paixão e dá salto na carreira: 'Quero fazer história'

Era uma vez um garotinho lindo, de 2 anos, que fez figuração em “Terra Nostra”, como filho de Ana Paula Arósio e Thiago Lacerda. Corta para 23 anos depois. O menino já é um homem feito, aparece em cena sem roupa, numa sequência das mais dramáticas, após ser preso injustamente. Enquanto seu cabelo — de verdade — é raspado na frente das câmeras, o rapaz chora toda a dor de uma vida de infortúnios, o que basta para conquistar o Brasil e a torcida por um final feliz.

 

Há três anos, Nicolas Prattes conheceu Diego. Por causa dele incorporou à sua rotina algo que sempre tentou evitar: passou a acompanhar diariamente o noticiário nas primeiras horas do dia. Evitava para não acordar na frequência baixa de um caos cotidiano. Já tinha ele nas mãos o esboço de quem seria seu próximo personagem. Não mais um papel. Mas “O” papel em “Todas as Flores”, disponível no Globoplay, que jogou o ator na direção de outro patamar.

 

O personagem é um jovem brasileiro que vende o almoço em troca da janta. Que negocia a alma com o diabo para salvar a família e paga caro por isso. Quando não há mais nada a perder, ele ganha sobrevida na vingança de seus algozes. “Mergulhei fundo para me preparar. Tive um período grande para entender quem é ele. Isso não seria possível numa novela em TV. Li muito, assisti a filmes, me interiorizei. Diego é como todo cara que acorda cedo para trabalhar e está sujeito a tudo. Quando comecei a acompanhar as notícias de perto, via bala perdida de um lado, uma mãe que perdia o filho do outro por falta de hospital, várias tragédias do dia a dia, entendi quem era ele e sua função”, descreve.

 

Ainda não havia a pandemia, Nicolas vinha de uma bem-sucedida atuação em “Éramos seis”, planejava viajar e tudo corria como o previsto até que o mundo teve que se recolher. Ele procurou refúgio na Região Serrana, onde tem uma casa, meteu os pés no mato e, como bom taurino que é, procurou aterramento. Para ele e para o justiceiro da trama de João Emanuel Carneiro. Não à toa, o papel vem sendo comparado ao de Débora Falabella, como Nina, em “Avenida Brasil”. “Acho que as pessoas já esperam isso do João. Teve em ‘A favorita’, em ‘Avenida Brasil’, aquele sucesso estrondoso... Então, eu diria que eles têm algo em comum, sim”, reflete.

 

Criado numa família de classe média alta, Nicolas nunca esteve perto de passar fome ou dormir na rua, realidade de seu personagem. Tinha tudo, inclusive, para ser um garoto mimado, principalmente depois que foi parar na televisão. A mãe, a atriz Giselle Prates, tratou de mostrar que o mundo não era tão fantástico assim: “Minha base foi muito boa. Tive tudo, mas principalmente valores e afeto. É nesse amor que acho que me aproximo do Diego, porque mesmo diante das dificuldades, eles se amam, aquela família está unida. Foi assim na minha vida”.

 

Não foi só pelo afeto que criou-se uma identidade entre os dois. A dor da perda os uniu um pouco mais. Há um ano, Nicolas deu adeus à avó, Dona Maria, figura conhecida por todos, tal grudados eles eram. Sua segunda mãe. “Existe um Nicolas antes e um depois da morte da minha avó. Foi a primeira grande porrada que eu levei nessa existência. Uma dor que não dá para explicar, aquela saudade do que você nunca mais vai viver”, relata: “Quando entro em cena, principalmente nas mais difíceis, em que o Diego se entrega ao abandono, é esse sentimento, essa saudade que sempre acesso. É a minha dor que está ali também”.

 

É um Nicolas mais maduro que se vê em cena e também na vida. O frescor dos 25 anos está lá nas gargalhadas, nas brincadeiras, nos “zentos” quilômetros que aguenta correr mesmo após as gravações, no corpo rasgado que apareceu nu (e vai aparecer mais!) numa cena dramática, e na consciência do que tem nas mãos. Enquanto podia estar surfando nas redes sociais ou ganhando ainda mais dinheiro (estima-se que seu salário chegue a R$ 150 mil por mês), e posando de galã da nova geração, ele optou por seguir um caminho diferente. “Nunca fui muito de acreditar nisso. Acho que, como em tudo na vida, existem gavetas em que te colocam e acessam quando precisam. Não me oponho a isso. Faz parte do jogo. Não ligo de ter fama de galã ou não. Enquanto isso vou trabalhando, mostrando o que tenho a oferecer. Seria fácil me deslumbrar”, avalia.

 

Bonito, talentoso, viajado, culto e educado, Nicolas é o príncipe que muitas princesas de contos de fadas (e da vida) adorariam ter. Na vida real, ele já encontrou a sua. Há poucos meses assumiu o namoro com a dentista e bailarina do Faustão, Luiza Caldi, de 27 anos. Preferiu não fazer a linha “casado com o trabalho” e foi viver um romance que o faz abrir um sorriso de canto a canto do rosto. “Tem coisa melhor que namorar? Estar apaixonado é bom demais! É ótimo poder viver esse momento profissional estando com alguém. Sou romântico, gosto dessa troca”, se declara o ator, que por enquanto vive um romance na ponte aérea: “Mas ela já está voltando a morar no Rio”.

Além de “Todas as flores”, Nicolas está em mais três produções: a série “Musa música”, também do Globoplay, o filme “Pronto, falei”, e outra série, “Rio Connectoion”, uma co-produção internacional da Globo e da Sony. Pela primeira vez, ele vai aparecer falando inglês em cena. “Eu fui atrás desse papel. Liguei para a produtora e disse que falava inglês fluente e consegui um teste”, conta, empolgado. O trabalho é a porta de entrada para o mercado gringo: “Não vou ser hipócrita de dizer que não penso numa carreira fora. Ainda mais agora que as barreiras foram derrubadas com tantas produções e canais. Mas tem tanta coisa aqui pra mim, tantos trabalhos que posso mostrar ainda. Eu quero fazer história”.