Kassab completa 500 dias como secretário-fantasma de Doria

CAROLINA LINHARES
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 09.12.2019: Ex-prefeito de São Paulo Gilberto Kassab durante jantar de confraternização dos ex-ministros do governo Michel Temer, em São Paulo. (Foto: Mathilde Missioneiro/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - No próximo domingo (17), o ex-ministro e ex-prefeito Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD, completa 500 dias afastado do cargo de secretário-chefe da Casa Civil do governo de João Doria (PSDB) em São Paulo.

Kassab perdeu seu espaço no plano de articulação política de Doria em 19 de dezembro de 2018, ainda no governo de transição, quando foi alvo de operação de busca e apreensão da Polícia Federal por suspeita de receber R$ 58 milhões da JBS entre 2010 e 2016.

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Doria, que aspira a concorrer à Presidência em 2022, havia idealizado essa função para o ex-ministro e manteve sua nomeação em janeiro de 2019. Kassab não compareceu à posse do governador em 1º de janeiro, foi nomeado para o cargo e pediu licença não remunerada, tornado-se até hoje uma espécie de secretário-fantasma.

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O decreto que autoriza o afastamento de Kassab "com prejuízo dos vencimentos e sem quaisquer ônus para o Estado" para "tratar de assuntos de interesse particular" foi assinado no dia 3 de janeiro.

Kassab, porém, manteve o controle da pasta. O cargo é exercido na prática pelo secretário-executivo da Casa Civil, Antônio Carlos Rizeque Malufe, aliado do titular e também filiado ao PSD.

O futuro de Kassab depende tanto do andamento da investigação que trata da suposta propina da JBS como de sua relação com Doria --neste ponto, a eleição municipal é crucial. Mas é improvável que o impasse se resolva em meio à pandemia do coronavírus.

O inquérito que investiga Kassab sob suspeita de corrupção passiva e falsidade ideológica eleitoral, iniciado no STF (Supremo Tribunal Federal) em 2018, avançou pouco nesses 500 dias. No último dia 27, passou a tramitar em segredo de Justiça na 1ª Zona Eleitoral de São Paulo.

A Polícia Federal rastreou pagamento de R$ 23 milhões da JBS a empresas de transporte e consultoria ligadas a Gilberto Kassab.

O ex-ministro argumenta que as firmas prestaram serviço à JBS. A própria PF, ao defender investigação mais detalhada, diz que há relato de atividades das empresas e coloca em dúvida a delação dos irmãos Batista. Kassab nega irregularidades e diz prestar os esclarecimentos necessários.

Não houve até agora oferecimento de denúncia ou arquivamento. A investigação passou seis meses em poder da Polícia Federal desde que chegou ao Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo, enviada pelo STF em junho de 2019.

Depois de compor os governos Dilma Rousseff (PT) e Michel Temer (MDB), transitando com desenvoltura entre campos políticos adversários, Kassab agora ensaia aproximação com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Em recente entrevista à Folha de S.Paulo, descartou um impeachment neste momento e afirmou que não negocia cargos com Bolsonaro. Disse que não é base de apoio dele nem faz parte do centrão.

"Em nenhum momento foi veiculada menção a cargos. Até porque, como o partido é independente, ele não participa. Alguns parlamentares do partido, até por conta dessa independência, têm tido contribuição junto ao governo, sugerindo nomes para alguns cargos. Eu não tenho acompanhado", disse.

O diálogo estabelecido com Bolsonaro, embora acenda um alerta para Doria, não leva a um rompimento. Aliados do governador acham natural que, na realpolitik, Kassab mantenha as duas pontes.

Tanto é que Doria até agora não demitiu Kassab. No governo, o entendimento é o de que a demissão passaria o recado de que o ex-ministro é culpado. Kassab também fez seu gesto ao livrar a imagem da gestão tucana, pedindo afastamento.

A existência de um secretário-fantasma por 500 dias foi descrita como "esdrúxula" por um tucano. Já um aliado do PSD se espantou ao ser informado de que Kassab segue afastado --ele achava que o ex-ministro já tinha deixado o cargo.

Seu nome é publicado no Diário Oficial todos os dias. Seu papel, segundo aliados, não é só esse. Ele segue em contato frequente com Doria ou seus auxiliares, aconselhando politicamente o governador.

Também defende os interesses do governo paulista em Brasília, em pautas no Congresso, e localmente, ajudando na tramitação de projetos na Assembleia Legislativa.

Quem conhece a dupla, contudo, diz que a relação piorou e que Kassab tem menos ascendência sobre o governo. Boa parte das funções da Casa Civil são desempenhadas por outros secretários de Doria, como Marco Vinholi (Desenvolvimento Regional) e Rodrigo Garcia (Governo).

Kassab é visto no Bandeirantes como um político pragmático e interessado em seu projeto de fortalecer o PSD. Nos últimos tempos, ele anda mais voltado para as eleições municipais --articula contra o adiamento do pleito para além deste ano e pelo uso do fundo eleitoral.

Para consolidar seu partido, quer reeleger Alexandre Kalil (PSD) em Belo Horizonte. Em São Paulo, a sigla tem batido de frente com o PSDB em disputas pelo interior, enquanto, na capital, Andrea Matarazzo (PSD) vai concorrer contra o tucano Bruno Covas.

A eleição municipal é vista no Bandeirantes como um ponto definidor da lealdade de Kassab. Antes do agravamento da crise no governo federal, Matarazzo aventou a possibilidade de ser o candidato bolsonarista na disputa.

O movimento, mal visto pelo tucanato, já foi abandonado por Matarazzo. Resta saber se o candidato do PSD abraçaria Covas num segundo turno. O embarque de Kassab no projeto Doria 2022 também é dúvida -o ex-ministro cita presidenciáveis no seu partido.

Em nota à reportagem, Kassab faz elogios a Doria e a suas ações contra o coronavírus, afirmando que o tucano "tem recebido merecido reconhecimento" e que contribui "da melhor maneira possível".

"Vale ressaltar que a relação com o governador continua boa, como sempre foi, e que [Kassab] lamenta a existência de fofocas da parte de alguns que, alheios à boa política, não enxergam que as saudáveis disputas partidárias e programáticas que acontecem neste momento nos municípios por conta do cenário eleitoral não interferem em relações pessoais e na aliança política com o governo do estado", diz.

Em nota, o Governo de São Paulo declarou que o afastamento foi a pedido e que a atuação na Casa Civil é feita de forma eficiente por Malufe. "O governador João Doria não faz juízo de valor sobre aspectos legais, já que há uma investigação em curso", diz.

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