Kassio deixa na gaveta denúncia contra deputado bolsonarista por ameaças a Moraes

*Arquivo* BRASÍLIA, DF, 17.06.2020 - O deputado federal Otoni de Paula em visita ao Palácio de Planalto em junho de 2020. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
*Arquivo* BRASÍLIA, DF, 17.06.2020 - O deputado federal Otoni de Paula em visita ao Palácio de Planalto em junho de 2020. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Sob a relatoria do ministro Kassio Nunes Marques, a denúncia da PGR (Procuradoria-Geral da República) contra o deputado Otoni de Paula (MDB-RJ) está há quase dois anos sem julgamento no STF (Supremo Tribunal Federal). O parlamentar é um dos vice-líderes do governo na Câmara.

Otoni foi o primeiro político formalmente acusado pela Procuradoria no âmbito do inquérito dos atos antidemocráticos, denunciado sob a acusação de ameaçar o ministro Alexandre de Moraes, relator de apurações que miram o presidente Jair Bolsonaro (PL) e seus aliados.

A acusação é similar à feita contra o também bolsonarista Daniel Silveira (PTB-RJ), condenado pelo STF a 8 anos e 9 meses de prisão, além do pagamento de multa e da perda dos direitos políticos. Silveira recebeu um indulto de Bolsonaro.

Os dois casos, porém, seguem ritmos bem distintos no tribunal.

Entre o envio da denúncia (fevereiro de 2021) e o julgamento de Daniel Silveira (abril de 2022) transcorreram 14 meses.

Já a acusação contra Otoni é de julho de 2020 e não teve nem sequer o recebimento julgado, momento em que os ministros avaliam se há elementos para a abertura de ação penal. Instaurado o processo, as partes podem produzir provas e testemunhas são ouvidas.

Na ocasião, a peça foi encaminhada ao então ministro do STF Celso de Mello, escolhido para ser o relator da matéria. O então decano da corte se aposentou em outubro daquele mesmo ano. No mês seguinte, indicado por Bolsonaro, Kassio tomou posse no lugar de Celso e herdou o acervo processual.

A Folha de S.Paulo enviou perguntas ao gabinete de Kassio, mas não houve resposta. A PGR informou que, em razão do sigilo, não poderia se manifestar.

Encarregado da defesa de Otoni, o advogado Marcelo Bruner afirmou que estava em busca de acesso aos autos com o objetivo, inclusive, de se inteirar sobre a tramitação. Afirmou que após essa providência poderia comentar o assunto, mas não atendeu mais a reportagem.

De acordo com a denúncia da PGR, assinada pelo então vice-procurador-geral da República, Humberto Jacques de Medeiros, Otoni fez transmissões ao vivo pela internet nas quais imputou, por cinco vezes, fatos afrontosos à reputação de Alexandre de Moraes e, por 19 vezes, ofendeu a dignidade e o decoro do ministro. As transmissões ocorreram em 16 de junho e 5 de julho de 2020.

Medeiros afirmou que Otoni empregou "violência moral e grave ameaça para coagir Moraes e, com isso, beneficiar a si mesmo e ao jornalista Oswaldo Eustáquio Filho". Eustáquio também é alvo de investigações no Supremo e chegou a ser preso por ordem de Moraes.

"As expressões intimidatórias utilizadas pelo denunciado escapam à proteção da imunidade parlamentar e atiçam seus seguidores nas redes sociais, de cujo contingente humano já decorreram investidas físicas contra o Congresso e o próprio Supremo", disse o representante da PGR.

Um pedido para afastar Otoni das funções de parlamentar foi cogitado, mas a Procuradoria descartou "por confiar no caráter pedagógico imediato do processo penal em curso, reservando-se, contudo, o direito de formular o pedido na hipótese de necessária cautela".

Em agosto de 2021, Otoni e outros bolsonaristas, incluindo o cantor Sérgio Reis, foram alvos de mandados de busca e apreensão em meio a convocações para manifestações pró-Bolsonaro no feriado de 7 de Setembro. As medidas foram solicitadas pela PGR e autorizadas por Moraes.

O objetivo era apurar o "eventual cometimento do crime de incitar a população, através das redes sociais, a praticar atos violentos e ameaçadores contra a democracia, o Estado de Direito e suas Instituições, bem como contra os membros dos Poderes".

Em discursos para apoiadores feitos naquele feriado em Brasília e São Paulo, Bolsonaro chegou a exortar a desobediência a ordens de Moraes.

Com a aproximação do julgamento de Silveira, o discurso bolsonarista de ingerência do Supremo nos outros Poderes ganhou novo fôlego entre março e abril.

Otoni chamou Moraes de déspota e pediu ao presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), que não se prostrasse "diante dos ditames" do ministro. "Tenha brio, ou, então, renuncie à presidência desta Casa", afirmou no plenário.

No mesmo período, em um movimento apontado como parte das provocações endereçadas ao STF, Bolsonaro indicou Otoni para atuar como vice-líder do governo na Câmara.

No julgamento de Silveira, Kassio discordou de Moraes para absolver o representante do PTB fluminense. Apesar de criticar as declarações do parlamentar com ataques e ameaças a integrantes do Supremo, Kassio entendeu que não houve cometimento de crime.

Para o magistrado, não se pode dar credibilidade a expressões citadas pela PGR, tais como "jogar ministro dentro da lixeira" e "retirar ministro na base da porrada".

"Da narração dos fatos descritos na exordial acusatória, não se evidencia ameaça capaz de, concretamente, causar mal presente, quanto mais futuro", afirmou.

"[As expressões citadas pelo Ministério Público Federal] Nada mais são que ilações, conjecturas inverossímeis, sem eficiência e credibilidade incapazes, portanto, de intimidar quem quer que seja, não passando de bravatas", disse.

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