ONG médica denuncia 273 ataques aéreos a hospitais na Síria em 2016

Genebra, 24 mar (EFE).- A organização não governamental francesa União das Organizações de Socorro e Auxílio Médico (UOSSM) denunciou nesta sexta-feira que no ano passado ocorreram pelo menos 273 ataques aéreos diretos a hospitais na Síria.

Este grupo, que presta apoio a instalações sanitárias no território sírio, avaliou 107 instituições sanitárias - 63 no norte e 44 no sul do país - do total de 130 centros médicos registrados em regiões sob controle opositor, excluindo os territórios em poder dos jihadistas do Estado Islâmico (EI) e das milícias curdas.

No total, os hospitais foram atacados 273 vezes de forma direta (com danos estruturais) e 700 de forma indireta (ataques que ocorreram nos arredores da instalação e que chegaram a afetá-la), segundo o relatório ao qual a Agência Efe teve acesso e que será apresentado amanhã em Genebra.

Isto representa um aumento em relação a 2015, quando, segundo dados da mesma organização humanitária, ocorreram 500 ataques diretos e indiretos a instalações médicas.

De acordo com o relatório, um mesmo centro, em Guta (subúrbio de Damasco) foi bombardeado em 25 ocasiões, seja de forma direta ou indireta.

O conflito sírio é "o primeiro da história em que tantos hospitais foram diretamente considerados alvos militares", disse à Efe o cirurgião sírio-canadense Anas Al-Qassim, que realizou 15 missões no terreno.

Al-Qassim declarou que, apesar de desconhecer a autoria das agressões, só o regime sírio, a coalizão internacional e as forças aéreas russas dispõem de aviões de combate.

"Estes ataques vulneram a Convenção de Genebra, assinada por todas as partes que possuem aviões de combate, que proíbe os ataques a instalações sanitárias", lembrou o responsável de Hospitais da UOSSM, Mounir Hakimi, que supervisionou as evacuações do leste de Aleppo em dezembro do ano passado.

Segundo os dados coletados pela UOSSM, três quartos dos edifícios registrados como hospitais não foram construídos para ser um centro médico, mas, antes da explosão da guerra em 2011, eram escolas ou sedes governamentais.

Os resultados também mostram que mais da metade do pessoal médico não recebeu formação alguma para saber como proteger-se em caso de ataque.

Além de uma constante falta de trabalhadores sanitários, concretamente de especialistas, a ONG lembrou a precariedade em termos de aparelhos, equipamentos e provisões.

Por exemplo, 60 dos 240 aparelhos de raios X dos hospitais estudados estavam fora de serviço, e apenas quatro de 13 scanners podiam ser utilizados.

Da mesma forma que em 2015, em 2016 foi praticamente impossível praticar intervenções de cirurgia vascular, neurocirurgia ou cirurgia plástica nas áreas estudadas.

A UOSSM coletou estes dados de pesquisas com trabalhadores sanitários e depois os verificou através das indagações de seu próprio pessoal na Síria.

Al-Qassim advertiu que "2017 pode ser ainda pior", e pediu à comunidade internacional e, especialmente, às Nações Unidas que garantam a proteção dos hospitais, pois, caso contrário, "a guerra na Síria será o maior ponto obscuro da história da ONU".

O conflito sírio acaba de entrar em seu sétimo ano com um balanço de pelo menos 320.000 mortos, e mais da metade da população forçada abandonar seus lares e se transformar em deslocada interna ou refugiada. EFE