Kéfera busca validação como atriz, prepara livro LGBTQIAP+ e fala de bissexualidade: ‘Sou muito mais feliz por ser livre’

São 3h da manhã de sexta-feira, 27 de maio. Kéfera Buchmann sai de casa em busca de uma farmácia. A urgência não é um medicamento, mas um spray de tinta para cabelo. No caso, para uma peruca. Com as sobrancelhas tingidas de ruivo e sardas desenhadas com henna, ela constrói o visual de sua personagem para uma apresentação a Ivana Chubbuck, renomada preparadora de elenco americana. Naquela madrugada, acompanhada nas redes sociais por muitos dos seus mais de 15 milhões de seguidores, a atriz só teve duas horas de sono: às 8h, já estava de pé para uma reunião de trabalho.

Investir na carreira de atriz tem sido prioridade para essa curitibana de 29 anos, que se tornou um fenômeno como influenciadora digital. No último dia 17, ela voltou ao “5inco minutos”, seu canal no YouTube com mais de 10 milhões de inscritos — que havia sido desativado em julho de 2020 —, para avisar que vem aí seu primeiro monólogo teatral como atriz, autora e diretora: “É foda!”, cujo nome é um trocadilho com o filme “É fada!”, protagonizado por Kéfera em 2016. Duas apresentações estão marcadas para agosto, em São Paulo. E a peça deve rodar o Brasil em turnê.

— Antes de o YouTube acontecer na minha vida, eu já fazia teatro, aos 15 anos. Com 17, abri o canal na internet justamente para buscar oportunidades como atriz, ser chamada para um teste de novela ou filme — explica: — Estou voltando para onde eu vim. Sou cria do teatro, diferentemente do que as pessoas pensam. Com a internet, eu conquistei público e tudo o que tenho. Mas meu foco é a atuação, e estou me aperfeiçoando cada vez mais.

Mente criativa em ebulição, Kéfera teve a ideia de escrever a peça, uma tragicomédia que faz paródia de sua própria história, há quatro semanas. Em quatro dias, estava pronta.

— Estou fazendo a coisa acontecer, em vez de ficar à espera de convites. No texto, falo das angústias e questionamentos de uma atriz em busca da validação e do reconhecimento do público para além da imagem da garota da internet. É pra rir e chorar, vai gerar muita identificação com o público — acredita Kéfera, que conta já ter sido alvo de muito preconceito, inclusive da classe artística: — Grazi Massafera conta histórias horríveis de humilhações que passou com colegas e diretores por ser ex-“BBB”. Já aconteceu o mesmo comigo, mas as pessoas têm me respeitado mais, devido à minha extrema dedicação.

Foi dona Zeiva, sua mãe e maior incentivadora, quem primeiro conheceu o texto da peça. Assim como foi ela a primeira a saber que a filha se interessa sexualmente por meninos, meninas e pessoas de outros gêneros — antes de a revelação vir à tona num vídeo publicado no Instagram em 1º de agosto do ano passado.

— Falei: “Então, mãe, eu sou bi”. E ela: “Kéfera, isso aí não é novidade pra mim, eu sabia antes de você”. Comecei a rir. Ela me conhece mais do que ninguém... Disse que foi notando pelo meu jeito, pelos comentários que eu fazia sobre outras mulheres... A notícia da minha bissexualidade foi muito bem acolhida pela minha família, da tia-avó, de 95 anos, a padrasto e pai. Todos disseram que só se interessam pela minha felicidade. E eu sou muito mais feliz, desde então, porque sou livre. Não preciso mais esconder quem eu amo — afirma ela, atualmente solteira.

Neste Mês do Orgulho LGBTQIAP+, Kéfera reforça a sua representatividade junto à comunidade, recebendo centenas de relatos semelhantes ao seu. E agora escreve um livro com essa temática, a ser lançado pela Editora Globo.

— Quando a gente vê um filme ou lê um livro de temática LGBT, geralmente tem sofrimento envolvido. Quero que o meu seja leve, que a dor não seja o mote principal. Como uma comédia romântica em que um casal heterossexual passa por problemas que não envolvem a sua orientação sexual, sabe? Vou tratar tudo com naturalidade, como deve ser. O amor é lindo, independentemente do gênero da pessoa que você ama. Se a relação é saudável, faz bem a ambos, é isso que importa.

Você se considera uma artista foda, por tudo o que conquistou até hoje?

Com toda certeza! Chega de ser a minha própria algoz. Eu já me sabotei muito, deixei de enxergar meu lugar de importância na história que fui construindo. Poxa, eu já fui eleita umas das jovens mais promissoras do Brasil, e na hora eu me questionei se me escolheram por pena. Fui a primeira mulher da América Latina a alcançar 1 milhão de inscritos no YouTube, cheguei a 11 milhões. Sei que é impossível agradar a todo mundo, mas quero que a galera me veja primeiro como atriz, pra depois vir “escritora, apresentadora, influencer, ex-youtuber”, que seja. Deixa eu, com toda a humildade do mundo, reconhecer o meu valor e enxergar que nada do que eu fiz foi por sorte. Sou muito batalhadora!

O que é mais foda de aturar desde que você se tornou uma pessoa pública?

A pior parte é ter que lidar com mentiras que inventam sobre mim. Dia desses, criaram um tuíte mentiroso com uma piadinha machista. Piada que eu jamais faria. A impressão que eu tenho é que as pessoas me veem como a patricinha. Ninguém sabe que eu passei minhas infância e adolescência inteiras tendo perrengue com grana. A minha família não é rica. Com o que produzo, consigo ajudar a minha mãe, o meu pai, o meu irmão... Banco tudo graças ao meu trabalho.

Qual foi a coisa mais fodástica que já lhe aconteceu?

O “Forbes Under 30” me marcou muito. Ganhar o Emmy Internacional de Melhor Comédia (2020), sendo parte do elenco da série “Ninguém tá olhando”, da Netflix, também foi um êxtase! E os livros que escrevi, um deles best-seller...

Quem é sua referência mais foda na vida?

Minha mãe! Sou a maior fã dela, muito grata por tudo o que fez por mim. Ela me inspira demais! Também tenho minhas amigas psicóloga, nutricionista comportamental, médica, radiologista.. Ver o quanto elas trabalham e lutam por seus sonhos é lindo.

E qual é a sua referência mais foda na arte?

São muitas! Lá fora, Natalie Portman, Maryl Streep, Anne Hathaway, Nicole Kidman...No Brasil, obviamente, Fernanda Montenegro, Betty Faria, Denise Fraga, Julia Lemmertz, Mari Ximenes, Luisa Arraes, Monica Iozzi, Dani Calabresa... e segue a lista.

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